Gestão da informação médica
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Gestão da informação médica

Difícil entender os meios que proporcionaram toda essa tempestade de informação. A facilidade como os dados são gerados e organizados tornou a nossa vida muito mais dinâmica do que apenas há alguns anos atrás. Isso foi foco de uma palestra que ministrei no II Fórum de Integração do Médico Jovem, em Abril de 2015 em Recife...

Estamos conectados a tudo e a todos. Cada minuto vivido geram dados que podem ser entendidos e organizados. Muitos desses dados podem ser tratados por muitos como “lixo”, mas é nesse lixo que a “indústria de tudo” vê uma riqueza enorme de informações sobre a forma individual e única que você vive a sua vida. Desta forma, na posse deste lixo organizado em sistemas inteligíveis, como um verdadeiro espião, os sistemas de inteligência de BIG DATA podem fazer inferências sobre o como você se veste, compra, alimenta-se, consome, faz esportes, ouve música, assiste filmes... ou seja pode adivinhar com uma alta taxa de acerto o como você vive sua vida. Riquíssimo material que nas mãos dos publicitários das grandes indústrias, aumentam gradualmente as vendas de uma determinada empresa.

A popularização da internet proporcionou essa geração absurda de dados. Isso porque, no ambiente digital não há separação de classes pelo poder aquisitivo. Um dado extremamente atual já aponta que a Classe C, devido a popularização do acesso a smart devices, já é pouco mais da metade de toda população que acessa a internet no Brasil.  Em pouco tempo podemos imaginar algo próximo dos 90% da população com acesso a internet, de uma forma ou de outra.

Todos dirão aos mercados, “sem querer”, o como se comportam e como consomem. Em tempo real, todos esses dados serão captados e avaliados, indicando a todos os tipos de consumidores, os tipos de produtos que eles devem consumir, com base nos seus gostos e suas crenças.

Assustador o que a tecnologia da informação fez com a maioria dos mercados, não é mesmo? Mas e a medicina? Será que não utilizamos desta tecnologia social? Quais seriam os benefícios e malefícios dessa evolução toda?

Hoje, a saúde/medicina é o 3º maior mercado em todo mundo. Sempre soubemos que saúde é muito caro. Não pelos nossos honorários, mas sim por tudo mais que ela envolve. Mas, se é um mercado tão grande, por que a tecnologia da informação demorou tanto para ter aplicações na medicina.

Não demorou.

Alguns podem afirmar que a medicina só evoluiu devido aos métodos como a informação começou a ser organizada.

É notório que o desenvolvimento da arte médica só ganhou força quando as primeiras revistas científicas começaram a ser editadas. Isso só aconteceu porque alguns centros começaram a guardar e organizar de forma cartesiana a grande quantidade de dados gerados por uma série de casos. Nos seus mais de 200 anos, o New England Journal of Medicine é uma das mais antigas revistas científicas do mundo, e como tantas outras revistas que o sucederam, deram as bases para que o conhecimento científico fosse organizado e propagado nos livros que tanto nos apoiamos para aprender medicina.

Estes mesmos livros nos fazem acreditar que 90% do diagnóstico reside na anamnese e exame físico. Eles nos ensinam que para você atender bem um paciente e ter um bom raciocínio clínico você deve primeiro coletar todos os dados do paciente, estrutura-los na forma de um documento que pertence ao paciente mas é de posse da instituição que foi atendido ou do médico que o atendeu, para aí sim, passar para o exame físico que deverá ser também devidamente documentado no prontuário do paciente. A junção destes dados somados ao nosso raciocínio clínico promove a primeira hipótese diagnóstica e, consequentemente uma primeira decisão sobre os exames que serão solicitados e o tratamento que deve ser iniciado paciente.

Então basicamente, de uma forma bastante nua, a medicina é uma consultoria baseada na obtenção de dados e processamento dos mesmos. E como toda consultoria de qualidade, nos é exigido a melhor opinião que podemos dar sobre os dados que conseguimos levantar e organizar, diagnosticar e, assim, levantar possíveis soluções para o paciente. O problema é que pesquisas apontam que a chance que o paciente tem em sair de uma primeira consulta com o diagnóstico fechado e tratamento correto é de apenas 54%.

