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Feliz Dia do Novo (Velho?) Médico

Feliz Dia do Novo (Velho?) Médico

Resolvi escrever esse texto, na mesma época em que comemoro meu 22º Dia do Médico, uma vez que diante de tantos acontecimentos desde o 21º, não há como não refletir sobre o que é ser médico no cenário atual.

Sempre quis ser médico, desde que me lembre. Meu avô era médico, bem como seu pai e seu avô, em uma época completamente diferente da que vivi, e ao mesmo tempo que apresenta tantas semelhanças com as épocas em que viveram. Nos vimos diante de uma Pandemia, como não ocorria em tal escala desde a Gripe Espanhola. Nos vimos diante de um grau de informação e desinformação alarmante, como não se via desde os tempos da Guerra Fria. Nos vimos diante de um “experimento social”, com alteração de hábitos, regras de conduta e polarização política, como não víamos desde a Segunda Grande Guerra.

E o que tem isso a ver com o médico e seu papel? Absolutamente tudo.

Nos vimos, no início da Pandemia, diante de situações completamente anacrônicas, dignas de serem comparadas a uma infame cirurgia para amputação de membro inferior de Robert Liston, no início do século 19, antes da “revolução” promovida por Semmelweis e Lister com a higiene e antissepsia, em que em um único procedimento, atingiu-se a desastrosa mortalidade de 300% (morreram o paciente, um assistente e um médico que assistia o procedimento de amputação, os dois primeiros por infecção e o último de um ataque cardíaco por achar que havia sido ferido). Como não comparar tal catástrofe, aos primeiros pacientes tratados que faleceram, juntamente com os médicos que realizaram suas intubações, com os diversos assistentes das mais variadas áreas de saúde que pereceram por não sabermos como ocorria a contaminação do COVID-19, e que se contaminaram por não utilizarem as medidas corretas para a prevenção de se infectarem? Nesse aspecto, chegamos a taxas ainda mais altas do que na época do avô do meu avô...

Da mesma forma, o médico que precisa ser racional, rápido em suas decisões, se viu diante de um cenário de desconforto físico e mental imposto por máscaras, óculos, capotes, capacetes ultra reforçados, mas sem a certeza de que realmente estavam fisicamente protegidos, ao mesmo tempo em que em segundo plano estava presente a sensação incessante de quem seria o próximo a ser contaminado, se seria ele, um colega, um ente querido ou um outro paciente. Como ficar tranquilo de voltar para casa após um dia no hospital, achando que poderia ser o carreador da doença que estava combatendo para o seu meio de transporte, para o local de refeições, no contato com os demais profissionais e familiares? Como não se identificar com a imagem dos “Doutores da Peste”, com suas máscaras assustadoras e que eram reverenciados e temidos ao mesmo tempo, na Grande Peste que durou mais de 300 anos?

Se o momento era, e ainda é, de incerteza e angústia, ao mesmo tempo serviu para resgatar, em tantos de nós, outros valores que haviam sido por muitos deixados de lado. Ao ver tombar juntamente com os médicos tantos enfermeiros, técnicos, fisioterapeutas, maqueiros, e todos os demais profissionais que entravam em contato com os pacientes, sem distinção alguma, muitos perceberam o quanto estamos sempre lado a lado, como caímos juntos nas trincheiras em que estamos lutando, o quanto somos iguais. Da mesma forma, no exercício do dever, enquanto consolávamos tantos pacientes, familiares e amigos, quantas vezes tivemos também que ser consolados ao perdermos também tantas pessoas, sermos consolados pelo sentimento de impotência, pelo esgotamento que sofremos, conseguindo a maioria ver o quanto éramos todos iguais, humanos lutando por sobrevivência em um ambiente inóspito.

Espero que no meu 23º Dia do Médico, se não erradicada, a Pandemia ao mesmo esteja sob um controle melhor. Da mesma forma, espero que tudo pelo qual passamos nesse último ano tenha sido não só de tantas perdas, mas que tenha servido para que eu e todos os demais colegas consigamos extrair algo de bom diante do caos, o resgate da medicina junto ao paciente, a compreensão de que todos nas equipes de cuidados estão “no mesmo barco”, enxergarmos que a tecnologia é essencial mas não é tudo e a falta que faz o toque, o abraço, o poder de amparar e ser amparado fisicamente.

Esquecemos que somos tão frágeis quanto os nossos pacientes e seus familiares diante de situações difíceis, mas ao mesmo tempo nos fortalecemos tanto com o apoio que eles mesmos nos fornecem com uma palavra de apoio, quanto com um colega que nos oferece uma rendição não esperada, quando um outro profissional nos ajuda a ter uma conversa difícil, o sorriso de alívio e agradecimento quando empurramos uma cadeira de rodas para ajudar um familiar exausto de precisar amparar aquele ente querido ou quando um paciente se recupera.

Que a nova medicina tenha as qualidades da antiga sem repetir seus erros, e ao mesmo tempo que mantenha as qualidades da medicina moderna, mas erradicando a impessoalidade que vinha assumindo, e assim pudermos ver que (ou se) tudo o que passamos não foi em vão.

 

18 de outubro de 2020

 

George Patrick Boggiss

Médico Neurocirurgião,

Especialista em Dor

Pós-graduado em Cuidados Paliativos

Academia Médica
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