Uma pesquisa da Universidade de Minnesota, publicada no The Lancet Oncology, marca um avanço significativo no tratamento de cânceres gastrointestinais em estágio avançado, especialmente o câncer colorretal metastático. Trata-se do primeiro ensaio clínico em humanos que utiliza a técnica de edição genética CRISPR/Cas9 para modificar células imunológicas e potencializar sua capacidade de combater tumores.
O estudo envolveu 12 pacientes com câncer gastrointestinal metastático em estágio terminal, todos já sem alternativas terapêuticas convencionais. A abordagem consistiu na modificação de linfócitos infiltrantes de tumor (TILs), células do sistema imunológico que naturalmente penetram nos tumores. Por meio da técnica CRISPR, os pesquisadores desativaram um gene chamado CISH (Cytokine-Inducible SH2-containing protein), um conhecido inibidor da resposta imunológica mediada por células T.
Segundo o Dr. Emil Lou, oncologista gastrointestinal e investigador clínico principal do estudo, essa estratégia representa uma nova linha de ataque contra o câncer metastático. “Apesar dos avanços na compreensão dos fatores genéticos que causam o câncer, o câncer colorretal em estágio IV continua sendo, com poucas exceções, uma doença incurável. Este estudo traz uma abordagem do laboratório para a clínica com potencial de melhorar os resultados em pacientes com doença avançada”, afirma.
A equipe de pesquisa utilizou a CRISPR/Cas9 para editar geneticamente os linfócitos infiltrantes de tumor (TILs), desativando o gene CISH. O objetivo foi "libertar" as células T de um mecanismo interno que bloqueia sua capacidade de reconhecer e destruir células tumorais. Como explicou o professor Branden Moriarity, co-diretor do Center for Genome Engineering da Universidade de Minnesota, o CISH atua dentro da célula, o que inviabiliza sua inibição por métodos tradicionais — por isso, recorreu-se à engenharia genética.
Os TILs editados foram expandidos em laboratório, totalizando mais de 10 bilhões de células por paciente, e reintroduzidos no organismo. O processo seguiu protocolos clínicos rigorosos e foi realizado sem comprometer a viabilidade e o crescimento das células.
O tratamento se mostrou seguro — nenhum dos 12 pacientes apresentou efeitos adversos graves relacionados à edição genética. Em termos de eficácia, os resultados iniciais são animadores:
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Diversos pacientes apresentaram estabilização da doença, com interrupção do crescimento tumoral.
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Um paciente teve resposta completa, ou seja, os tumores metastáticos desapareceram completamente e não retornaram em mais de dois anos de acompanhamento.
Para os pesquisadores, esse caso de resposta completa é uma pista fundamental para entender os mecanismos de sucesso da terapia e otimizar futuras aplicações.
Uma das grandes promessas desse método está no fato de que a modificação genética é permanente. Diferente das imunoterapias baseadas em inibidores de checkpoint, que exigem doses regulares, o bloqueio do gene inibidor CISH é “codificado” diretamente nas células T — ou seja, a reprogramação é incorporada desde o início, dispensando novos ciclos de tratamento.
Apesar dos avanços, o tratamento ainda é complexo e de alto custo. A equipe agora trabalha para tornar o processo mais acessível, além de estudar por que a resposta foi tão eficaz em determinados pacientes e como replicar esse sucesso em uma escala mais ampla.
A expectativa é que novas fases do ensaio clínico sejam realizadas com um número maior de participantes, expandindo também para outros tipos de câncer. Além disso, os pesquisadores pretendem investigar formas de automação e padronização do processo de edição e expansão das células para facilitar sua aplicação em larga escala.
Referência:
Smith, A. (2025, 2 de maio). Gene-editing therapy shows early success in fighting advanced gastrointestinal cancers. Medical Xpress. https://medicalxpress.com/news/2025-05-gene-therapy-early-success-advanced.html