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A cultura da Netflix e a medicina

A cultura da Netflix e a medicina

Acabei de terminar o livro: "A regra é não ter regras" que conta sobre a Netflix. Nele aprendemos que não é a toa que esta empresa revolucionou todo o setor de entretenimento. Toda a organização da empresa é disruptiva. Destaco alguns aspectos (tentando não dar spoilers…): não há política de férias, não há prestação de gastos, constante feedback entre os diversos níveis hierárquicos, alta densidade de talentos (pessoas que não contribuem substancialmente são demitidas), salários acima da média de mercado, etc. Vale muito a pena ler o livro para mergulhar a fundo nesta empresa extraordinária.

Mas ao ler o livro, constantemente me peguei pensando: "seria possível adaptar esta cultura à medicina?" O ensino da medicina ainda é extremamente tradicional. Ele é baseado num profissional experiente e um médico aprendiz que acompanha o mais velho. Apesar de toda inovação tecnológica, ainda estamos presos neste método de ensino, que é bastante engessado. 

Na residência médica há uma estrutura hierárquica que se assemelha muito ao mundo militar. O R1 (residente de primeiro ano) responde ao R2, que responde ao R3, que responde ao médico assistente (conhecido como staff dependendo do local). Em alguns hospitais é proibido pular essa ordem. O R1 é proibido de falar diretamente com o assistente, e nem pode falar diretamente com o R3. Nos anfiteatros durante as aulas, há locais pré-determinados que devem ser ocupados por professores, assistentes mais novos e residentes. Tudo muito diferente do Netflix…. 

Não creio que seja possível adaptar  o "jeito Netflix" ipsis literis ao mundo médico. Em determinadas situações como numa cirurgia, a hierarquia é importante. Em situações que necessitam de rápida resposta, e vida e morte estão em jogo; ordens são dadas e respostas devem ser rápidas. Entretanto, mesmo estas situações têm a ganhar quando uma política de comunicação é estimulada. Malcom Gladdwell no livro "Outliers: fora de série" conta a história da Korean Air, onde um avião chegou a cair por falta de uma comunicação adequada. O copiloto percebeu que o avião estava ficando sem combustível, mas não avisou o piloto para não desafiar a hierarquia.

Tenho certeza que a medicina precisa se reinventar e aprender com métodos de gestão e relacionamento inovadores e modernos. Uso o exemplo da Korean Air para estimular residentes a darem opiniões durante um procedimento cirúrgico. As vezes ficamos tão fixos em uma ideia e uma maneira de olhar, que não abrimos nossa visão periférica e não conseguimos pensar diferente. Um novo olhar da situação pode nos dar diversos insights interessantes. Como seria uma sala cirúrgica numa cultura de feedback aberto e constante? Você imagina um R1 discordando do cirurgião durante o procedimento?

Médicos em formação leem artigos científicos recém-publicados e aulas do mundo todo. Esta exuberância de dados possibilita que jovens possam ter mais conhecimento que pessoas mais experientes. Porém, a experiência do mais velho é fundamental, e pode direcionar um tratamento para um caminho inesperado, mesmo que este caminho pareça inadequado para o médico iniciante. 

Este é o desafio que vivemos, encontrar o balanço entre a experiência e o dado. Encontrar a melhor forma de dar voz aos jovens, de diminuir as diferenças entre as "patentes". Porém, preservar o valor da experiência, da disciplina e do respeito. Eu acredito no valor da inovação neste processo de transformação. É nosso dever acabar com frases como: "sempre fiz desse jeito e sempre deu certo; por que mudar?". Esse tipo de pensamento é comum na saúde e precisa ser abolido. A transformação é necessária e urgente, devemos deixar a medicina com "um jeito mais Netflix".

 


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Leandro Ejnisman
Leandro Ejnisman Seguir

Médico ortopedista, especializado em cirurgia de quadril e apaixonado por inovação

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