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“A Cólera é retratada como a doença do sujo, do colonizado, do pobre”: entrevista com Áureo Lustosa Guérios

“A Cólera é retratada como a doença do sujo, do colonizado, do pobre”: entrevista com Áureo Lustosa Guérios

 Medicina, saúde, doença, cólera e... literatura! Sim é possível estudar sobre tudo isso em uma linha de pesquisa que vem ganhando espaço na área de Humanas e, principalmente na área da Saúde: as Humanidades Médicas.

E é para conhecer um pouco mais sobre isso que convidamos você a ler essa entrevista concedida pelo professor Áureo Lustosa Guérios à Loredana Filip, no blog Vigilianzkulturen da Universidade de Munique, na Alemanha.

Áureo está terminando seu doutorado em Humanidades Médicas e Literatura Comparada na Universidade de Pádua. Sua pesquisa examina as representações literárias da epidemia de cólera no século XIX e no início do século XX.

Áureo também é o professor do curso “Humanidades Médicas: a saúde e a doença na história e nas artes”, do curso "Medicina e as Artes" e do curso "História Global da Saúde" aqui na Academia Médica e seu currículo conta com numerosas participações em eventos internacionais.

Em 2020, foi convidado a ministrar uma aula sobre a história das pandemias na Universidade de Cardiff, no Reino Unido. Recentemente, em 2021, ele foi escolhido como um dos palestrantes da Commission on Science and Literature, um evento internacional organizado conjuntamente pela Universidade Aberta da Grécia e a Universidade de Birmingham, na Inglaterra. 

Ele ainda falará, entre abril e junho, em conferências promovidas pela British Society for Literature and Science, pela Universidade de Estocolmo, na Suécia, e pela Universidade Nova de Lisboa, em Portugal.

Além disso, também é o criador do Literatura Viral, um podcast contagiante em que você pode ouvi-lo falar sem parar sobre arte, doenças e Humanidades Médicas. Ele espera que, um dia, o podcast vire uma febre.

 

Selecionamos abaixo alguns trechos de uma entrevista concedida pelo professor Áureo. Na entrevista, ele fala sobre sua pesquisa, a história da medicina, a pandemia do Coronavírus e mais! A entrevista original nesta disponível neste link.

 

LF: Sua tese de doutorado trata das representações literárias da epidemia de cólera nos séculos XIX e XX. Você pode nos falar mais sobre isso?

Áureo: Minha tese é parte de um esforço coletivo para abordar uma lacuna na pesquisa sobre essa doença. O cólera foi a grande doença pandêmica do século XIX. Começou a se espalhar por volta de 1817 e circunavegou o globo quatro ou cinco vezes antes de 1920.

Desse ponto em diante, alguns acreditaram que a cólera havia sido erradicada. No entanto, uma nova onda surgiu em 1961 e ela nunca foi declarada terminada. Hoje ainda vivemos o 59º ano da 7ª Pandemia de Cólera.

A cólera foi um flagelo para tantos e por tanto tempo que deixou uma marca permanente na literatura e na arte. Mas isso sempre foi negligenciado. Somente nas últimas décadas os estudiosos da literatura começaram a prestar mais atenção às representações da doença.

Mas a maioria deles se concentra na tuberculose e na sífilis, enquanto outras doenças como a cólera, a malária, o tifo ou mesmo a gripe espanhola são ignoradas.

 

LF: Isso é realmente surpreendente. Você tem uma explicação para essa falta de interesse científico pela cólera? E por que estamos testemunhando um repentino interesse acadêmico por doenças agora?

Áureo: Podemos pensar em várias razões: a abordagem triunfalista da história da ciência, os sintomas repulsivos e escatológicos da cólera que transgredia tabus culturais, ou o fato que a memória popular tende a confundir a cólera e outras “pestes”.

Na década de 1990, a publicação dos primeiros livros, filmes e peças de teatro a discutir o HIV-AIDS, despertou um novo interesse pela representação da doença. E depois dos anos 90, esse interesse aumentou com o florescimento das Humanidades Médicas como um campo de pesquisa. Muitos estudos excelentes foram publicados desde então, examinando frequentemente temas como “as Epidemias e a Arte” e “as Epidemias e a Literatura”.

 

LF: Interessante. Assim, pode-se dizer que os textos literários e culturais conseguiram chamar a atenção acadêmica para o tema da doença. Voltando à situação no século XIX: as pandemias inspiraram direta ou indiretamente o desenvolvimento literário?

Áureo: Ah sim, e como! Mas de tantas maneiras que muitas vezes isso escapa à nossa percepção.

