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A “onda oculta” da COVID-19

A “onda oculta” da COVID-19

O Brasil, no momento em que escrevo, está vivendo o pior momento do pior caos sanitário das últimas décadas e isso não é exagero ou intriga da oposição.

Colegas sendo médicos, gestores ou políticos de diferentes pontos de vista concordam: “a situação está desesperadora”

Hospitais/covidários improvisando campanha em um verdadeiro estado de guerra, serviços particulares, outrora famosos por terem vagas de UTI (mesmo que custando uma casa), não têm vagas mesmo quem pague mais, falta de medicamentos para intubar e para sua manutenção, aparelhos de diálise no máximo e médicos no limite da atuação profissional, saúde física e mental

A definição de “onda” foi um termo criado para definir o gráfico do número de casos de covid-19 em função do tempo, todos os países do mundo almejam que essa onda se achate e tenhamos o mesmo número de casos porém em um tempo maior para o sistema de saúde não entrar em colapso e termos tempo para vacinar os grupos de risco.

O número de casos de covid-19 é considerado por muitos cientistas inevitável, porém suas consequências mais pesadas podem ser evitadas.

Já é conhecido em vários países uma segunda e até a possibilidade de uma terceira onda. Europa, Ásia e até os EUA vivem à sombra de qualquer momento, mesmo com vacina tendo que declarar medidas de restrição de circulação de pessoas como o lockdown.

A decisão difícil de ao mesmo tempo evitar o espalhamento do virús, matar a economia e trazer danos as pessoas e a democracia. No Brasil, os mais pessimistas acreditam que não saímos da primeira e o que vivemos hoje é, na verdade, a onda da onda”.

A partir disso, já estamos constatando como unanimidade por quem trabalha até indiretamente contra a covid-19 é que nosso, já deficiente sistema de saúde, está no limite e pior de tudo que também existe uma “onda oculta” da covid-19, muito ignorada por muitos.

Essa onda oculta consiste em doenças, procedimentos preventivos e curativos que são negligenciados ou deixados de canto para dar prioridade ao atendimento dos doentes pela pandemia.

Em ambulatório já encontrei casos de pessoas que não conseguiram ou tem muito medo de ir ao pronto socorro "não covid" e seguram ao máximo a ir no médico assim tendo mais complicações e casos mais complexos. 

Abdômen agudo, acidentes domésticos, suspeita de AVC, IAM, piora de doença psiquiátrica são exemplos de situações que hoje não vemos no PS covid, mas foram para ambulatórios particulares, consultórios e até mesmo na conversa com o vizinho médico no "atendimento de corredor do condomínio" para evitar que realmente ninguém se contamine.

O AC camargo estima que após a pandemia haverá muitos casos de câncer com timing terapêutico perdido e perda de tratamento precoce devido à pandemia. O que já seria um desastre de saúde e financeiro já que com tratamentos mais complexos o custo aumenta exponencialmente. Já é visto nesse caos social que os quadros de doenças mentais como ansiedade, depressão ou transtornos ligados principalmente ao luto aparecem ou pioram. 

É quase impossível fazer MEV em um país que praticamente tem o luto de alguém querido por covid ou por falta de atendimento, ou fazer exercícios e interação social.

Isso quando não é obrigado a pegar transporte público cheio para simplesmente trabalhar para não morrer de fome e pagar os remédios que evitam que doenças crônicas piorem.

A tristeza, a depressão, a ansiedade e o medo viraram rotina no brasileiro comum.

A onda oculta pode não aparecer porque geralmente não vende notícia, político não pode se exibir por vacina ou tratamento precoce de situação duvidosa, burocrata só usa para a autopromoção e todos não percebem que essa discreta inundação é prenúncio de um tsunami pior ou igual à covid-19.

Dengue, cancêr, IAM, AVE, pneumonia, tuberculose, HIV, Asma, DPOC e afins não tiram férias porque o coronavirus apareceu, eles só são ignorados em uma situação que esta cada vez mais comum aos médicos que têm que escolher quem vive e quem morre por um ECMO, diálise, respirador e vaga de UTI.

O naufrágio do SUS foi um desastre anunciado nesse mar de ingerência e má gestão. Desde sua criação que de "proposta para um sistema de saúde público e de qualidade(gratuito vem do imposto)" foi para "arma política e oásis burocrático".

E nessa tormenta no mar da covid quem se afoga é o brasileiro comum incluindo os pacientes e os médicos. E que como diria um político com uma frase de 2016 que resume a atual situação: "que Deus tenha misericórdia dessa nação".

 


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Henri Hajime Sato
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Médico, curioso local, formado em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos, falhei em ser patologista pelo hospital de amor de Barretos e hoje procuro a significancia na vida e no trabalho

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