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Espectro filosófico sob o cenário pandêmico da COVID-19

Espectro filosófico sob o cenário pandêmico da COVID-19

Como o estoicismo pode colaborar diante de um cenário de crise?

Fundado por Zenão de Cítio, em Atenas, cerca de 300 anos a.C., o estoicismo teve a sua era de ouro alguns séculos depois. Até os dias atuais, pouca coisa surgiu que explique tão bem o comportamento humano perante as adversidades da vida como o estoicismo, e a grande maioria do que surgiu teve como base o próprio estoicismo.

De acordo com os estoicos, todas as emoções destrutivas (como ansiedade e angústia) são frutos de uma única coisa: falta de sabedoria. Eles diziam que “o sábio é imune aos infortunos”, ou seja, sem preparo, estudo e dedicação é mais provável que a nossa mente seja domada do que o contrário.

A base do estoicismo seria identificar a diferença entre aquilo que você pode mudar e aquilo que não pode mudar (dicotomia do controle), identificar aquilo que está ao alcance da nossa ação daquilo que não está. Nesse sentido, a famosa busca ao estoicismo, de fazer o discernimento entre o que está ao alcance da nossa ação, e que, portanto, deve ser objeto da nossa racionalidade, e o que não está, que não deve ser nosso objeto de ansiedade.

Um outro ponto importante do estoicismo é a percepção do caráter efêmero das coisas, que muitas das vezes é representado como um comparativo entre nós e a natureza, entre os seres humanos e o logos, que significaria uma espécie de divindade ou um grande princípio racional imanente às coisas.

Nesse sentido, o estoicismo nos ensina a não querer ser maiores que a natureza e, ao contrário disso, aprender a viver com ela. É a partir daí que nasce o entendimento de que o estoicismo seria uma escola filosófica que prega uma certa resignação ou uma certa acomodação, aos ditames do logos e da natureza. Portanto, prega-se "a busca de você mesmo" como o princípio da sua vida, não no sentido metafísico, mas no de que você se torne o mais possível autônomo de suas frustrações e angústias que afloram a si mesmo, levando em consideração o nosso caráter efêmero e o quanto dependemos de elementos naturais e que estão numa esfera “extra-humana”. Desse modo, o estoicismo investe na busca da autonomia e do autocontrole.

Aplicado à temática específica do cenário pandêmico de COVID-19, não está ao alcance da nossa ação acabar com a epidemia, mas sim de termos uma atitude de, por exemplo, respeitar as regras a fim de evitar o contágio. Além disso, buscar autonomia em relação à quantidade de informações histéricas disponíveis, bem como autocontrole com relação a não se deixar contaminar pelos apocalípticos, por exemplo.

Infere-se, assim, que o estoicismo pode ajudar em alguma medida, consoante à busca pela “ataraxia”, que consiste em chegar a uma alma que seja menos atormentada pelo mundo exterior, mais repousada nela mesma, ou seja, uma alma que seja menos objeto dos tormentos e das tempestades que vem de fora do mundo.

“Homens fortes criam tempos fáceis, tempos fáceis criam homem fracos. Homens fracos criam tempos difíceis e tempos difíceis criam homens fortes.” – Autor desconhecido.

Essa, inclusive, é uma das provas de que a filosofia transita entre o teórico abstrato e a vida prática, e que a verdadeira filosofia é inseparável da sabedoria e, consequentemente, da conduta perante a vida.

Como o pessimismo pode ser prejudicial neste momento?

Primariamente, vale ressaltar que estamos passando por um cenário que já aparecera várias vezes durante a história da humanidade: pragas. E a consequência disso é sempre um sentimento invasivo, uma exposição aguda da nossa fragilidade e precariedade, sempre expondo nossas “experiências-limite”, que nada mais são do que nossas escolhas de prioridades.

De acordo com o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, em entrevista recente à rádio Jovem Pan:

“O investimento no pessimismo nessa hora me parece bastante negativo e uma tamanha forma de irresponsabilidade, com gozo paranoico. Sob essa perspectiva, vejo que os vetores midiáticos, em grande parte, investem muito no pico de pessoas que ficaram doentes e morreram, e esse investimento no susto e no medo, mesmo sendo uma estratégia para garantir a adesão das pessoas aos cuidados com a epidemia, me parece bastante crítica.”

Também pontuou:

“Nesse sentido, acho lamentável que instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS) utilizem termos como ‘vírus apocalíptico’ para se referir ao COVID-19, pois isso alimenta um certo imaginário terrível e não há dúvidas de que a epidemia vai passar, como todas as outras.”

Outrossim:

“Acho que daqui a duzentos anos as pessoas não estarão agindo de forma muito diferente porque nós não agimos de forma muito diferente da humanidade depois de cem anos da gripe espanhola, que foi infinitamente mais mortal, em que, inclusive, a letalidade se espalhava por todas as idades, pegando muitos jovens no processo. Não acho que a ideia de que irá nascer um novo mundo, que as pessoas vão ser diferentes, acho que esse tipo de otimismo é utópico. Mas o otimismo que me parece importante nesse momento é o de acreditar na ciência, buscar informações que mitiguem o desespero de pessoas, combater figuras apocalípticas que estão a sua volta, o otimismo de entender que a humanidade sempre sobreviveu às epidemias e que essa só irá passar quando atingirmos, de acordo com o termo epidemiológico, a ‘imunidade de rebanho’, que é quando você tem uma maior parte da população já imunizada, que já debela o vírus e, portanto, o vírus não se propaga mais. No final, quem vai debelar a epidemia somos nós, nosso sistema imunológico, nossos cuidados para diminuir a transmissão, as descobertas medicas que possam melhorar os quadros agudos dos pacientes. O custo é alto, o sofrimento é grande, e é fundamental que se combata o desespero e os insistentes discursos apocalípticos.”

