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O enorme custo da obesidade

O enorme custo da obesidade

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) são a principal causa de morte e de adoecimento no mundo, tendo as dietas inadequadas entre seus maiores fatores de risco. Além disso, as DCNTs representam uma grande carga para os sistemas de saúde, as sociedades e as economias nacionais devido a seu crescente custo. A obesidade impõe um custo alto à saúde das pessoas e da administração pública. Estimativas indicam que as pessoas obesas – com índice de massa corporal (IMC) superior a 30 –vivem de 2 a 10 anos a menos do que as mais magras. O problema não termina aí. Além de furtar anos de vida, a obesidade consome boa parte dos recursos destinados à saúde.

Brasil

O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados em diversas regiões, inclusive na América Latina, e o excesso de sódio, gorduras e açúcar nas dietas representam um desafio às políticas de saúde como causas diretas de doenças crônicas [1]. No Brasil, os custos estimados de doenças cardiovasculares aumentaram em 17% de 2010 a 2015, alcançando R$ 37,1 bilhões no ano de 2015 (US$ 9.6 bilhões), incluindo os custos estimados por morte prematura, os custos diretos com internações e as perdas de produtividade relacionados à doença [2]. De 2010 a 2016, os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) atribuíveis ao diabetes com doenças renais crônicas quase dobraram, passando de US$ 1,4 milhão para US$ 2,6 milhões. Em 2011, os gastos hospitalares e ambulatoriais do SUS com obesidade chegaram a US$ 269,6 milhões, dos quais quase 24% eram atribuíveis à obesidade mórbida [2, 3].

Grande parte dos gastos com tratamento de doenças no SUS, um sistema de saúde universal e gratuito, se concentra nos atendimentos ambulatoriais e hospitalares, assim como na dispensação de medicamentos para controle de doenças crônicas pelo Programa Farmácia Popular [2]. Conhecer os custos das doenças permite dimensionar a magnitude de sua carga para o sistema de saúde e para a economia, assim como avaliar o impacto de políticas implementadas e subsidiar a tomada de decisões ao permitir a comparação da economicidade de distintas medidas [2, 3].

Dados 

No Brasil, o excesso de peso e obesidade são fatores de risco importantes para hipertensão e diabetes, coexistindo, assim, em grande parte dos diabéticos e hipertensos. Segundo dados da PNS 2013, mais de um terço dos diabéticos (37,0%; IC95%: 34,2 a 39,8%) e dos hipertensos (36,3%; IC95%: 34,8 a 37,7%) eram obesos. Além disso, 75,2% dos diabéticos (IC95%: 72,8 a 77,5%) e 74,4% dos hipertensos (IC95%: 73,0 a 75,7%) apresentavam excesso de peso no Brasil.

A hipertensão arterial foi responsável por 59% do custo direto (mais de R$ 2 bilhões por ano), enquanto o diabetes correspondeu a 30% e a obesidade, a 11% (desconsiderando os custos de hipertensão e diabetes atribuíveis à obesidade), com pouca variação de acordo com o sexo. Considerando somente as internações hospitalares, os custos atribuíveis a essas três doenças somaram 9,8% de todos os gastos com hospitalizações de adultos no país. Ainda é importante considerar os impactos da obesidade como fator de risco para hipertensão e diabetes em adultos, os quais não foram considerados nos custos atribuíveis à obesidade na análise anterior para evitar duplicidade de contagem [1, 2, 3].

Em 2018, houve 1 829 779 internações por causas associadas à hipertensão arterial, ao diabetes e à obesidade no SUS. Isso corresponde a aproximadamente 16% do total de internações hospitalares no SUS no período, resultando em um custo total de R$ 3,84 bilhões. Os custos ambulatoriais totais com as mesmas doenças no SUS somaram R$ 166 milhões no ano de 2018, e os gastos do Programa Farmácia Popular com medicamentos para hipertensão, diabetes e asma totalizaram R$ 2,31 bilhões. Os custos diretos atribuíveis a hipertensão arterial, diabetes e obesidade no Brasil totalizaram R$ 3,45 bilhões, ou seja, US$ 890 milhões, considerando gastos do SUS com hospitalizações, procedimentos ambulatoriais e medicamentos [3].

