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ENAMED, Demografia Médica e os Dilemas da Expansão do Ensino Médico no País

ENAMED
Comunidade Academia Médica
jan. 20 - 9 min de leitura
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A divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED) 2025 introduz um novo parâmetro de avaliação da graduação em Medicina no Brasil. Ao substituir o ENADE, o exame foi concebido para aferir competências alinhadas às Diretrizes Curriculares Nacionais, com ênfase no raciocínio clínico, na formação generalista e na capacidade de tomada de decisão. Quando analisados isoladamente, os resultados já despertam preocupação. Quando confrontados com os dados estruturais da Demografia Médica no Brasil 2025, tornam-se evidência de um problema sistêmico mais profundo.


Expansão acelerada de cursos e desempenho insatisfatório no ENAMED

De acordo com o Ministério da Educação, participaram do ENAMED 2025 351 cursos de Medicina, sendo 304 pertencentes ao Sistema Federal de Ensino. Nesse recorte, 204 cursos (67,1%) obtiveram conceitos entre 3 e 5, enquanto 99 cursos (32%) receberam conceitos 1 ou 2, patamar considerado insatisfatório, associado a desempenho inferior a 60% dos estudantes avaliados.

O Conselho Federal de Medicina destacou que aproximadamente 13 mil médicos recém-formados são oriundos de instituições avaliadas com conceitos 1 e 2. O dado desloca o debate do campo abstrato da avaliação educacional para a realidade concreta da formação profissional e da assistência em saúde.

A Demografia Médica no Brasil 2025 fornece o pano de fundo estrutural desses resultados. Em 2024, o Brasil contava com 448 cursos de Medicina e 48.491 vagas autorizadas, número que cresceu de forma contínua nas últimas duas décadas. Entre 2004 e 2024, o total de escolas médicas passou de 252 para 448, com abertura média de 2.538 novas vagas por ano, evidenciando uma expansão quantitativa acelerada.


Interiorização da formação médica e desigualdade regional de desempenho

A expansão foi acompanhada por um processo intenso de interiorização. A participação das vagas localizadas nas capitais caiu de 51,2% em 2004 para 34,8% em 2024, enquanto os municípios do interior passaram a concentrar 43,6% das vagas. Ainda assim, 56,4% das vagas permaneciam em municípios com mais de 300 mil habitantes, indicando que a interiorização ocorreu de forma desigual.

Os dados regionais do ENAMED, analisados por veículos especializados, demonstram heterogeneidade de desempenho entre regiões, com maior concentração de conceitos baixos em determinadas áreas do país. A Demografia Médica ajuda a interpretar esse cenário ao mostrar que muitos municípios que passaram a sediar cursos médicos apresentam limitações importantes de infraestrutura assistencial, menor densidade de serviços de média e alta complexidade e campos de prática restritos, fatores diretamente relacionados à qualidade da formação clínica.


Corpo docente, regime de trabalho e condições pedagógicas

Outro eixo crítico revelado pela Demografia Médica refere-se ao perfil e às condições de trabalho do corpo docente. Em 2024, foram analisados 40.593 vínculos docentes em cursos de Medicina, frente a 266.507 estudantes matriculados. A proporção de docentes com titulação de doutorado foi significativamente maior nas instituições públicas (72%) do que nas privadas (31%).

Essa disparidade reflete-se na razão de alunos por docente doutor: 6,0 nas instituições públicas, contra 18,2 nas privadas. Além disso, apenas 35,6% dos docentes das instituições privadas atuavam em regime de tempo integral, enquanto esse percentual chegava a 71% nas públicas. Vínculos horistas eram mais frequentes no setor privado (13,1%, contra 1,1% nas públicas).

Esses dados ajudam a compreender a heterogeneidade formativa evidenciada pelo ENAMED. Menor dedicação docente, múltiplos vínculos e menor inserção acadêmica reduzem a capacidade de supervisão clínica, acompanhamento longitudinal e integração entre ensino e serviço, elementos centrais da formação médica generalista.


Formação generalista fragilizada e gargalos na residência médica

As consequências dessa formação desigual tornam-se ainda mais evidentes na transição entre graduação e especialização. Em 2024, o país ofertou 16.189 vagas de Residência Médica de acesso direto, enquanto o número estimado de egressos da graduação em 2023 foi de 32.611 médicos. A defasagem entre formados e vagas de residência aumentou de 3.886 em 2018 para 16.422 em 2024.

No mesmo período, o número de estudantes de Medicina cresceu cerca de 71%, enquanto o total de médicos residentes aumentou apenas 26%, ampliando o contingente de profissionais que ingressam no mercado sem formação especializada estruturada. A Associação Médica Brasileira, em nota oficial, alertou que formações fragilizadas ampliam essa distância e reforçam trajetórias profissionais precárias.