Segundo o consultor empresarial António Carlos Ferreira: Consultoria empresarial "É um serviço de aconselhamento contratado por organizações junto a pessoas qualificadas e especialmente treinadas para lhes dar, de uma forma objetiva e independente, a possibilidade de identificar problemas gerenciais, analisar esses problemas, encontrar a seguir soluções recomendadas pela consultoria e, por fim, eventualmente, conseguir ajuda para implementação dessas soluções ", (QUINTELA, 1994)

Posto isso, fica evidente nossa semelhança com qualquer outra forma de consultoria. Mas diferente das outras consultorias “comerciais” a nossa consulta é contínua e individualizada. É matéria prima para que o paciente e colegas médicos possam utilizar dos dados por nós gerados na sua vida e no seu trabalho como consultor, respectivamente. Colocando desta forma fica claro a necessidade de gerir de forma adequada toda esta informação médica. Mas apesar de sempre termos feito este tipo de trabalho, porque estamos mais atrasados que os outros setores da economia?

O Paradoxo da medicina

Apesar de ser uma das áreas da ciência que mais evoluiu com o advento das tecnologias, quando o assunto é gestão da informação estamos apenas engatinhando. A indústria, o comércio, as finanças e até o sistema público, adotaram a tecnologia da informação para a manutenção de seus ecossistemas.

Tradicionalmente 40% da atividade na área da saúde consiste em na captura e processamento da informação. Isto é fato, não importa se sua consulta dure 10 ou 60 minutos. Você irá passar ao menos 40% deste tempo levantando os dados, documentando-os e processando-os. Ou seja, neste cenário de “microconsultas” você passa no mínimo 4 minutos por consulta, alimentando de dados o prontuário do paciente. Ao final de um dia, após atender 40 pacientes, você deve passar pelo menos duas horas e 40 minutos revisando consultas anteriores e documentando os novos dados obtidos na nova consulta.

Somos munidos de Tomografias computadorizadas, PET-TC, Point of care, vacinas, Marcadores tumorais, marcadores genéticos, Reação em cadeia da polimerase, tractografias, robôs cirúrgicos prédios luxuosos e funcionais... Muito diferente do que era há 100 anos! Mas infelizmente a forma de armazenar as informações obtidas pelos diversos profissionais e diversos exames complementares, não mudou em praticamente nada.

Ainda, mesmo gastando boa parte de nossas consultas em revisão e documentação, muitas vezes o fazemos de forma errada e arcaica. Todo o método que Descartes introduziu para se fazer ciência é rasgado inúmeras vezes no nosso dia-a-dia, a exemplo de:

Mais de 90% das prescrições médicas e prontuários são escritas manualmente e armazenadas incorretamente:

Toneladas de papel, muitas vezes em registro único e sem cópia, são gerados todos os dias e guardados em caixas de armazéns gigantescos;

 São escritos nas mais diversas cacografias. O mesmo prontuário pode ter anotações de diversos médicos e profissionais da saúde;

São sujeitos à ação do tempo, acidentes e “perdas” inexplicáveis;

Sujeitos a erros e à preguiça;

Não são sistematizados, logo encontrar uma informação específica naquela pilha de papeis torna-se uma tarefa das mais difíceis;

Os dados não são populacionais, logo estudar uma série de casos exige um tempo de análise sobre os dados absurdo e desumano;

É um cemitério de informações, pois muito do que está ali jamais será recuperado ou procurado.

Sujeito aos mais diversos tipos de fraude, devido a precariedade dos serviços de segurança que utilizamos para chancelar os documentos por nós produzidos.

 

Para tentar solucionar todos estes problemas, a indústria de softwares em conjunto com hospitais e empresas de saúde suplementar criam robustos sistemas, com valores multimilionários aplicados em seu desenvolvimento. Na era do empreendedorismo vemos diversas iniciativas que baseiam-se em boas ideias, mas que muitas vezes não evoluem devido a alguns fatores:

A legislação não acompanha a velocidade da inovação

Raramente médicos participam ativamente do desenvolvimento. Então o resultado de boa parte destas iniciativas é falho na sua origem. Apesar de residir em uma boa ideia, esbarra na falta de aceitação de seus usuários finais.

