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Saúde 5.0 vs Sociedade 5.0: as discussões da telessaúde e inclusão de pacientes

Saúde 5.0 vs Sociedade 5.0: as discussões da telessaúde e inclusão de pacientes

Os termos telessaúde e telemedicina têm sido bastante falado nos últimos anos, em especial no ano de 2020 por conta da crise mundial de saúde causada pela pandemia do Sars-Cov-2. No entanto, grande parte da população brasileira ainda está alienada a essas terminologias e a todo esse processo de mudança que vem ocorrendo dentro do sistema de saúde.

Primeiramente, precisamos entender que embora muitas vezes utilizadas como sinônimos, telessaúde é diferente de telemedicina, sendo a primeira algo mais abrangente, envolvendo todas as ferramentas tecnológicas para os serviço de saúde, sendo “uma nova maneira de pensar os processos de saúde, quebrando a barreira da distância, usando as tecnologias da informação e telecomunicação”, e a segunda uma área mais específica, utilizando-se dessa tecnologia para diagnósticos, acompanhamento e tratamento médico, é o que diz Angélica Baptista Silva, estudiosa do assunto e escritora do livro “Telessaúde, conceitos e aplicações” (1).

Para o Dr. Morsch (2), cardiologista e fundador da Telemedicinamorsch, a telessaúde é um campo bastante abrangente e estruturado. Ela é formada por subáreas, como tele-educação sanitária ou em saúde, redes de investigação e tele-epidemiologia, redes de administração e gestão em saúde. E tem ajudado a democratizar cada vez mais o acesso à saúde no país, levando-a até mesmo aos lugares mais remotos. Além disso, ela vem proporcionando exames melhores e mais precisos, visto que permite a realização do telelaudo. E aproxima o médico e o paciente, tornando o atendimento mais humanizado. Ele ainda afirma que a telessaúde, em suma, é um dos grandes exemplos de como a tecnologia pode contribuir para garantir o bem-estar da população.

Com relação a história, Zundel (3) relata o envio de uma radiografia para serviços especializados em radiologia nos Estados Unidos por meio de fax, sendo esse o primeiro registro do uso de tecnologias para realização de testes diagnósticos em 1950. Desde então, e principalmente com os avanços tecnológicos da era moderna, as dificuldades de acesso a exames em áreas remotas e rinchões foram sendo transpassadas (4).

Sem dúvida, o ano de 2020 é o ano do marco da telessaúde no Brasil, pois devido à pandemia do novo Coronavírus, o Ministério da Saúde teve que aumentar bruscamente o número de atendimentos diários e sem expor profissionais ao risco, permitindo que as pessoas realizassem atendimento médico remoto e para isso teve que lançar mão dessa grande ferramenta. Somente o Tele-SUS, serviço de teleconsulta do Sistema Único de Saúde (SUS), atendeu mais de 1 milhão de pessoas no mês de abril de 2020. Destes, 471,6 mil foram avaliados sobre os sintomas da Covid-19 e cerca de 13 mil foram encaminhados para teleatendimento pré-clínico com médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem (2).

Não é novidade que o SUS foi a primeira política pública no Brasil a adotar constitucionalmente a participação popular como um de seus princípios, esta não somente reitera o exercício do controle social sob as práticas de saúde, mas também evidencia a possibilidade de seu exercício através de outros espaços institucionalizados em seu arcabouço jurídico, além dos reconhecidos pela Lei Orgânica de saúde de n° 8.142/90, os conselhos e as conferências de saúde (5).

No contexto tradicional, fora do campo digital, enfatiza-se a institucionalização de espaços de participação da comunidade no cotidiano do serviço de saúde, através da garantia da participação no planejamento do enfrentamento dos problemas priorizados, execução e avaliação das ações, processo no qual a participação popular deve ser garantida e incentivada (6).

Sendo assim, no atual cenário, em que vemos cada vez mais a implementação de tecnologias para a saúde, o uso de meios de comunicação digital, inteligência artificial, surgem as seguintes discussões: como está acontecendo a participação social? Como está havendo a inclusão de paciente na implementação dos programas de telessaúde e com está se dando a participação ativa da comunidade e sua adaptação a essa nova realidade?

Piropo e Amaral (7), ao analisar o contexto e as implicações da telessaúde na Bahia, citam que para o sucesso do programa, é fundamental o envolvimento da comunidade e do poder público na identificação de áreas e populações que apresentem agravos de saúde e/ou deficiência na assistência. A partir de um levantamento técnico capaz de apontar os reais problemas de saúde, é possível adequar as condutas à realidade local e às condições culturais e socioeconômicas da população a ser beneficiada pelos serviços advindos da implantação da telessaúde.

