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Estudar para saber

Estudar para saber

Essa semana li o novo capítulo dedicado aos estudantes de medicina sobre como estudar na faculdade em um conhecido e renomado manual médico. Texto interessante, com uma perspectiva bem situada sobre a diferença entre o estudo na graduação em comparação ao estudo no segundo grau e para o vestibular, identificando com pertinência as novas dificuldades que os alunos irão encontrar em termos de métodos de aquisição e retenção de conteúdo.

O texto oferece diferentes estratégias e abordagens práticas e eficientes para lidar com a avalanche de informações que irá soterrar os estudantes de medicina, dando indicações do que fazer e do que não fazer, bem como ensinando mnemotécnicas perspicazes, muito úteis nessa nova fase de sua jornada acadêmica. Com certeza irá ajudar calouros e veteranos, vale a pena conferir.

Isso me fez pensar na diferença entre informação e conhecimento.

Durante os nossos seis anos de faculdade, os mesmos cursados pelo meu bisavô que se formou em 1891, enxertados com todo o conhecimento técnico e científico adquirido desde então – e lá se vão quase 129 anos de vertiginoso progresso nessas áreas – não nos é mais possível estudar na acepção de adquirir conhecimento. Por absoluta falta de tempo. Da formatura do meu bisavô até hoje tudo mudou, menos o tempo dedicado à formação do médico.

Informação ou conhecimento

Para esta nossa pequena reflexão, vamos definir informação como aquilo que pode ser compilado e consultado, porém que não suscita necessariamente reflexão, nem modifica quem a acessa, e conhecimento como a aquisição de informações concatenadas, que exigem um processo aprofundado e demorado de aquisição, compreensão, elaboração e crítica, promovendo necessariamente reflexão pessoal e se tornam parte integrante e indelével daquele que as adquire, modificando-o como indivíduo e como profissional, e levando-o por sua vez a modificar com sua própria experiência o conteúdo intrínseco das informações adquiridas. No conhecimento o sujeito e o conteúdo não são mais diferenciáveis, enquanto a informação e seu veículo guardam perfeita separação e independência recíproca.

Apesar de singela e reducionista, até mesmo cândida, essa definição serve bem ao escopo desta pequena exposição.

Informações são compiláveis, administráveis em blocos de notas, fichas, aplicativos e/ou por mnemotécnica. Precisam ser mais acessíveis e com a maior presteza possível. A internet e os aplicativos de smartphones e computadores são uma fonte preciosa e inesgotável.

Mas e o conhecimento?

O conhecimento exige tomar ciência, absorver, compreender, assimilar, refletir, ponderar, comparar, criticar, pôr à prova e integrar o conteúdo. Tornar seu. Inesquecível, pois passa a fazer parte constituinte de quem o adquire.

Vale ressaltar que não se trata de contrapor uma coisa à outra, tanto as informações como o conhecimento têm a sua validade e a sua razão de ser, não existindo conflito real entre ambos. Na verdade, podemos considerar as informações como uma etapa preliminar e necessária do conhecimento.

Como estudar

Naturalmente existem muitos métodos comprovados pelo tempo, senão pelas ciências pedagógicas e da cognição, de adquirir conhecimento. Compartilho aqui o que uso e tem me servido pessoalmente. Aprendi com um professor há priscas eras e não sei de que tratado pedagógico ou didático ele o retirou, ou de sua própria experiência ou da experiência de outrem. Tenho posto em prática desde então e para mim funciona bem, espero que possa ser proveitoso para mais alguém.

Cinco etapas

A ideia é ler o texto que constitui o nosso objeto de estudo em cinco etapas:

  1. Como se você mesmo o tivesse escrito, do início ao fim, sem fazer anotações ou pesquisas.

  2. Agora, depois de ter lido o texto inteiro, ler novamente verificando se você conhece todos os termos (definição e conceito), se você compreende o que está sendo dito, e buscando os devidos esclarecimentos.

  3. Concluída a segunda etapa, vamos ler novamente, dessa vez destacando (sublinhando, colorindo ou anotando em uma ficha) os principais conceitos do texto, o conteúdo que você precisa aprender.

  4. Agora, com seu texto já todo anotado e marcado, ler apenas a sua marcação e fazer um resumo com as suas próprias palavras (isso é fundamental). 

  5. Por fim, depois de cumpridas as quatro etapas anteriores, reler o texto novamente do início ao fim, mas dessa vez fazendo uma leitura crítica e anotando as suas próprias reflexões a respeito do texto.

Se você seguir todas as etapas acima você terá adquirido o conhecimento veiculado pelo texto; esse conhecimento agora será seu e você terá plena autonomia de pensamento em relação a ele.

