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ENEM 2020 e uma questão de saúde pública

ENEM 2020 e uma questão de saúde pública

Talvez você possa ter entrado aqui achando que vim discutir se o ENEM deveria ter sido adiado novamente por conta da pandemia ou se a logística de aplicação deveria ter sido outra. É bem verdade que há muitas críticas sobre o ENEM como método de avaliação e tantas outras questões envolvidas, como diferenças sociais e sua relação com a qualidade do ensino ao redor do país, que ficaram ainda mais evidentes nesta edição.

Entretanto, lamento desapontá-lo, caro leitor, mas a questão de saúde pública a que me refiro no título foi o tema proposto para a redação: "o estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira". A proposição não poderia ter sido mais acertada, não apenas pelo momento, mas pela necessidade de se falar mais abertamente sobre o assunto.

Para a OMS, a saúde é entendida como "um estado de completo bem-estar físico, mental e social". Até aí tudo bem, acho que muita gente já internalizou esse conceito e dizer que cuida da saúde mental, atualmente, já se tornou um item de necessidade básica, já é cool.

Quando se fala sobre transtorno mental, a história já é outra.

Ainda existe uma série de preconceitos contra quem toma psicofármacos, quem frequenta psiquiatras ou psicólogos, quem às vezes precisa de uma hospitalização para um processo de desintoxicação ou para não atentar contra sua própria vida. Meditar e ser uma pessoa espiritualizada se tornou fashion e vegano, a tábua de salvação para tudo quando o assunto é saúde mental.

De fato há uma série de pesquisas apontando para os benefícios dessas práticas, mas o que me pergunto é até que ponto elas são usadas como fugas para não encararmos angústias mais profundas ou mesmo por enxergarmos a terapêutica farmacológica como um sinal de fraqueza, de incapacidade pessoal para lidar com os problemas. Muitas dessas concepções são resultado de anos de desinformação e propagação de mitos.

Apesar de conhecido como um "país feliz" repleto de pessoas calorosas e receptivas, o Brasil é um dos países mais ansiosos do mundo e cujo consumo de antidepressivos vem aumentando a cada ano [1, 2]. É claro que há pesquisadores estudando se esse fenômeno se deve a uma hipermedicalização associada a um baixo limiar diagnóstico ou se de fato o número de brasileiros ansiosos e depressivos está mesmo aumentando [3].

Não quero me delongar nisso, mas gostaria de interromper meu raciocínio para fazer um adendo. Embora, por razões históricas, quase sempre seja imputada ao psiquiatra o estigma da "culpa" por essa hipermedicalização, a realidade que tenho observado na prática está longe de ser tão simplista: pacientes que chegam fazendo uso indevido de psicofármacos ou receitados por profissionais que não têm o treinamento adequado para aquele tipo de prescrição ou por automedicação com a outorga de farmacêuticos. A questão da hipermedicalização é muito mais complexa do que parece. Dito isso, podemos continuar.

Tudo bem que não dava para adivinhar, mas foi uma feliz coincidência que o tema tenha sido abordado em pleno janeiro. Para quem não sabe, a campanha "Janeiro Branco" teve origem em Minas Gerais, em 2013, idealizada pelo psicólogo Leonardo Abrahão juntamente com outros colegas de profissão, e tem como objetivo promover discussões e ações para melhoria da saúde mental.

Janeiro é o primeiro mês, uma folha em branco aguardando projetos, sonhos, momento em que estamos reflexivos, mais abertos a olhar para o interior e encarar nossas emoções a falar sobre nossa saúde mental.

Especificamente, janeiro de 2021 marca para nós brasileiros o início do fim de um período terrível em nossa geração (considerando que a população continuará tomando as medidas profiláticas adequadas e que as vacinas serão efetivas em longo prazo). Aliás, como se não bastasse termos que lidar com todo o estresse, angústias, perdas e medos trazidos pela pandemia per se, no ano de 2020 ainda tivemos ataques às políticas de saúde mental desempenhadas pelo SUS. Tudo isso tem um caráter mais do que simbólico a respeito da forma com que lidamos com os transtornos mentais no Brasil.

Sabe aquela apreensão de quando você respira fundo e prende o ar? Assim esteve o país e o mundo nos últimos meses e agora que vamos voltar a respirar novamente, teremos que lidar com as sequelas de nossa "apneia" emocional, econômica, social e cognitiva. Infelizmente, ao que tudo indica, o ocaso dessa pandemia tem sido o prelúdio de uma nova pandemia de sofrimento mental como consequência dos processos a que fomos expostos [4, 5]: os lutos que não puderam ser elaborados, o aumento no uso de substâncias (álcool e drogas - psicofármacos, inclusive), as consequências cognitivas e emocionais do isolamento social, a pressão de responder com produtividade ao novo paradigma do trabalho remoto.

