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Aprendendo com Angelina Jolie sobre decisões médicas difíceis

Aprendendo com Angelina Jolie sobre decisões médicas difíceis

A notícia de que a atriz americana Angelina Jolie optou em realizar uma dupla mastectomia com posterior ooforectomia chamou a atenção do mundo no mês de maio de 2013. Resolvi fazer uma tradução livre do artigo que ela escreveu para o New York Times, com o intuito de mostrar o cenário de algumas decisões difíceis que colocamos para os nossos pacientes. Ler esse texto pode ser extremamente útil pois demonstra que a medicina como profissão de meios (de sugestão) e não de fins. É uma ótima maneira de desenvolver a empatia.

Alguns podem dizer que o cenário dela é diferente, que por ela ser rica e famosa, ela teve maiores opções. Não é disso que se trata. Aqui temos um indivíduo como qualquer outro que nos aparece diariamente no consultório. A partir de um diagnóstico difícil, a pessoa tem que decidir se parte para uma cirurgia mutilante, ou limitante de sua qualidade de vida.

Acompanhe o artigo escrito pela Angelina Jolie para o New York Times.

Minha escolha médica

MINHA MÃE lutou contra o câncer por quase uma década, e ela morreu aos 56 anos. Ela aguentou o suficiente para conhecer e segurar o primeiro dos seus netos. Porém, meus outros filhos nunca terão a chance de conhecer ela, nem saber o quanto ela era amorosa e graciosa.

Nós sempre falamos da "Mamãe da Mamãe", e eu me pego tentando explicar a doença que a levou de nós. Eles me perguntaram se o mesmo poderia acontecer comigo. Eu sempre falei para eles não se preocuparem, mas a verdade é que eu carrego um gene defeituoso, BRCA1, que aumenta em muito o risco de eu desenvolver câncer de mama e/ou de ovário.

Meu médico estimou que eu tenho um risco de 87% de risco de câncer nas mamas e 50% de risco de desenvolver câncer de ovário, apesar do risco ser diferente para cada mulher.

Apenas uma fração dos casos de câncer de mama são resultado da herança genética. Aqueles com defeito no BRCA1 têm em média 65% de risco de desenvolvê-lo

Quando soube que essa era minha realidade, decidi ser proativa e minimizar meus riscos o quanto eu pudesse. Decidi em fazer uma dupla mastectomia preventiva. Comecei pelos seios por meu risco ser maior que o câncer de ovário, além da cirurgia ser mais complexa.

Em 27 de abril acabaram os 3 meses de procedimentos médico que a mastectomia envolvia. Durante esse tempo eu mantive o segredo e pude continuar com meu trabalho.

Agora estou escrevendo sobre isso porque espero que outras mulheres podem se beneficiar da minha experiencia. Câncer continua a ser uma palavra que incita medo dentro do coração das pessoas, e produz um profundo sentimento de impotência.

Meu tratamento começou dia 2 de fevereiro com um procedimento conhecido como "atraso mamilar", que restringe a doença aos ductos mamários atrás dos mamilos e aumenta o fluxo sanguíneo na área. Isso causa alguma dor e muitos hematomas, mas aumenta a chance de salvar o mamilo.

Duas semanas mais tarde eu enfrentei a cirurgia maior, na qual o tecido mamário é removido e expansores para preencher seu lugar são colocados. A cirurgia durou 8 horas. Você acorda com drenos e os expansores em seus seios. O sentimento é o de estar em um filme de ficção científica. Alguns dias depois, você pode voltar a sua vida normal.

Nove semanas depois, a última cirurgia foi realizada para a reconstrução dos seios com os implantes. Não houve muito avanço nesse procedimento nos últimos anos, e o resultado pode ser belíssimo.

Eu quis escrever isso para falar para outras mulheres que a decisão em fazer a mastectomia não foi fácil. Porém é uma decisão que estou muito feliz de ter tomado. Minhas chances de desenvolver câncer caíram de 87% para 5%. Eu posso dizer para minhas crianças que elas não precisam ter medo de me perder para o Câncer de Mama.

É tranquilizador saber que ele não verão algo que os deixe desconfortáveis. Eles podem ver minhas pequenas cicatrizes e pronto. Todo o restante é apenas a mamãe, a mesma que ela sempre foi. Eles continuarão a saber que eu os amo e eu farei de tudo para estar com eles o tempo que eu puder. Nota pessoal: Eu não me sinto nem um pouco menos mulher. Me sinto empoderada pois fiz uma escolha difícil que em nenhum momento diminuiu minha feminilidade.

Sou tão afortunada em ter um parceiro, Brad Pitt, que é tão amoroso e solidário. Então, para todos que tem uma esposa ou uma namorada que esteja passando por isso, saiba que você é uma parte muito importante nessa transição. Brad foi comigo ao Pink Lotus Breast Center, onde fui tratada, em todos os minutos das cirurgias. Nós arrumamos tempo para rirmos juntos. Nós sabíamos que isso era o certo a fazer para nossa família, e isso poderia nos aproximar muito. E aproximou.

Para qualquer mulher que esteja lendo isso, espero que isso a ajude entender que você possui opções. Eu quero encorajar todas as mulheres, especialmente se você possui histórico de câncer de Mama ou de Ovário, a procurar informações e especialistas que podem ajudá-la nesse aspecto da sua vida, e a fazer a melhor decisão informada.

Eu sei que existem muitos médicos que estão trabalhando em uma alternativa a cirurgia. Meu próprio tratamento sera dividido no site do Pink Lotus Breast Center. Espero que possa ajudar outras mulheres.

O Câncer de mama mata 458 mil pessoas todos os anos, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, principalmente em países mais pobres. É uma prioridade assegurar que mais mulheres possam ter acesso aos testes genéticos e tratamentos que salvam vidas, não importando os meios e o senário, em qualquer lugar. O custo para testar o BRCA1 e o BRCA2 é mais de 3000 dólares nos Estados Unidos, por isso permanece um obstáculo à muitas mulheres.

Eu escolhi não manter segredo sobre a história porque existem muitas mulheres que não sabem que elas podem estar vivendo sob a sombra de um câncer. Espero que elas possam, também, ter seus genes testados para que em caso de positividade decidam a partir de suas opções.

A vida vem com muitos desafios. Aqueles que não devem nos assustar e aqueles que dominamos e tomamos o controle.

Angelina Jolie  é atriz e diretora.

Academia Médica
Fernando Carbonieri
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Inovação é sua forma de exercer a medicina. Em 2012 criou a Academia Médica, comunidade dedicada a "FALAR O QUE A FACULDADE ESQUECEU DE NOS CONTAR". Membro Comissão do Médico Jovem do CFM, Palestrante, Hacking Health Curitiba e Brasil

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