Vamos ver essas etapas com um pequeno exemplo? Escolhi o trecho de uma bula seguindo o modelo de bula com informações técnicas aos profissionais de saúde da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Apaguei o nome da substância para não ser uma distração, vamos chamá-la de medicamento X; importante dizer que todos os resultados de eficácia estão neste texto abaixo, o parágrafo seguinte da bula já trata de outro tópico. [1]

Primeira etapa – ler como se você fosse o autor

Essa parte é autoexplicativa. Você simplesmente lê o texto do início ao fim, sem parar. Caso se depare com algo que não conheça ou não compreenda, pule essa parte e siga adiante. O importante é ler tudo até o fim.

 

Aparentemente nenhum mistério, não é mesmo? Claro que você já não lembra mais os números mencionados, mas a ideia geral é bastante simples: “melhora estatisticamente superior” (penúltimo parágrafo) e “melhora também em todos os sintomas associados quando comparados com indivíduos controle” (último parágrafo) deixam a impressão que o medicamento X é melhor. Lembre-se disso, impressão. Não encontramos nenhuma afirmação de que os resultados de eficácia comprovem a superioridade do medicamento. Voltaremos a isso.

Segunda etapa

  • (a) Verificar se você conhece todos os termos (definição e conceito);
  • (b) Verificar se você compreende o que está sendo dito; e
  • (c) Buscar os devidos esclarecimentos

Agora vai começar a diversão.

A primeira parte é com você mesmo: não acredite em nada do que você pensa; encare todos os seus pensamentos como se fossem mensagens do WhatsApp – a atitude mais apropriada é “Será? Melhor checar…” 

Reza a lenda que o físico Albert Einstein dizia que se você não conseguir explicar o que aprendeu em sala de aula para a sua avó de modo que ela compreenda, então você não entendeu nada. Si non è vero è ben trovato. Isso é mais importante do que parece à primeira vista: primeiro porque o leigo vai fazer perguntas muito mais difíceis de responder (você precisa dominar o assunto), e depois porque os seus pacientes, até segunda ordem, serão leigos, então é bom ir se acostumando a responder às suas perguntas de modo que eles  fiquem satisfeitos com as respostas.

Então, para ter certeza que você realmente entendeu tudo como parece, que tal explicar para a sua avó o que é:

  • resultados de eficácia | cefaleia tensional | migrânea | estatisticamente significativo | ganho terapêutico | reincidência | medicação de resgate | aura | escala analógica | fotofobia | fonofobia | superioridade estatística | indivíduos controle

Parece óbvio. Se você conseguir explicar tudo isso para a sua avó e ela de fato entender, estamos prontos para continuar. Caso contrário é o momento da pesquisa: livros-textos adotados pela sua faculdade, bons dicionários médicos (Dorland’s, Stedman’s, etc.), bons dicionários de português (Caldas Aulete, Houaiss, Aurélio, etc.) e uma checada on-line na ortografia no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) até dirimir todas as suas dúvidas.

Você reparou que eu substituí “estatisticamente significante” por “estatisticamente significativo”? Voltaremos a isso mais tarde.

Assegurada a perfeita compreensão do vocabulário utilizado, vamos ver se entendemos o que está sendo dito: 

Segundo o texto, os resultados de eficácia da substância X em ensaios clínicos foram baseados nos dados desses ensaios, parcialmente apresentados para nós e indicados nas referências. Vamos organizar as informações para facilitar sua compreensão esquematizando em uma pequena tabela:

A única coisa que podemos compreender de fato do texto é que os dados estão apresentados de modo a induzir uma impressão de melhora com o uso do medicamento X apresentado, mas se você quiser saber realmente vai precisar ler os dois estudos. O estudo sobre cefaleia tensional está disponível gratuitamente, [2] mas o estudo sobre migrânea com e sem aura só disponibiliza gratuitamente o Abstract, [3] para ter acesso ao estudo completo você vai precisar assinar o periódico, acessar pela universidade ou pela Biblioteca Eletrônica no site do CREMERJ. Os dois artigos estão em inglês.

Depois de ter lido os dois estudos mencionados você já deve ter os elementos necessários para dizer que entendeu o que o texto “resumiu”.

Então vamos à terceira etapa:

Terceira etapa

  • (a) Sublinhar ou destacar os principais conceitos
  • (b) Fazer anotações sobre o conteúdo que você precisa aprender;

Aqui os temas de destaque são os tipos de cefaleia que podem ser tratados com sucesso com o medicamento na dose de 1 g IV (presumivelmente no pronto-socorro). 

Não deixe de fazer anotações sobre o que você pensa do que leu e do que está estudando a respeito. Isso cumpre duas funções fundamentais: sedimenta o assunto na sua mente e depois lhe propiciará momentos deliciosos no futuro, quando porventura reler o que escreveu. Puro deleite.