Discussão

Assim, agregar a obesidade a essas comorbidades permite uma estimativa mais completa do impacto econômico da obesidade no SUS. Com a incorporação dos custos da obesidade como fator de risco para hipertensão e diabetes, os custos totais atribuíveis à obesidade aumentam para R$ 669 milhões em hospitalizações e gastos ambulatoriais; e para R$ 722 milhões em gastos com medicamentos, ou seja, um total de R$ 1,39 bilhão em 2018. Mais de 60% dos gastos totais atribuíveis à obesidade foram com mulheres, tendo em vista a maior prevalência de obesidade e o maior risco relativo de alguns desfechos, particularmente doenças cardiovasculares, no sexo feminino [1, 3]

O excesso de peso está associado a uma série de doenças crônicas, incluindo diabetes, doenças cardiovasculares e câncer, reduzindo em 2,7 anos, em média, a expectativa de vida nos países da OCDE. Segundo o estudo, nos próximos 30 anos 8,4% do orçamento de saúde dos países da organização serão destinados a tratar as consequências do excesso de peso, uma vez que os afetados necessitam de serviços de saúde com maior frequência e para tratamentos mais complicados e dispendiosos [4].  A obesidade reduz, ainda, as oportunidades de emprego e a produtividade dos trabalhadores: "O impacto pode ser quantificado como equivalente a uma redução da mão de obra de 54 milhões de pessoas por ano na OCDE, na União Europeia, no G20 e em determinados países parceiros [2].

Entre os custos diretos da obesidade estão maiores despesas médicas e implicações no mercado de trabalho, mas os custos indiretos podem ser ainda mais significativos, segundo o estudo. Pesquisadores de todo o mundo apontam, por exemplo, um maior consumo geral de alimentos, com impacto negativo sobre as emissões de gases de efeito estufa (mais animais produtores de metano, mais embalagens plásticas, mais transporte para levar as mercadorias aos supermercados, etc.) [1, 2, 4]. O conhecimento acerca dos custos atribuíveis a doenças pode subsidiar o aprimoramento e a priorização das políticas de prevenção e enfrentamento das DCNTs, além de fortalecer a defesa de intervenções mais robustas para prevenção dessas doenças, inclusive medidas fiscais e regulatórias [1]. 

 

Referências:

[1] SIQUEIRA, Alessandra de Sá Earp; SIQUEIRA-FILHO, Aristarco Gonçalves de; TERRA, Marcelo Gerardin Poirot. Análise do impacto econômico das doenças cardiovasculares nos últimos cinco anos no Brasil. Arq. Bras. Cardiol. , São Paulo, v. 109, n. 1, pág. 39-46, julho de 2017. 

[2] Siqueira ASE, Siqueira-Filho AG, Land MGP. Analysis of the Economic Impact of Cardiovascular Diseases in the Last Five Years in Brazil. Arq Bras Cardiol. 2017;109(1):39-46. https://doi.org/10.5935/abc.20170068
» https://doi.org/10.5935/abc.20170068

[3] Oliveira ML, Santos LMP, Silva EN. Bases metodológicas para estudos de custos da doença no Brasil. Rev Nutr. 2014;27(5):585–95. http://dx.doi.org/10.1590/1415-52732014000500007
» http://dx.doi.org/10.1590/1415-52732014000500007

[4] Guh DP, Zhang W, Bansback N, Amarsi Z, Birmingham CL, Anis AH. The incidence of co-morbidities related to obesity and overweight: A systematic review and meta-analysis. BMC Public Health. 2009;9:88. https://doi.org/10.1186/1471-2458-9-88
» https://doi.org/10.1186/1471-2458-9-88

Academia Médica
Bárbara Figueiredo
Bárbara Figueiredo Seguir

20 anos. Acadêmica de Medicina na Fundação Educacional de Patos de Minas. Estagiária da Academia Médica. Instagram: @figueiredobabi

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