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Amor nos tempos do corona: viver é um presente

Amor nos tempos do corona: viver é um presente

Semana do Dia dos Namorados. Estive na livraria enquanto aguardava o relógio apontar às 10 horas da manhã para ir a um compromisso.
Despretensiosamente olhando aquelas grandes mesas amarronzadas e retangulares com livros recém lançados, em promoção, recorde de vendas. Não comprei nenhum livro, sabia que havia outra pilha de livros intocados em casa me aguardando, mas, esse é um defeito clássico, comprar livros enquanto ainda não se esgotaram os que compramos na última remessa.

Uma senhora septuagenária entrou na loja com passos firmes, andava sinuosa entre as prateleiras e mesas, parecia procurar algo especial. Ao passar por mim, desejou-me um bom-dia sereno e sorriu com os olhos, tinha um cabelo castanho de forma geométrica muito bem cuidado. Seu corpo era o testamento que a maturidade houvera chegado, com a pele mais fina e enrugada, mostrava-se a nova fase, um misto da necessidade de delicadeza sem infantilidade.

No fundo da loja, comecei a ouvir a conversa dessa senhora com a funcionária no momento do pagamento.
— Olá, bom dia! É para presente? Perguntou a afável vendedora.
— É sim, pode embrulhar. Afirmou a septuagenária enquanto buscava algo na bolsa.
— O presente é para uma filha, ou para a neta da senhora?
— Dessa vez não, é para o namorado. Disse ansiosa e um pouco aflita.
— Olha que lindo! A avó comprando um presente para o namorado da neta, aposto que ele vai gostar desse livro.
— É para o meu namorado. Sorriu a senhorinha digitando a senha do cartão de crédito.
A jovem vendedora arregalou os olhos por alguns segundos, e sorriu com olhos. Percebeu a ansiedade no gestual da cliente e perguntou há quanto tempo namoravam.
— Fazem alguns meses, ele tem 76 e eu 72 anos e me falou que adora ler, pensei em comprar um livro para agradá-lo, será que ele vai gostar?

Apresentando alguns outros livros e kits de presentes a funcionária foi conseguindo acalmar e incrementar o presente da cliente. Em resumo, saiu da loja com dois livros, um kit de café para o namorado e um par de olhos sorridentes que ansiava pelo dia 12 de junho.

Ao fim, a jovem foi ao encontro de uma colega que arrumava estantes de livro e confidenciou:
— 72 anos. Ansiosa se o presente que dará ao namorado será bom, e eu reclamando, pensando que serei só por toda a vida. 72 anos.

A vendedora retomou o trabalho, nitidamente, com um semblante mais leve, confortada e esperançosa.

Academia Médica
Medicina em Crônicas - Elomar R. Moura
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Olá! Sou Elomar R. Moura (@medicinaemcronicas), 22 anos, de Aracaju - SE. Estudante de medicina da Universidade Tiradentes (UNIT) - SE. Um apaixonado pela literatura que escreve reflexões sobre a medicina tanto na sua prática, como na sua simbologia.

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