Quarta etapa

  • (a) Resumo com as suas próprias palavras (no caso as minhas)

Os resultados de eficácia analgésica do medicamento X para o tratamento da cefaleia tensional e da migrânea com e sem aura são provenientes de dois ensaios clínicos controlados com placebo realizados pelos mesmos autores em 2002. Os dois ensaios clínicos compararam a resposta analgésica à dose de 1 g IV do medicamento X em 30 e 60 minutos. O estudo sobre a cefaleia tensional utilizou como desfecho o ganho terapêutico (não definido), tendo tido como resultado 30% e 40% em 30 min e 60 min, respectivamente. O estudo sobre a migrânea utilizou sete parâmetros (não descritos) de avaliação analgésica, além da avaliação dos sintomas náuseas, foto e fonofobia por meio de uma escala visual analógica – dados não descritos. Na avaliação dos dois estudos a significância estatística foi definida como P < 0,05. 

Quinta etapa

  • (a) Reler o texto novamente do início ao fim, mas dessa vez fazendo uma leitura crítica e anotando as suas próprias reflexões a respeito do texto.

O texto resume mal os dados necessários para a compreensão dos resultados de eficácia, mas a leitura dos artigos apresentando os estudos os esclarecem a contento. O parágrafo estudado é bastante vago para o que se propõe: os resultados de eficácia deveriam revelar dados comparativos, numéricos e completos para que o leitor possa derivar algum significado estatístico. O número exíguo de estudos (apenas dois, ambos feitos pelos mesmos autores em 2002) e de participantes (60 em um estudo, não especificado no outro) em princípio não asseguram fidedignidade aos resultados sugeridos, é necessário avaliar cada estudo para verificar se esses dados são de fato confiáveis. A validade da significância estatística de P < 0,05 vem sendo posta em questão e atualmente é proposto o valor < 0,005 para uma validação inequívoca. [4] 

O texto em si carece de valor científico e nos obriga a ir buscar os dados originais do estudo para obter o embasamento científico necessário ao que o texto sugere, ou seja, que a administração de 1  g IV do medicamento X é eficaz para o tratamento da cefaleia tensional, da migrânea sem aura e da migrânea com aura.

Chama atenção a falta de esmero e precisão com a linguagem e a grafia dos símbolos:

  • “Significante”, conceito linguístico ou aquilo que confere significado, não é sinônimo de “significativo” (aquilo que tem significado), como o querem as más traduções da língua inglesa;

  • Em português a grafia correta de símbolos, algarismos, números e unidades de medida exige o uso de espaços pelas normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), logo onde se lê “p<0,05” deveria se ler “p < 0,05”.

  • Na primeira vez que aparece o termo versus é corretamente grafado em itálico (latim), porém nas duas outras vezes que aparece perde inexplicavelmente o itálico.

Em conjunto, o texto não inspira confiança, os dados parecem mambembes e a apresentação geral é desleixada. É importante zelar pela qualidade global das informações, sob pena de perder credibilidade, como ocorreu neste caso.

Pronto, exemplificado o estudo em cinco etapas. 

Por que escolhi esse texto? Por acaso. Escolhi um texto que fosse fonte frequente de consulta, bula de medicamento me pareceu uma boa ideia, e procurei que fosse uma bula que seguisse o modelo da Anvisa. Não sabia que a qualidade seria essa, mas essa é a nossa realidade, a qualidade dos textos com os quais nos deparamos na nossa prática diária. Melhor aprender a lidar com eles, é o que temos.

Naturalmente, é humanamente impossível aplicar este método de estudo a todo o conteúdo ao qual o estudante de medicina será exposto durante a sua formação acadêmica. Para as avaliações curriculares vale a máxima “se não entendeu, decora”. Mas, para aquela parte da medicina que faz os seus olhos brilharem, que você elegeu como a sua preferida, a sua escolha pessoal, vale a pena dedicar o seu tempo a aprender. Além de adquirir autonomia intelectual e profissional, será uma fonte inesgotável de contentamento para você.

Bom estudo! 

Dra. Carla Vorsatz
Médica com Pós-Graduação em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade Federal Fluminense
Diretora Executiva e sócia fundadora da empresa XSTZ especializada em redação, tradução e localização, revisão científica e produção de textos médicos – www.milarepa.com.br

 

Referências

  1. Modelo de bula com informações técnicas aos profissionais de saúde Último acesso em 04 de novembro de 2018.

  2. Bigal ME, Bordini CA, Speciali JG. Intravenous dipyrone for the acute treatment of episodic tension-type headache: a randomized, placebo-controlled, double-blind study. Braz J Med Biol Res. 2002 Oct;35(10):1139- 45. Epub 2002 Oct 13. Bigal ME, Bordini CA, Tepper SJ, Texto integral Último acesso em 04 de novembro de 2018.

  3. Speciali JG. Intravenous dipyrone in the acute treatment of migraine without aura and migraine with aura: a randomized, double blind, placebo controlled study. Headache. 2002 Oct;42(9):862-71. Abstract Último acesso em 04 de novembro de 2018.

  4. Benjamin DJ, Berger J, Johannesson M, et al. Redefine statistical significance. doi:10.31234/osf.io/mky9j Último acesso em 04 de novembro de 2018.

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