O Último Homem de Mary Shelley (1826) é um bom exemplo. Ele foi escrito imediatamente após o fim da Primeira Pandemia de Cólera (1817-1824), em que a Europa foi poupada, mas a Índia – já uma colônia Inglesa neste momento – foi duramente atingida. O romance prevê com precisão a chegada da “peste” na Inglaterra, algo que realmente ocorreu cinco anos após a publicação.

Em O Último Homem, Mary Shelley escreve sobre o colapso da civilização causado por uma nova peste originada no Oriente. A obra apresenta uma forma de imperialismo característica de muitos textos sobre a cólera. Isso é evidente no próprio título: como pode um narrador em primeira pessoa realmente saber que ele é “o último homem”? A vida na Rússia, em Moçambique ou na Austrália poderia continuar normalmente e ele nunca saberia. Obviamente, o que importa não é a humanidade em si, mas o “homem europeu culto”. Consequentemente, “asiáticos” e “turcos” são descritos de modo tipicamente orientalista como sujos, negligentes e doentes.

Embora a tuberculose seja simplesmente tuberculose, a cólera é a Cólera Asiática. Essa representação da doença com origem no Oriente se tornará um lugar-comum da representação da cólera e pode ser observada em muitos textos, como a peça O Cólera Indiano (1835), do poeta norueguês Henrik Wergeland ou o sonho apocalíptico de Raskolnikov, em Crime e Castigo (1866) de Dostoiévski. Mesmo quando atinge uma das cidades mais célebres da Europa na obra de Thomas Mann, Morte em Veneza (1912), ainda assim a cólera é asiática de algum modo.

 

LF: Os tempos de pandemias costumam ser momentos de vigilância intensificada. Qual é o papel da precaução ou da atenção nos livros que você analisa?

Áureo: Este é um grande problema. Em primeiro lugar, existe uma forte ligação entre os surtos de cólera e a ascensão dos movimentos sanitaristas por toda a Europa e, mais tarde, no Brasil também. Como se acreditava que as epidemias eram causadas por miasmas –ar ruim, odores putrefatos e poluição –, era preciso encontrar soluções coletivas. Por isso, várias campanhas foram lançadas para eliminar a sujeira. Elas visavam não só educar e condicionar o comportamento da população, mas também sensibilizar o público para questões como os programas de construção de obras públicas – redes de esgotos, centrais de filtração de água, criação de zonas verdes e reurbanização das cidades em geral. A reconstrução de Paris por Haussmann (1853-1870) foi, em grande parte, provocada por epidemias e foi emulada por toda a Europa; em Barcelona, Budapeste e, significativamente, em Nápoles, a cidade da cólera por excelência. Como consequência desse processo, foram criados postos de Polícia Sanitária em vários países, e os sanitaristas se tornaram influentes membros da sociedade que comentavam sobre quase qualquer assunto: consumo público de alimentos, prostituição, medidas econômicas, higiene pessoal e imigração. Tudo passava por eles.

Outro desenvolvimento interessante relacionado à vigilância é analisado por Melanie Kiechle em Smell Detectives: An Olfactory History of the 19th-century. Segundo ela, o papel central da mãe como figura que zela pela higiene familiar surgiu justamente por causa dos movimentos sanitaristas. Para reeducar a sociedade, os sanitaristas estenderam a mão para as mulheres que se tornaram catalisadoras da mudança social. Outros autores escreveram obras de natureza semelhante; o único propósito de certos textos era denunciar a ignorância das massas e educá-las paternalisticamente. O conto italiano Il Choléra a Roda, racconto istruttivo (1835) é explicitamente pedagógico. Seu subtítulo entrega tudo: “uma narrativa instrutiva”. Há ainda o romance francês Histoire d'un Village, 1830-1836 (1860), escrito “para o benefício do proletariado” por M. le Vicomte de Melun. Ambos são bons exemplos dessa tendência.

 

LF: Toda essa discussão me lembra de nossa atual crise corona. Você vê alguma semelhança ou diferença nas respostas aos surtos?

Áureo: Sem dúvida há inúmeras semelhanças. Em primeiro lugar, existe a negação. Em 1830, vários médicos e cientistas argumentaram que a cólera nunca chegaria à Grã-Bretanha, por causa de seu clima mais frio. Mas ela chegou no ano seguinte, em 1831. Essa mesma situação se repetiu quando o governo italiano enviou uma comissão a Paris para acompanhar o surto de 1832. Os cientistas concluíram que a cólera não chegaria à Itália, pois o país já sofria muito com a malária. No entanto, a doença chegou em 1835. Isso se parece muito com as observações desdenhosas feitas por Trump no início da crise, ou a declaração de Bolsonaro de que o Covid-19 é "uma gripezinha".

