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Gabinete de Curiosidades Médicas: Hand of Glory e a medicina dos corpos criminosos

Gabinete de Curiosidades Médicas: Hand of Glory e a medicina dos corpos criminosos

Bem-vindos à série "Gabinete de Curiosidades Médicas"! Aqui você vai encontrar fatos curiosos, sombrios ou interessantes sobre a história da medicina e das artes. Prepare-se para um encontro inesperado com médicos, escultores, pintores, filósofos que se unem para contar um pouco das inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

A superstição é algo intrínseco à humanidade. Como boas criaturas simbólicas que somos, ou homo symbolicum, na expressão do filósofo Ernst Cassirer, temos a tendência natural de transgredir as fronteiras entre o natural e o sobrenatural. Embora hoje esse fenômeno esteja mais restrito à vida privada, há muito pouco tempo ele estava presente em diversas esferas da vida pública, incluindo nas práticas médicas ― não só nas chamadas práticas populares, mas também nas institucionalizadas.

Curiosamente, a maioria dessas práticas tinham uma coisa em comum: estavam ligadas à crença no poder mágico dos corpos criminosos. Por séculos os cadáveres de criminosos serviram não apenas para o ensino da anatomia do corpo humano, mas também como fonte para a cura de doenças que assolavam a população.

Os métodos de uso do corpo criminoso como potente elemento médico-místico não ficava restrito apenas à ingestão do sangue ou de ossos triturados (como visto na coluna passada), já que incluía também o simples toque da mão de um criminoso que tivesse sido enforcado.

Nos séculos XVII e XIX, os corpos de criminosos executados eram intensamente procurados para fins medicinais. Novamente, é preciso lembrar que naquela época, medicina e magia andavam praticamente de mãos dadas (olha o trocadilho aí, gente!) e a noção da medicina como uma ciência com métodos rigorosos é muito mais recente do que se imagina.

Em 1758, o jornal londrino The Gentleman’s Magazine relatou o caso dos irmãos James e Walter White. Condenados por invadirem e roubarem a casa de um fazendeiro, os dois foram condenados à forca. Após a execução pública dos criminosos, uma criança de apenas nove meses de idade foi levada até o carrasco, que então fez com ela fosse por nove vezes acariciada no rosto pelas mãos dos cadáveres. O motivo do ato bizarro tinha uma razão medicinal: curar um cisto que o bebê tinha um cisto na bochecha.

No livro “Executing Magic in the Modern Era: Criminal Bodies and the Gallows in Popular Medicine”, Owen Davies e Francesca Matteoni contam que, em 1853, uma mulher com um cisto no pescoço foi aconselhada a viajar até uma cidade próxima, onde um homem havia acabado de cometer suicídio (que era considerado crime). Quando ela chegou ao local, o corpo havia sido retirado da forca improvisada e colocado em um banheiro externo à espera legista. Vendo o desespero da mulher, os parentes do falecido permitiram que ela ficasse no mesmo recinto que ele durante toda a noite, com a mão gélida e sem vida roçando em seu pescoço.

Além dos poderes de cura, as mãos dos criminosos executados eram capazes de transmitir outros poderes mágicos. No século XV, por exemplo, as mãos dos criminosos enforcados (sim, eles normalmente eram homens e a mão a ser usada era sempre a esquerda) eram utilizadas como objetos mágicos para furtos. Depois de decepadas, depois de todo sangue ter sido extraído, elas eram colocadas em processo de conservação, meio parecido com o que fazemos hoje com picles, só que bem mais sinistro. Após isso, eram transformadas em candelabros, que tinham o poder de abrir qualquer fechadura, como uma chave-mestra mágica, e de render e imobilizar magicamente os moradores da residência que se pretendia assaltar. 

A esse objeto era dado o nome de Hand of Glory (algo como Mão da Glória). “Era a mão do cadáver de um criminoso enforcado, cujo sangue foi drenado, seco e preservado. Quando segurava uma vela acesa feita da gordura de um criminoso enforcado, entorpecia os que estavam em sua presença; seu principal objetivo é cometer roubos”, explicam Davies e Matteoni.

De acordo com os autores, o termo Hand of Glory vem do francês Main de Gloire, derivada de outra palavra em francês para Mandrágora (Mandrogore). “A mandrágora faz parte da família das plantas da beladona e sua raiz carnuda pode muitas vezes se parecer muito com um corpo humano e era uma crença popular nos séculos anteriores que essas plantas costumavam crescer sob a forca de execução.”

Esse objeto místico, presente materialmente no cotidiano de pessoas do passado e ludicamente no imaginário popular de hoje, fez sucesso também no cinema.

Além de aparecer na bilionária saga do bruxo Harry Potter (A Câmara Secreta), ela surge, muito tempo antes, no filme The Wicker Man, dirigido por Robin Hardy em 1973. Este último um verdadeiro clássico do horror, pelo qual este que vos digita sente particular apego.

A prática de usar o toque da mão de um criminoso executado como remédio é hoje, felizmente, ultrapassada, mas era uma das inúmeras tentativas de respostas aos males causados por doenças para as quais as curas ou tratamentos efetivos não haviam sido desenvolvidos. Portanto, é preciso certo cuidado para não cair no anacronismo quando olhamos para certas condutas do passado.

Hoje temos lentes melhores para enxergar os detalhes do mundo, mas amanhã é possível que novas lentes surjam, revelando maiores detalhes até então imperceptíveis. A partir daí, seremos nós os ingênuos, os crédulos e os doidivanas.

Por isso, vez ou outra, ainda hoje é comum pedirmos uma mãozinha emprestada.

Academia Médica
Jocê Rodrigues
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Escritor, jornalista e editor. Sou um dos coordenadores do "Encontros de Leitura", do ITS, em parceria com a EMERJ. Pesquiso principalmente sobre as inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

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