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Choosing-Wisely e as recomendações em tempos de pandemia

Choosing-Wisely e as recomendações em tempos de pandemia

A tomada de decisão faz parte da vida de qualquer profissional, sendo que na área da saúde isso se torna ainda mais evidente. Em um mundo cada vez mais tecnológico, no qual diariamente novidades pipocam, é comum vermos profissionais querendo solicitar exames e prescrever tratamentos a todos os seus pacientes, no intuito, muitas vezes, de ajudá-los na busca por uma melhor qualidade de vida. Mas, será que realmente os ajudamos quando lançamos mão de todos os auxílios de que dispomos? Será que quando fazemos isso estamos realmente promovendo saúde?

Tomar essas decisões fazem parte do nosso dia a dia e por isso várias iniciativas têm surgido com o objetivo de fornecer suporte para as melhores escolhas sejam feitas. Uma delas é a Choosing-Wisely, cujo intuito principal é o aumento do diálogo entre médicos e pacientes, através do qual é possível diminuir a utilização de procedimentos médicos que não estejam pautados em evidências científicas confiáveis.

Essa iniciativa surgiu em 2012 (seguindo os preceitos da prevenção quaternária) através da American Board on Internal Medicine, pregando que os profissionais de saúde e pacientes façam escolhas com discernimento no tocante aos passos de sua investigação diagnóstica e tratamento. É o famoso “menos é mais”. Essa iniciativa prevê a realização de listas de recomendação sobre as escolhas mais acertadas a serem feitas em determinadas situações. Essas listas são montadas pelas sociedades médicas, com participação multiprofissional, em conjunto com as associações de pacientes, buscando, assim, reduzir o conflito de interesses que pode ocorrer durante a escolha.

As recomendações da Choosing-Wisely International para os profissionais são:

1. Não proceder à solicitação de exames de imagem para dor lombar nas primeiras seis semanas, a menos que sinais de alerta estejam presentes.

2. Não prescrever de rotina antibióticos para sinusite aguda leve a moderada, a menos que os sintomas durem sete dias ou mais, ou os sintomas piorem após uma melhora clínica inicial.

3. Não utilizar benzodiazepínicos ou outros sedativos-hipnóticos em idosos como primeira escolha para insônia, agitação ou delírio.

4. Não manter terapia com inibidores de bomba de prótons a longo prazo para sintomas gastrointestinais, sem uma tentativa de suspender ou reduzir estes pelo menos uma vez por ano.

5. Não realizar imagens cardíacas de estresse ou propedêutica não-invasiva avançada na avaliação inicial de pacientes sem sintomas cardíacos, a não ser que marcadores de alto risco estejam presentes.

6. Não utilizar antipsicóticos como primeira opção para tratamento de sintomas comportamentais e psicológicos da demências.

7. Não realizar exames pré-operatórios de rotinas antes de procedimentos cirúrgicos de baixo risco.

8. Não utilizar antimicrobianos para tratamento de bacteriúria assintomática em adultos mais velhos, a menos que existam sintomas específicos do trato urinário.

9. Não utilizar sondas vesicais de demora para incontinência, conveniência ou monitoramento em pacientes com doença não-crítica.

10. Não realizar testes de imagem cardíaca de estresse como parte do seguimento de rotina em pacientes assintomáticos.

Já os questionamentos que devem ser levantados por pacientes e/ou familiares  antes de serem submetidos a determinado procedimento, exame ou tratamento são:

  • Eu realmente preciso deste procedimento ou exame?
  • Quais são os riscos?
  • Há opções mais simples e seguras?
  • O que acontece se eu não fizer nada?
  • Quanto custa?

Através desses é possível torna-los mais empoderados e com isso trazê-los para o centro do cuidado e da participação nas decisões clínicas.

 

E no Brasil?

Aqui a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) foram as pioneiras na construção das primeiras listas. Atualmente, outras quatro sociedades integram o quadro juntamente com SBC e SBMFC: Academia Brasileira de Medicina Hospitalar, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Departamento de Tireoide), Sociedade Brasileira de Mastologia e Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial.

Dentre as recomendações da SBMFC destacam-se a não realização de PSA de rotina ou toque retal como forma de rastreamento para câncer de próstata, a não solicitação de exame de vitamina D em adultos de baixo risco e a não solicitação de exame de sangue anual de rotina, exceto se indicado pelo risco individual.

 

Recomendações em tempos de pandemia

Visando organizar as recomendações e padronizar as informações durante a pandemia da COVID-19, a Choosing-Wisely International lançou há algumas semanas a lista de recomendações para pacientes e profissionais de saúde sobre o comportamento durante esse período de pandemia.

PACIENTES:

1. Não saia de casa por razões não essenciais. Mantenha uma distância física segura dos outros (pelo menos 2 metros) e siga as orientações de suas autoridades de saúde pública nacional e local.

2. Não procure pessoalmente hospital, ambulatório ou profissional da saúde para avaliação de rotina (visitas preventivas ou check-ups) ou cuidado não essencial sem antes buscar orientação à distância.

3. Não procure emergências e prontos-socorros para avaliação de sintomas leves de COVID-19. Use ferramentas virtuais ou unidades de atenção básica, se disponíveis.

4. Não se automedique ou submeta-se a terapias não comprovadas para prevenção ou tratamento da COVID-19.

 

PROFISSIONAIS:

1. Não ofereça serviços presenciais não essenciais, havendo disponibilidade de ferramentas virtuais como telemedicina ou telefone. Retarde cuidados e testes laboratoriais, sempre que possível.

2. Não encaminhe idoso frágeis institucionalizados para o hospital, a menos que necessidades médicas ou de conforto não possam ser oferecidas localmente pela instituição de longa permanência.

3. Não transfunda hemácias baseando-se exclusivamente em algum valor arbitrário de hemoglobina. Ofereça uma unidade de cada vez, reavaliando eventual necessidade adicional.

4. Não intube idosos frágeis sem discussão prévia com o paciente ou familiares sobre diretivas antecipadas de vontade, sempre que possível.

5.  Não prescreva terapias não comprovadas para pacientes com COVID-19.

E você? Conhece alguma outra iniciativa para melhorar a tomada de decisão? Compartilhe com a gente e vamos juntos nessa!

 

REFERÊNCIAS:

Prevenção Quaternária e Choosing Wisely na Atenção Primária à Saúde no Brasil: uma visão da produção científica – Daniel Capalonga et al.  -6º Congresso Internacional em Saúde.

Choosing Wisely – Tomada de Decisão e Evidências Científicas – Cláudio Tinoco Mesquita – international Journal of Cardiovascular Sciences (2015).

Qualidade do Cuidado em Saúde e a Iniciativa “Choosing Wisely” – Josué Laguardia et al. – Rev Eletron Comum Inf Inov Saúde (2016).

https://www.slowmedicine.com.br/as-10-recomendacoes-da-choosing-wisely-internacional/

https://www.sbmfc.org.br/noticias/sbmfc-entrevista-paulo-paim-vamos-falar-sobre-choosing-wisely-brasil/

https://www.sbmfc.org.br/noticias/choosing-wisely-brazil/

https://www.hospitalinfantilsabara.org.br/sabara-apoia-o-movimento-choosing-wisely/

https://proqualis.net/choosing-wisely-brasil

Academia Médica
Leonardo Cardoso
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Um jovem quase médico que sonha com uma Saúde mais humanizada, equitativa e de qualidade. Amo ler e escrever. Seja Bem Vindo!

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