Além disso, a busca simplista por causas é acompanhada pela busca de uma solução única enviada por Deus. Assim, os remédios abundam nos textos sobre a cólera no século XIX, tanto quanto hoje, sugestões não científicas e sem sentido circulam amplamente – como a sugestão de Trump de injetar desinfetante...

Finalmente, há uma tendência de interpretar a pandemia como uma forma de punição religiosa que pode de alguma forma ser apaziguada pela purificação. É amplamente sabido que durante a eclosão da peste de 1348, grupos de flagelantes viajaram pela Europa para extirpar os pecados da comunidade. É menos conhecido, entretanto, que durante o surto de cólera de 1831 na Grã-Bretanha, o Parlamento declarou um dia de oração nacional. Quase vinte anos depois, esse ato foi repetido pelo presidente dos EUA, Zachary Taylor, durante a 3ª Pandemia de Cólera em 1849. Da mesma forma, em abril de 2020, o presidente Bolsonaro exortou a população “a jejuar para libertar o Brasil do Coronavírus”.

Existem ainda muitas outras semelhanças: a rápida circulação de teorias da conspiração, a divulgação de notícias falsas, xenofobia e a perseguição de minorias, problemas de oferta e demanda, o colapso dos sistemas de saúde, dificuldade em lidar com grande quantidade de cadáveres, um estado geral de ansiedade e uma sensação geral de diminuição da saúde psicológica ... É tudo muito, muito semelhante.

As três principais diferenças, eu diria, residem em nossa capacidade de reunir grandes quantidades de dados, a continuação parcial do trabalho e da vida social on-line e nosso grau infinitamente superior de conhecimento técnico-científico. Levando tudo isso em consideração, estamos em uma situação muito mais confortável, principalmente quando consideramos as taxas de mortalidade: enquanto o cólera é letal em 50 a 60% dos casos não tratados, a taxa de Corona fica em torno de 2,5%.

 

LF: Isso é impressionante. E falando um pouco do futuro... Você tem alguma ideia de como a crise atual será tratada na literatura contemporânea?

Áureo: Acho que depende do que vai acontecer. Se o problema desaparecer em alguns meses, o Coronavirus como tema literário provavelmente terá o mesmo destino da Gripe Espanhola. A Gripe de 1918 foi esquecida da memória cultural até bem recentemente. Embora tenha produzido alguns textos literários interessantes, essas obras são surpreendentemente escarsas quando consideramos a magnitude histórica incomparável da Gripe Espanhola. O mesmo pode acontecer se o Coronavirus durar um ou dois anos e depois desaparecer para sempre. No entanto, se ele se comportar como a peste, que causou devastação em todo o mundo no século XIV, mas também reapareceu periodicamente a cada geração ou mais até o início do século XX, então a pandemia do Coronavirus deixará uma impressão profunda e duradoura em nossa paisagem cultural.

Em termos gerais, acredito que o Coronavírus influenciará a produção artística de maneiras surpreendentes e inesperadas. Por um lado, parece razoável esperar um aumento no interesse pela literatura pós-apocalíptica ou por filmes de zumbis. Por outro lado, o oposto pode ser verdadeiro. O interesse das pessoas por este tópico já atingiu o ponto de saturação e o público está parcialmente insensível a isso. Poderíamos argumentar a favor do primeiro cenário, lembrando que A Peste (1947), de Camus ou o Ensaio Sobre a Cegueira (1995), de Saramago, juntaram-se à lista dos mais vendidos, mais uma vez, após a chegada de Covid-19. No entanto, poderíamos usar o mesmo argumento para chegar à conclusão oposta. Ambos os romances são "irrealistas" no sentido de que exploram uma doença que desapareceu (peste) ou um novo flagelo fictício (cegueira branca). Se os textos discutissem o vírus em si, correriam o risco de ser muito reais, muito familiares, talvez de forma desconfortável. Camus poderia ter retratado a Gripe Espanhola – ainda prevalente na memória viva quando escreveu seu romance –, assim como Saramago poderia ter discutido o HIV-AIDS – a pandemia que se alastrou durante os anos 1990. Pode haver uma razão pela qual eles optaram por não fazer isso.

Portanto, ainda não cheguei realmente a uma conclusão ... O interesse cultural pelas epidemias como tema literário poderia tanto aumentar quanto diminuir.

 

LF: Obrigado por seus insights e por esta fascinante exploração da literatura dos séculos XIX e XX e sua relação com as doenças. Estamos ansiosos por suas descobertas de pesquisas futuras e boa sorte em seus projetos!

 


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