Não me recordo de um tempo em nossa história em que o cuidado da saúde mental tivesse sido tão valorizado, principalmente porque, atualmente, temos muito mais embasamento científico para atestar que transtornos mentais não são "invenções da nossa cabeça" (por mais irônico que isso possa soar). Falar de transtorno mental não se reduz aos precedentes trazidos pela pandemia. Na verdade, é uma discussão muito mais profunda e necessária muito antes desse caos sanitário que o mundo passou.

Ainda que ansiedade e depressão sejam os grandes expoentes entre os transtornos mentais mais conhecidos e discutidos na mídia e na população em geral, não podemos nos esquecer de outros que causam tanto sofrimento a amigos e familiares: esquizofrenia, transtorno bipolar, transtorno de estresse pós-traumático, dentre outros.

É preciso falar! É urgente não ter vergonha de buscar ajuda, é imperativo se livrar de preconceitos passados e se informar sobre novas abordagens terapêuticas, sobre profissionais habilitados e, principalmente, sobre empatia para lidar com quem sofre de algum transtorno mental. Vencer a psicofobia é não vulgarizar na forma de deboche termos como "doido", "bipolar", "maluco"; é sentir-se livre para falar que vai a um profissional psi nas redes sociais com a mesma naturalidade que tem orgulho de publicar a harmonização facial; é procurar se informar em fontes seguras e promover a discussão aberta sobre o tema.

Já na esfera social e política, é fundamental que as instituições desenvolvam/apliquem programas de promoção de saúde mental no ambiente de trabalho e nas escolas, que os governos criem leis e campanhas contra a psicofobia e em favor da conscientização (psicoeducação), programas direcionados a grupos mais vulneráveis, assistência psicossocial na infância e na velhice, políticas para redução da pobreza e para o combate à violência.

Discutir sobre saúde mental e sobre transtornos mentais inclui, mas não se restringe a cobrar políticas públicas. Não à toa, Freud, o pai da psicanálise, propôs a cura pela fala, de modo que a cura da nossa sociedade cada vez mais adoecida passa por isso, pela expressão do que vemos dentro, pela análise daquilo de que temos medo ou vergonha dentro de nós, passa por respeitar as diferenças e o processo individual nosso e do outro.

Dessa forma, além do papel como instrumento de avaliação, é inegável o consequente papel social que o ENEM traz: aparece em foco nas mídias em massa; estimula a discussão dos temas não apenas entre os candidatos, mas também entre professores, amigos e familiares; traz luz a pontos sensíveis e faz a população refletir sobre eles. E tais reflexões não se encerram ao fim da prova, visto que provas anteriores são constantemente revisitadas como exercício e treino pelos futuros candidatos.

Que todos nós possamos ter a humildade de nos colocar simbolicamente nessa cadeira de candidato no "ENEM da vida", para que pensemos e ajamos de forma ética e humana sobre os transtornos mentais, seja como promotores de saúde, seja como pacientes, amigos, colegas ou familiares.

 


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Referências 

[1] World health Organization (WHO). Depression and other common mental disorders: Global Health Estimates. Disponível em: https://www.who.int/mental_health/management/depression/prevalence_global_health_estimates/en/. Acesso em 18 de janeiro de 2021.

[2] VIDALE, G. Veja. Antidepressivos: mulheres de 40 anos são as maiores consumidoras (2020). Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/antidepressivos-mulheres-de-40-anos-sao-as-que-mais-consomem/. Acesso em 18 de janeiro de 2021.

[3] DE SOUZA, Ildebrando Moraes; MACHADO-DE-SOUSA, Joao Paulo. Brazil: world leader in anxiety and depression rates. Brazilian Journal of Psychiatry, v. 39, n. 4, p. 384-384, 2017.

[4] PANCHAL, Nirmita et al. The implications of COVID-19 for mental health and substance use. Kaiser family foundation, 2020.

[5] MARI, Jair de Jesus; OQUENDO, Maria A. Mental health consequences of COVID-19: the next global pandemic. Trends in psychiatry and psychotherapy, n. AHEAD, 2020.

Academia Médica
Felipe Dalvi
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Doutor em Modelagem Computacional e atual acadêmico de Medicina na Unirio. Entusiasta da visão integrada entre mente e corpo, entre leituras e corridas pra ver o por do sol, cultivo minha paixão por cinema, ciência e saúde mental

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