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Gabinete de Curiosidades Médicas: Operando com a boca cheia ― uma cirurgia nada ortodoxa

Gabinete de Curiosidades Médicas: Operando com a boca cheia ― uma cirurgia nada ortodoxa

 

Bem-vindos à série "Gabinete de Curiosidades Médicas"! Aqui você vai encontrar fatos curiosos, sombrios ou interessantes sobre a história da medicina e das artes. Prepare-se para um encontro inesperado com médicos, escultores, pintores, filósofos que se unem para contar um pouco das inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

Vamos lá?

Qualquer pessoa hoje em dia sabe o quanto a profissão médica pode ser desafiadora e disputada. É um caminho árduo, longo, por vezes cheio de sacrifícios e concessões dolorosas. Um tremendo esforço físico e mental, que geralmente leva a mais esforços físicos e mentais, entrecortados por momentos que fazem tudo isso valer a pena.

Outra coisa que se sabe é que, além dos percalços enfrentados no dia a dia com doenças, plantões longos e pacientes, o médico contemporâneo está cercado de aparelhos e procedimentos que não apenas permitem como também obrigam certos tipos de conduta e comportamentos, dentro de protocolos rigorosos e muito bem estabelecidos. Mas nem sempre foi assim.

As cirurgias do século XIX geralmente envolviam muita dor, agonia, sangue, infecções, espasmos, contorções e mortes, muitas mortes. Acha que eu estou exagerando? Para começar, basta lembrar o fato de que as cirurgias, em boa parte daquele século, eram feitas sem nenhum anestésico. Era só você (paciente), o médico, os assistentes e… mais algumas dezenas de pessoas que poderiam assistir ao procedimento. Incluindo você mesmo, que também estaria inteiramente acordado e consciente no momento da retirada de um tumor ou, quem sabe, de uma perna ou de um braço.

Mas, se, e apenas se, você fosse rico o suficiente, não precisaria passar pela parte dos espectadores e da sujeira dos anfiteatros cirúrgicos. Poderia optar, por exemplo, por fazer isso na mesa da sua cozinha, que era a melhor opção, já que provavelmente ela seria muito mais limpa do que a mesa de cirurgia de qualquer hospital da época.

Se por um lado a prática médica, principalmente a dos cirurgiões, era repleta de desespero, carne esfolada e fluídos,  por outro ela permitia também certas licenças que podiam fazer toda a diferença, para o bem ou para mal. Nessa época, é preciso lembrar, o tempo era crucial (não que hoje não continue a ser, mas em relação a métodos de sedação e prolongamento estamos muito mais bem servidos) e uma ação rápida podia fazer a diferença entre a vida e a morte de um paciente.

Com isso em mente, muitos médicos acabavam seguindo seus instintos mais primitivos, pouco educados por regras e manuais rígidos de conduta e comportamento, que hoje em dia  levariam a processos e a condenações por parte da comunidade médica. É o caso da atitude que o cirurgião britânico de origem dinamarquesa John Eric Erichsen precisou tomar durante uma operação na década de 1840. Erichsen dedicou a sua vida ao desenvolvimento da prática cirúrgica. Era considerado um cavalheiro e um profissional exemplar, essencialmente devotado às questões técnicas da cirurgia.

Trabalho Sujo (literalmente)

Certo dia, chegou ao University College Hospital de Londres uma paciente com uma infecção da laringe. A infecção era tão forte que ela estava se asfixiando. Ao atender a mulher, Erichsen fez uma incisão em seu pescoço e se deparou com uma cena nada alentadora: na garganta dela foram encontrados grandes e viscosos coágulos de sangue e de pus, que a impediam de respirar. A mistura de cheiro repugnante saía aos borbotões, provavelmente esguichando no avental do médico e no corpo e rosto da pobre moça. Uma cena nada bonita de ver, mas que nem de longe se compara ao que vem a seguir.

Percebendo que o pulso da paciente caía vertiginosamente, John Eric Erichsen seguiu os seus instintos e iniciou um procedimento nada ortoxo. Ele se inclinou sobre a mesa e sobre o corpo da mulher, posicionou a sua boca na ferida e começou a sugá-la como se não houvesse amanhã (talvez para ela realmente não fosse existir). Por três vezes o médico sugou a ferida, enchendo sua boca com o máximo que conseguia da mistura quente e pegajosa de sangue coagulado e pus e por três vezes a cuspiu. 

O procedimento inusitado e corajoso de Erichsen garantiu a vida da paciente, que se recuperou pouco tempo depois. Por sorte, o médico também não sofreu nenhuma complicação por conta da ousadia. No máximo, deu aos assistentes e à própria paciente, uma ótima história para contar ― e um tanto quanto nojenta, diga-se de passagem.

Academia Médica
Jocê Rodrigues
Jocê Rodrigues Seguir

Escritor, jornalista e editor. Sou um dos coordenadores do "Encontros de Leitura", do ITS, em parceria com a EMERJ. Pesquiso principalmente sobre as inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

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