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Ainda nada no Front

Ainda nada no Front

“A humanidade tem apenas três grandes inimigos: a febre, a fome e a guerra. Desses, de longe, o maior e mais terrível é a febre.” – William Osler, 1896. 

Eu estava no Pronto Socorro quando tudo começou. Preparativos se desenvolvendo aos poucos: alas sendo isoladas, um ou outro caso de estrangeiro com febre, sem confirmar nada. Mas aquele clima amigável de sempre, de uma hora para outro mudou completamente.

Lembro de quando era novo e conversava com um alemão bem mais velho sobre a Grande Guerra. Há sempre um clima de alheamento e de banalidade – preparativos que parecem desproporcionados – a gente se acostuma a ver o preparo e situação de nada funcionando, até que um dia, o noticiário começa a relatar casos em progressão geométrica. A guerra, enfim, batendo a porta e as explosões cada vez mais perto.

Olho para meus amigos. Quando será que poderemos tomar de novo uma cerveja no bar de sempre? Quando será que seremos enviados para as trincheiras? Temos a esperança de que as medidas tomadas sejam efetivas. A ansiedade coletiva também entra em nós. 

Ainda assim, acordamos todos os dias e seguimos para o trabalho – não podemos trabalhar de casa como alguns, por isso o dever chama. Tentamos dar um clima de tranquilidade aos dias. Quando será que nos abraçaremos e cantaremos que não há nada de novo no front? As normas de isolamento ainda não nos permitem. 

A humanidade já passou por momentos piores. Milênios sem antibióticos, peste negra, cirurgias imundas que matavam mais do que curavam, gripe espanhola, malária, dengue. Isso sem falar nas guerras inúteis, nas desigualdades sociais, a fome – é, velho Osler, você está sempre certo! Agora é mais uma vez a velha senhora vestida de febre olha languidamente para nossos avós. Não, não teremos um fim apocalíptico. 

Jovens, são sempre os jovens. Olho de novo para meus colegas que estarão ali combatendo. Direta ou indiretamente seremos todos afetados. Talvez percamos alguns, mas estaremos bem servidos de pessoas com o senso de humanidade e competência de que precisamos. A esperança renasce mais uma vez. 

Breve, quando tudo passar, será um tempo de repensar sobre o funcionamento de tudo, sobre os valores, sobre a vida. Espero que não seja em vão e que a humanidade possa sair dessa crise, que nos abala de tempos em tempos, melhor e mais correta, amadurecida, e, se possível, livre de todos os aspectos cruéis que se tornaram normais.

Por fim, que seja uma oportunidade para fortalecer os serviços de saúde. Não percam a fé e a esperança na humanidade. 

Um abraço simbólico e respeitem o isolamento. 

 


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José Pedro Baima
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Médico pela Universidade Federal do Ceará. Residente de neurologia do Hospital das Clínicas da FMUSP.

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