Oriente x Ocidente: normatividades distintas

Claramente, há uma questão cultural de fundo antiga, de que os países orientais historicamente possuem uma cultura um pouco mais coletivista, no sentido de que o ocidente desenvolveu uma política e um modo de vínculo social bastante centrado no indivíduo e na escolha voluntária que rege o comportamento.

Quando se pensa na ditadura da China, e democracias como Japão e Coreia do Sul, percebe-se uma cultura de fundo, que é a ideia de que as pessoas vivem, antes de tudo, em grupos e, portanto, tendem a questionar menos certas ordens governamentais e a normatividade que vêm do sistema centralizado. Nesse sentido, é bem claro que os países orientais tendem a se sair melhores em uma situação de pandemia, pois as pessoas são mais “obedientes”, estão mais acostumadas a seguir ditames que venham do governo central e, tradicionalmente, respeitar hierarquias.

Do outro lado, do ponto de vista do governo, há uma possibilidade maior de abrir "Regimes de Exceção", não necessariamente um estádio de sítio, mas regimes em que o governo chama pra si um maior monopólio legitimo do poder, inclusive do ímpeto de controlar o comportamento das pessoas. É notório que isso no Oriente é muito mais presente do que no Ocidente, que desenvolveu uma prática de democracia liberal, que neste momento se caracteriza por uma sensação de maior desorientação popular.

Por outro lado, em países ocidentais, faz-se uma discussão mais aberta sobre as informações, pessoas estão ouvindo mais e estão sendo impostas a narrativas, enquanto que no universo oriental, grande parte da população sabe muito menos sobre temas epidemiológicos, por exemplo.

Além disso, os mecanismos de controle da população da China (Big Data, associado a uma crença de proteção do Estado, agindo similarmente a uma espécie de “contrato social”), em saber onde você está, e de avisar pelo celular que o prédio que você vai entrar tem alguém que foi contaminado, por exemplo, corrobora que a resposta seja mais rápida e o constrangimento do comportamento seja maior. Outrossim, na China, muitas vezes a esfera privada não existe, inclusive do ponto de vista físico, ao se observar uma população mais carente, pessoas que dividem cozinha e banheiro. Nesse sentido, a falta da esfera privada pode facilitar o crescimento do contágio justamente pela falta de uma “privatização higiênica”.

O grande gerúndio: queda neoliberal e ascensão keynesiana?

“É possível que se volte à cena aquilo que aconteceu na Europa depois da Segunda Guerra Mundial, que foi o Estado ficar mais gastador, mais keynesiano no sentido econômico, de acreditar que ele tem que investir mais pesado na sociedade para diminuir o desespero. A posição neoliberal tende a sair em baixa nesse momento, ao mesmo tempo, porém, na medida em que as pessoas puderem se organizar livremente pra diminuir o sofrimento econômico, isso também pode fortalecer a posição de que os seres humanos são responsáveis pela economia e não só devem esperar a mesada do Estado, até porque Estado nenhum consegue salvar uma situação como essa.  Há também, inclusive, um debate bastante atual sobre em que medida momentos de epidemia tendem a aumentar o Estado de Exceção, e portanto, aumentar o poder do chamado ‘soberano’, no caso do Brasil, do presidente”, alega Pondé.

Ademais, expressa:

“Se o estrago econômico for muito grande, como é provável que seja, em alguma medida que a gente tenha sim um recuo de políticas neoliberais e certo retorno de políticas keynesianas, que foram, inclusive, bem importantes logo no cenário pós Segunda Grande Guerra, por conta de que o Estado precisa, de alguma forma, tomar o pulso e ajudar a sociedade a se organizar e voltar a coesão. E também acho que o neoliberalismo nesse momento não perca tanta força porque, inclusive, eu diria que o comportamento moral liberal e a iniciativa do indivíduo é fundamental para a superação da epidemia e da crise econômica. Então eu entendo que pode haver um certo recuo no discurso neoliberal se você entendê-lo como um discurso que recusa qualquer participação social. Eu diria que talvez a gente entrasse em um momento de ‘liberalismo social’, compreendido como a importância da sociedade de mercado associada a políticas públicas que façam a gestão da crise garantindo uma certa estabilidade social.”

Referências

  1. Curso Online de Filosofia – Estoicismo: https://www.seminariodefilosofia.org/o-curso-online-de-filosofia
  2. Entrevista Luiz Felipe Pondé a Rádio Jovem Pan – 28/03/2020

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Bárbara Figueiredo
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19 anos. Acadêmica de Medicina na Fundação Educacional de Patos de Minas. Curto nerdices, Sócrates e tripartição de poderes (rs). Instagram: @figueiredobabi

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