Como bom exemplo de implementação dessa tecnologia, Rafael Lobo (8) relata em um post na Academia Médica sobre o case de sucesso do Hospital Israelita Albert Einstein, onde a implementação da telemedicina, dando suporte ao SUS com apoio do Ministério da Saúde, teve excelentes resultados para todos os pacientes neurológicos elegíveis a uma avaliação de um especialista por meio dessa ferramenta tecnológica.

Sem dúvidas, a telemedicina é um grande instrumento e está tornando possível o direito de acesso a saúde de populações antes inacessíveis, porém, vale ressaltar que na esfera pública é necessário bastante fiscalização para que os serviços de saúde possam ser ofertados com qualidade e equidade, e parte dessa fiscalização é realizada pela própria população através dos conselhos, ou da participação popular ativa, e se a população ainda não está discutindo isso através dos seus conselhos de saúde, estamos colocando em risco a implementação responsável da telemedicina, de maneira segura e com qualidade.

O Dr. Chao Lung Wen, professor líder do grupo de pesquisa de telemedicina da Universidade de São Paulo (USP), durante o seminário "Transformação Digital na Saúde", realizado pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), em São Paulo, no dia 11 de dezembro de 2019, trouxe uma palestra intitulada “Telessaúde e telemedicina: desafios para uma nova era de cuidados”, onde ele afirma que:

“A telemedicina precisa ter qualidade, segurança, sigilo e capacidade de auditoria”.

Ele explica que isso já é um processo da saúde 5.0, ligada a uma sociedade 5.0, ou seja, uma sociedade interconectada em um ecossistema digital, onde é real o armazenamento em nuvem, a inteligência artificial, impressão em 3D, robótica e etc (9). Essa sociedade precisa participar ativamente desse processo de transformação da saúde, e nós, pesquisadores, estudantes, médicos e outros profissionais da saúde, precisamos entender como essa sociedade está reagindo e recebendo essas mudanças, para que possamos alcançar de fato uma saúde de qualidade e universal, tanto no sistema privado (como o Case Albert Einsten) e no sistema público de saúde.

Parafraseando Wiliam Ford, a sociedade 5.0 já existe no Brasil, mas ela ainda não está uniformemente distribuída, pois ainda há muitos rinchões, onde nem se quer a internet é uma realidade local. Por isso, faz ainda mais necessário essa discussão sobre a participação popular nesse processo, pois a realidade de determinado local no Brasil é completamente diferente de outras.

Leonardo Cardoso (10) também levanta essa questão em seu post na Academia Médica, onde ele afirma que “é preciso estar atento a outros pontos que envolvem a telemedicina, como o acesso da população a essa ferramenta”, e acrescento que esse acesso não se deve apenas como pacientes ou expectadores, mas como construtores e parte dessa mudança.

O ano de 2020 até o presente momento tem sido um catalisador de mudanças, um acelerador de estratégias e um disruptor de ideias. Podemos ver que na primeira Conferência de Saúde Online do Rio Grande do Sul, realizada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), teve a telemedicina como primeiro tema debatido, e algo que destaco aqui é a frase dita por Eduardo Neubarth Trindade, vice-presidente do CREMERS, dizendo que a telemedicina é uma ferramenta que tem que beneficiar o paciente:

“A telemedicina não serve para beneficiar as grandes operadoras de saúde, ou mesmo o SUS, nem os gestores municipais, estaduais ou nacional que desejem baratear o custo da medicina, não oferecendo um médico para atendimento presencial”.

A literatura ainda é muito superficial sobre estas discussões, pois pouco há publicado sobre o assunto, e em minha realidade no interior do Pará, também pouco se ouve falar ou comentar entre a população, e mesmo entre médicos, ainda há resistências e desconhecimento, em uma espécie de alienação acerca do mundo moderno e suas novidades. É necessário ampliar o debate por meio das conferências municipais e estaduais de saúde, nas reuniões de conselhos populares e na sociedade como um todo, para que a evolução da sociedade seja paralela a da saúde. Por fim, se você acha que devemos iniciar essa discussão agora, você já está atrasado.

 


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Referências

 

Academia Médica
Leandro Costa
Leandro Costa Seguir

Acadêmico de Medicina da Universidade Federal do Pará. Diretor de pesquisa da Liga Acadêmica Paraense de Neurologia (LapNeuro). Apaixonado por neurociência e entusiasmado com inovações tecnológicas.

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