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Seculofobia - O mal do século do mal

Seculofobia - O mal do século do mal

Em tudo que é lugar agora ouvimos falar de inovação e empreendedorismo, na internet, TV, rádio, na roda de conversas etc. É natural que, com o passar do tempo, tudo aconteça de forma cada vez mais rápida, exponencial. Faz parte do nosso processo evolutivo sociobiológico essa exponencialidade inovadora. Porém, vejamos por outro lado, nem todos pensam da mesma forma sobre isso tudo.

Essa glamourização do empreendedorismo e inovação traz pessoas dos mais diversos propósitos. Há quem entre porque quer produzir, outros somente participar do progresso, outros porque só querem o sucesso, financeiro ou pessoal, outros que acreditam ser hype e outros que vão por força da onda mesmo. Há quem não suporte de fato, prefere ser um observador de tudo ou até mesmo fingir que nada acontece. Há um terceiro grupo, que compões: quem gosta, mas ficou inerte; quem não gostou na época e se arrepende; quem entrou na onda da glamourização e se frustou; e, aqueles que creem que irão perder seus empregos para máquinas, que mais acredito serem mal informados pela teoria do caos.

Vivemos no século da depressão, o mal do século XXI, termo encunhado pela Organização Mundial da Saúde. Sempre achei um péssimo nome pra nomear um século. Imagine um banheiro com o letreiro: quarto de dejetos. Nunca entraria! Ainda prefiro o charmoso cuarto de baño espanhol. Século da inovação seria o mais apropriado. O terceiro grupo estaria mais exposto à essa condição. Uma doença incompreendida, esperando ser reconhecida em seu século.

Esse trauma do terceiro grupo facilita o ambiente ao mal do século. Esse medo ou fobia do que é novo é tão exponencial quanto o que eles mais têm medo. Para que fique claro o medo é uma emoção considerável que faz com que o indivíduo evite situações danosas, enquanto a fobia é um medo desproporcional, afetando de sobremaneira a vida dele. Também tem nome. Ao passo que neofobia é a fobia de tudo que é novo, o misoneísmo é o medo do novo. Termos semelhantes podem incluir a prosofobia, medo do progresso, metatesiofobia, medo de mudanças na vida ou, ainda, a cainofobia, medo da novidade ou de novas situações. Nomes não faltam para descrever a exponencialidade dessa condição.

Segundo os mais pessimistas entraríamos em um caos completo. De fato, perderíamos o emprego para as máquinas, mais pessoas ficariam frustradas, ficando mais depressivas, produziríamos menos e seríamos mais uma vez substituídos pelas máquinas de vez, representando o fim da raça humana. Até procurei aqui, mas não achei ninguém falando dos códigos de barras na pele com o número da besta 666. Também não achei nada sobre machine e deep learning em qualquer escritura sagrada. Tenho convicção de quem cria essas teorias são pessoas que se beneficiam dela. Toda virada de século ocorre diversos suicídios e cumprimento de penitência, pois o Messias está vindo e o arbitrador irá aplicar o juízo final.

Certas pessoas têm esse medo até inerente nela. Talvez por criação dos pais, personalidade, profissão, falta de informação etc. Em alguma caverna do passado poderia se ouvir “largue essa pintura na parede, ela será sua morte”. Até Sócrates tinha certeza que a escrita era algo desnecessário. Nem comento sobre tudo o que houve de tecnológico e/ou inovador depois disso.

No Brasil quando o funk surgiu parecia a teoria do caos, lembraram-me que quando o rock’n roll surgiu também foi assim. Riram de Bill Gates falando da internet na década de 90. Quando o eletrocardiograma, estetoscópio, radiografia etc surgiram, advinha… “vou perder meu emprego para máquinas”. Por milênios muitos achavam que “máquinas” iam tirar empregos. Assim como a fobia, tal convicção é irracional e está fora do contato com a realidade. Ainda bem que temos a história para “senta aqui, meu neto, deixa te contar uma história”. Ela nos mostrou que a tecnologia não só modificou as atividades empregatícias, como aumentou.

Dalton não conseguiu manter a ideia da indivisibilidade do átomo, mas a indivisibilidade dos conceitos de criatividade e inovação vão perdurar sim. Duabili já falava que a criatividade é a faísca, enquanto a inovação é uma mistura gasosa. Enquanto a faísca dura um pequeno instante, o gás conserva e materializa-se no tempo. Para Brabandere, a criatividade é individual, enquanto a inovação é coletiva, por isso determinada pessoa é criativa e determinada empresa é inovadora.

Não fomos ensinados a fracassar. Um erro médico, por exemplo, em que o fracasso custa a vida ou a função de outra pessoa, é cimentada na cabeça dos jovens estudantes de medicina. Nem preciso comentar sobre o índice de depressão nesse grupo. A teoria da infalibilidade só serve para dogmas pontífices.

Minha teoria é mais simples. A população cresce cada vez mais, nos misturamos cada vez mais, estamos cada vez mais conectados. Em breve saberemos como nunca sobre a gente, sob todos aspectos. Envelheceremos mais e novas doenças surgirão, de fato! Porém, entenderemos mais as que existem hoje. Trabalhos mecânicos que nos deixam fora de casa, longe da família, mas mais próximo do indivíduo do outro lado do mundo, serão substituídos por máquinas. Novas profissões surgirão e as velhas serão modificadas. Trabalharemos menos tempo e seremos mais humanos. Usaremos mais nossos 5 sentidos e deixaremos que problemas de repetição sejam resolvidos pelas tão temidas máquinas.

O século da depressão exige mentes mais criativas, e quando houver gás, essa faísca vai materializar, construindo empresas mais inovadoras. Entenderemos mais a gente. Não estou dizendo que acabaremos com o medo. Aliás precisaremos do medo para sobreviver, faz parte do nosso instinto. Criaremos outros medos, pois faz parte também da nossa personalidade. A mesma história que nos prova que a tecnologia nos trará novas condições e profissões mostra que teremos novos medos e novos desafios.

Eu e meus techpatients acreditamos que finalizaremos 2100 como o século que curou o mal do século.

 

 


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