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Como o Sars-CoV-2 afeta o cérebro: implicações neuropsiquiátricas

Como o Sars-CoV-2 afeta o cérebro: implicações neuropsiquiátricas

Uma semana após contrair COVID-19, o americano Ivan Agerton, de 49 anos, começou a apresentar delírios persecutórios. Para ele, pessoas que dirigiam carros na região suburbana de Seattle o estavam espionando e oficiais da SWAT estavam escondidos atrás de arbustos de seu jardim: "Eu acho que as pessoas estão me seguindo", disse Agerton com olhar temeroso [1].

Apesar de ex-oficial da marinha americana, Agerton estava acostumado com situações estressantes e, segundo a psiquiatra que o trata, Dra. Veronika Zantop, nem Ivan e nem sua família tinham histórico de transtornos mentais.

Embora o quadro de COVID-19 tenha sido moderado, a mudança na vida de Agerton foi drástica: ele não podia dormir, constantemente preocupado de que tivesse feito alguma coisa errada, desconfiado de pessoas comuns por motivos bizarros.

"Rápido e repentino como um interruptor: assim essa paranoia intensa me atingiu. Foi a coisa mais aterrorizante que eu já experimentei na minha vida", contou Agerton.

Já se sabe que alguns pacientes infectados por Sars-CoV-2 podem apresentar déficits cognitivos, episódios de ansiedade, depressão, psicose, convulsão e até comportamento suicida. O mais interessante é que tais condições podem se manifestar antes, durante e após os sintomas respiratórios, mesmo que o paciente não evolua para um quadro grave [2].

Segundo registros médicos de pacientes na Alemanha e no Reino Unido, cerca de 20% a 70% dos pacientes (mesmo jovens) apresentaram transtornos neuropsiquiátricos mesmo meses após resolução dos sintomas respiratórios.

Os mecanismos de entrada do vírus no cérebro não estão totalmente elucidados. No entanto, sabe-se que o Sars-CoV-2 penetra na mucosa olfatória por meio dos receptores da enzima conversora de angiotensina 2 (daí a perda de olfato) e que, possivelmente, migra para cérebro pelo bulbo olfatório, nervo vago ou trigêmeo.

Ao lesionar as células endoteliais por onde penetra, o vírus da COVID-19 leva a uma reação inflamatória sistêmica, com formação de trombos e de lesão neurológica. A assim-chamada tempestade de citocinas, ou seja, a liberação intensa de citocinas inflamatórias, levaria a uma desestabilização da barreira hematoencefálica, possibilitando a entrada do vírus no cérebro.

Além disso, essa inflamação exacerbada leva à diminuição de monoaminas que atuam como neurotransmissores e ativa vias neurotóxicas, como a atividade aumentada de glutamato e do receptor N-metil-D-aspartato (NMDA). De acordo com pesquisadores nos EUA, esses eventos levam tanto ao surgimento de transtornos neuropsiquiátricos quanto à piora daqueles pré-existentes [2].

Além disso, um estudo preliminar da Unicamp mostrou que o Sars-CoV-2 altera a conectividade cerebral, causando uma espécie de "curto-circuito" no órgão. Imagens de ressonância magnética funcional mostraram que indivíduos que foram infectados pelo Sars-CoV-2 perderam a especificidade das conexões cerebrais, resultando em uma hiperconectividade. Aparentemente, isso levaria o cérebro a gastar mais energia e a trabalhar de forma ineficiente.

Testes neuropsicológicos realizados sobre os voluntários do estudo mostrou que o desempenho cognitivo dos que tiveram COVID-19 chegou a ser pior que a média dos indivíduos brasileiros em algumas tarefas.

"Os achados são surpreendentes e um pouco assustadores. Creio que já está bem claro que a Covid-19 não se trata apenas de uma gripe", relata Clarissa Yasuda, pesquisadora que integra o estudo piloto da Unicamp.

Esses resultados reforçam mais uma vez que a prevenção contra a COVID-19 está para além da sobrevivência aos quadros mais graves. Ainda que não seja grupo de risco (se é que isso ainda existe) ou que já esteja "imune", precisamos ter humildade diante desse vírus sobre o qual ainda estamos aprendendo diariamente. Ademais, esses estudos trazem o alerta para aqueles que são assintomáticos e até mesmo para crianças e adolescentes que, em geral, não desenvolvem sintomas graves, mas que estão em uma importante fase do seu neurodesenvolvimento.

Ivan Agerton, mencionado no início do texto, continua sob atenção psiquiátrica. Ele relata que teve uma melhora de 90% em seus sintomas psicóticos, mas ainda não está claro por quanto tempo ele ainda terá que tomar medicação e quando poderá voltar à sua rotina normal.

"Há essa apreensão de quando isso irá acontecer. Por quanto tempo eu vou viver com isso?"

 

Referências:

[1] Belluck P. The New York Times. First Covid, Then Psychosis: "The Most Terrifying Thing I’ve Ever Experienced". Disponível em https://www.nytimes.com/2021/03/22/health/covid-psychosis.html. Acessado em 26 de março de 2021.

[2] Boldrini M, Canoll PD, Klein RS. How COVID-19 Affects the Brain. JAMA Psychiatry. Published online March 26, 2021. doi:10.1001/jamapsychiatry.2021.0500

[3] Toledo K. Revista Galileu. COVID-19 pode alterar o padrão de conectividade funcional do cérebro. Disponível em: ttps://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2021/01/covid-19-pode-alterar-o-padrao-de-conectividade-funcional-do-cerebro.html. Acessado em 27 de março de 2021.

 

Academia Médica
Felipe Dalvi
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Doutor em Modelagem Computacional e atual acadêmico de Medicina na Unirio. Entusiasta da visão integrada entre mente e corpo, entre leituras e corridas pra ver o por do sol, cultivo minha paixão por cinema, ciência e saúde mental

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