Dogmas éticos podem barrar o desenvolvimento de novas tecnologias que poderiam tornar o médico mais disponível (paralelo entre indianos, americanos e brasileiros

Dificuldade de integrar a pluralidade de iniciativas que não “falam” a mesma língua

É obvio que vivemos a Revolução da informação. O google já é onipresente. Meios para a coleta de dados já estão vestindo a enorme maioria das pessoas. Nos comunicamos em tempo real sem praticamente pagar nada por isso. As pessoas estão conectadas, mas mas os médicos não estão conectados com elas. A medicina aos poucos começa a aceitar essa nova realidade por ser obrigada a isso. Garanto que mais de 80% dos senhores tem um iphone no bolso. E posso apostar que as únicas funções que utilizam é o whatsapp, facebook, email, agenda, o navegador da internet, e só. Quem sabe, alguns ainda utilizem algum aplicativo para ler a revista científica que mais gosta. Mas isso é raridade. Vivemos a Revolução da Informação, a medicina está mergulhada nestas novas possibilidades, que infelizmente não o engajamento dos médicos para acelerar este desenvolvimento. Mas não temos como negar que o nosso mundo como médicos está em expansão:

Nosso mundo está se expandindo

Tremenda expansão técnica diagnóstica e terapêutica;

Tendência para a individualização do tratamento;

Um vasto campo de conhecimento em expansão

A solução demanda o uso intensivo de novas tecnologias de informação

Para reduzir erros

Para aumentar a qualidade

Para aumentar a cobertura

Para aumentar a agilidade e eficiência…

E, ao mesmo tempo, diminuir os custos

Integração entre sistemas de atenção em vários níveis da comunidade

Mudanças nos consumidores e no acesso à informação

A solução é a automação da informação médica. Ou Informática médica.

Respeitando os aspectos bioéticos envolvidos, esta é a única forma de trazer a medicina por completo para este mundo conectado, informado e inteligente que vivemos hoje.

Vale lembrar que somos os tradutores e detentores de uma informação individual, sigilosa, que não nos pertence. Por este motivo os padrões para a manutenção destes sistemas devem respeitar os mais criteriosos processos de inviolabilidade. Ta aí um dos primeiros motivos que dificultaram o desenvolvimento da tecnologia da informação em medicina.

Sabedoras do pote de ouro que significa desenvolver um bom sistema de prontuário do paciente, diversas empresas se aventuram nesta área, criando softwares que não conversam entre sí, impossibilitando a troca de informações entre programas diferentes.

A maioria dos sistemas de prontuários eletrônicos foi desenvolvido primeiramente para resolver um problema de gestão financeira dos hospitais e da saúde suplementar. Logo eles são muito bons em gerir gastos e demandas financeiras, porém são péssimos para o médico, demais profissionais de saúde principalmente para o paciente. Não são amigáveis ou práticos para quem trabalha e os alimenta diretamente. Logo geram uma antipatia que impossibilita a implantação total daquele sistema.

A complexidade que só o sistema de saúde possui:

A informação deve ser centrada no paciente, organizada e disponível para ele:

Os pacientes são atendidos assincronicamente em um grande número e variedade de entidades;

Os pacientes têm mobilidade geográfica;

A atenção à saúde é financiada de múltiplas formas, que podem mudar com o tempo;

Há a necessidade de um registro e acesso unificado e integrado;

Deve haver disponibilidade instantânea de dados completos, atualizados e livres de erros;

O paciente é o proprietário dessas informações;

As instituições têm a guarda e a responsabilidade;

Como solucionar? Sistema de comunicação de dados que devem integrar Resultados de exames laboratoriais e de imagem, Telemetria vital, Notificação de agravos e geração de dados epidemiológicos, Solicitações e autorizações, dados de faturamento, e principalmente, dados gerados pelo paciente.

Informática médica é então:

É a área interdisciplinar comum às ciências da saúde e da informação, que com o uso das tecnologias apropriadas permite, de forma automatizada, coletar, armazenar, processar, recuperar e difundir dados para adquirir, ampliar ou determinar os conhecimentos que levem a uma tomada racional e oportuna das decisões na atenção aos pacientes, na pesquisa e na educação.

Somente através da aceitação do que a informática médica pode nos proporcionar, associado ao uso ético de todas essas ferramentas teremos um caminho próspero para a medicina, que será completamente diferente do caos que vivemos hoje.

Fontes: Academia Médica; Renato Sabbatini - EduMed; Wikipedia; SBIS

Fernando Carbonieri
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Inovação é sua forma de exercer a medicina. Em 2012 criou a Academia Médica, comunidade dedicada a "FALAR O QUE A FACULDADE ESQUECEU DE NOS CONTAR". Membro Comissão do Médico Jovem do CFM, Palestrante, Hacking Health Curitiba e Brasil

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