Quantidade não garante distribuição nem qualidade assistencial

A Demografia Médica demonstra de forma consistente que o aumento do número absoluto de médicos não se traduziu em distribuição equitativa nem em resolução dos vazios assistenciais. A razão de médicos por 1.000 habitantes diminui progressivamente conforme o porte do município, atingindo 0,51 médico por 1.000 habitantes em localidades com menos de 5 mil habitantes.

O relatório identifica 19 macrorregiões de saúde com menos de 1 médico por 1.000 habitantes, mesmo diante da expansão contínua da formação médica. Esses dados reforçam que o desafio brasileiro não é apenas de quantidade, mas de qualidade formativa associada a planejamento inadequado da força de trabalho em saúde.


ENAMED como instrumento de diagnóstico tardio

Nesse contexto, o ENAMED emerge como um instrumento relevante, porém tardio. A Demografia Médica documenta que a abertura de cursos e a ampliação de vagas ocorreram de forma contínua ao longo de anos, inclusive por decisões judiciais. O exame não atuou de forma preventiva, mas passou a explicitar falhas estruturais já consolidadas.

A leitura integrada dos resultados do ENAMED, dos dados da Demografia Médica e das manifestações institucionais do MEC, do CFM e da AMB indica que o exame funciona como um espelho incômodo das escolhas feitas no passado recente da política de formação médica.


Considerações finais

A análise conjunta dos resultados do ENAMED 2025 e dos dados da Demografia Médica no Brasil 2025 evidencia que a expansão da graduação em Medicina no país ocorreu em um contexto de grande heterogeneidade estrutural e pedagógica. Os diferentes desempenhos observados entre as instituições refletem trajetórias formativas diversas, marcadas por níveis distintos de investimento em corpo docente, organização curricular e integração com os serviços de saúde.

Nesse cenário, os conceitos atribuídos pelo ENAMED funcionam menos como rótulos definitivos e mais como indicadores que permitem identificar pontos de atenção e oportunidades de aprimoramento institucional. Resultados mais baixos sinalizam a necessidade de reflexão interna sobre modelos pedagógicos, condições de ensino e articulação com os cenários de prática, enquanto desempenhos mais elevados sugerem maior aderência às Diretrizes Curriculares Nacionais e maior consistência entre projeto pedagógico e execução.

As instituições que alcançaram conceitos 4 e 5 demonstraram maior capacidade de alinhar expansão, estrutura formativa e qualificação docente, oferecendo exemplos concretos de que é possível crescer mantendo padrões elevados de formação médica. Ao mesmo tempo, os resultados intermediários e insatisfatórios indicam a importância de processos contínuos de avaliação e ajuste, especialmente em um sistema educacional que se expandiu rapidamente.

O ENAMED, portanto, não deve ser compreendido como um ponto de chegada, mas como um instrumento que amplia a transparência sobre a formação médica no Brasil. Sua principal contribuição reside em oferecer dados objetivos que permitem qualificar o debate público, orientar políticas educacionais e estimular o aperfeiçoamento progressivo das instituições formadoras, em consonância com as necessidades do sistema de saúde e da população.


*Texto por Marcos Aurélio S. Oliveira


Referências 

  1. Ministério da Educação (BR). ENAMED: divulgadas avaliações dos cursos de medicina e medidas de supervisão [Internet]. Brasília: Ministério da Educação; 2026 [citado 2026 jan 19]. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2026/janeiro/enamed-divulgadas-avaliacao-dos-cursos-de-medicina-e-medidas-de-supervisao

  2. G1 Educação. Resultado do Enamed revela desempenho insatisfatório em parte dos cursos de medicina [Internet]. São Paulo: Globo; 2026 jan 19 [citado 2026 jan 20]. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2026/01/19/resultado-enamed.ghtml

  3. Conselho Federal de Medicina (BR). 13 mil formados em medicina são de faculdades com notas 1 e 2 no Enamed [Internet]. Brasília: Conselho Federal de Medicina; 2026 [citado 2026 jan 20]. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/noticias/13-mil-formados-em-medicina-sao-de-faculdades-com-notas-1-e-2-no-enamed

  4. Veja Saúde. Enamed: veja as regiões do Brasil com os melhores e piores cursos de medicina [Internet]. São Paulo: Editora Abril; 2026 [citado 2026 jan 20]. Disponível em: https://saude.abril.com.br/medicina/enamed-veja-as-regioes-do-brasil-com-os-melhores-e-piores-cursos-de-medicina/

  5. Associação Médica Brasileira (BR). Nota da Associação Médica Brasileira sobre os resultados do Enamed 2025 e a qualidade da formação médica no Brasil [Internet]. São Paulo: Associação Médica Brasileira; 2026 [citado 2026 jan 20]. Disponível em: https://amb.org.br/noticias/nota-da-associacao-medica-brasileira-amb-sobre-os-resultados-do-enamed-2025-e-a-qualidade-da-formacao-medica-no-brasil/

Scheffer M, coordenador. Demografia médica no Brasil 2025. São Paulo: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Associação Médica Brasileira; 2025.








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