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Crônica de uma tarde de estudo: Uma reflexão sobre o doente e a doença

Crônica de uma tarde de estudo: Uma reflexão sobre o doente e a doença

A rotina até que mudara pouco, sob o balcão de aglomerado de madeira do meu quarto – a única aglomeração possível no momento – havia ainda uma tentativa claudicante de estudar meio ao pandemônio. Postos na mesa estavam uma meia dúzia de apostilas e um livro digital aberto no meu notebook. O assunto? Psicopatologia.

Conduzido pelo Manual de Psicopatologia do Elie Cheniaux, iniciei meus estudos iluminado pela lâmpada amarelada da luminária. O céu já estava em pleno breu, após as leituras de anamnese, semiologia psiquiátrica, exame físico, entre outras coisas, abriu-se o tópico sobre o diagnóstico psiquiátrico, tema curioso, pois a primeira análise pensava que tratava-se apenas de ter a perspicácia de conseguir identificar uma série de características semiológicas e carimbar um código do DSM-V.

A primeira explicação do tópico era a origem da palavra diagnóstico, advinha do grego, algo no sentido de conhecer, perceber, distinguir. Poucas novidades até o momento. O grande debate estaria por vir. Foram postos, então, dois pontos de vista acerca da formulação diagnóstica.

O primeiro argumento fazia objeções à formulação de diagnósticos, afirmando que cada pessoa tem uma realidade única e inclassificável, que não existiriam doenças, mas doentes. Ratificava ainda que o diagnóstico era estigmatizante, dessa forma, rotulando pessoas, legitimando o poder do médico, o controle social sobre o indivíduo desadaptado ou questionador.

O argumento confrontador veio logo abaixo. Defendeu a ideia que existia uma grande diferença entre diagnosticar e reduzir a pessoa a um rótulo. Colocando ênfase que o diagnóstico representa uma necessidade prática na medicina e na ciência, tendo como finalidades a comunicação, a previsão (diagnóstico e prognóstico) e o favorecimento a investigação científica e medidas terapêuticas.

Estava feito o escarcéu em minha mente, qual era a resposta, qual a melhor ótica?
Pedi ajuda. Um querido amigo, mais experiente e mais avançado na medicina pediu que eu considerasse que cada indivíduo é um mundo, e indagou quantos astronautas seriam necessários para desbravar a galáxia de cada paciente? Era uma visão inviável. Novamente pedi ajuda, desta vez a uma amiga especial que também fazia medicina, mais irônica ela afirmou que se tratava daquelas belas utopias, mas sem fundamento prático e que era necessário, em letras garrafais, que existissem doenças, pois só assim poderia ser estipulado um tratamento.

Não desisti. Pedi ajuda a uma prima que é psicóloga. Ela disse-me que do ponto de vista da psiquiatria e psicologia o diagnóstico era sim muito importante para a compreensão das nuances do sofrimento psíquico, todavia, também era muito importante que durante todo o processo, a individualização de cada sujeito seja levada em consideração, uma vez que cada paciente vai lidar com a sintomatologia de modo diferente e isso irá influenciar em seu todo seu processo terapêutico.

Ao ouvir isso lembrei-me do conceito da jaula de ferro do alemão Max Weber na obra: A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. Weber afirmou que as instituições rigidamente burocratizadas eram capazes de dominar a sociedade. Assim todos estariam presos em uma jaula de racionalidade. Pensei, ao invés de rótulos poderíamos pensar em jaulas diagnósticas?

Os manuais diagnósticos burocratizariam o trato das patologias ao ponto de estarem médicos e pacientes enjaulados por um código diagnóstico?
Mas ao mesmo tempo, se não houverem classificações seriam então os psiquiatras como astronautas vagando na imensidão de cada universo particular? Fiquei feliz. Por hoje bastava.

Muitos ficariam contrariados, indignados, por ainda não existir uma definição, uma concepção final, uma resposta. Uma alternativa certa a marcar na prova, talvez. Graças a Deus, não achei resposta alguma. Fui dormir embalado pelo incômodo do questionamento e não do conformismo da resposta.

 


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Medicina em Crônicas - Elomar R. Moura
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Olá! Sou Elomar R. Moura (@medicinaemcronicas), 22 anos, de Aracaju - SE. Estudante de medicina da Universidade Tiradentes (UNIT) - SE. Um apaixonado pela literatura que escreve reflexões sobre a medicina tanto na sua prática, como na sua simbologia.

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