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Gabinete de Curiosidades Médicas: Phineas Gage e o acidente mais famoso da história da medicina

Gabinete de Curiosidades Médicas: Phineas Gage e o acidente mais famoso da história da medicina

 

Bem-vindos à série "Gabinete de Curiosidades Médicas"! Aqui você vai encontrar fatos curiosos, sombrios ou interessantes sobre a história da medicina e das artes. Prepare-se para um encontro inesperado com médicos, escultores, pintores, filósofos que se unem para contar um pouco das inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

Vamos lá?

O campo da medicina, assim como seus braços, é repleta de histórias e de acontecimentos no mínimo curiosos e, de quando em vez, surgem aqueles que desafiam o senso comum e suscitam a necessidade de se repensar certas certezas. Um dos casos mais famosos e desafiadores diz respeito a um homem simples, um acidente de trabalho e um vergalhão de ferro voador. 

No dia 13 de setembro de 1848, Phineas Gage (também chamado de Greg) trabalhava como operário em uma ferrovia próxima a Cavendish, Vermont. Enquanto construía uma estrada de ferro, ele preparava uma carga de explosivos que, para o seu azar e para o  assombro e deleite dos anais da medicina, acabou por explodir antes do tempo. O acidente fez com que um vergalhão de ferro de um metro e meio atravessasse o seu crânio, indo parar a mais de 25 metros de distância.

Curiosamente, apesar de ter o cérebro atravessado, Gage não morreu. No entanto, teve uma sequela bastante curiosa. Surpreendentemente para os médicos, ele foi capaz de se comunicar logo após o acontecido. Inclusive, ele sozinho foi até o hospital e, chegando lá, teria dito calmamente a Edward H. Williams, primeiro médico que o atendeu, por volta das 16h30 daquele fatídico dia: “Doutor, isso aqui vai lhe dar o maior trabalho”.

Impressionado, Williams relatou as primeiras impressões do encontro com o seu paciente da seguinte forma:

“O topo da cabeça parecia algo semelhante a um funil invertido, como se algum corpo em forma de cunha tivesse passado de baixo para cima. O Sr. Gage, durante o tempo que eu estava examinando a ferida, foi relatando a maneira pela qual ele foi ferido. Eu não acreditei nas suas declarações nesse momento. Pensei que ele estivesse enganado. Mas o Sr. Gage persistia em dizer que o haste havia passado por sua cabeça. Ele levantou-se e vomitou, e o esforço de vômito pressionou o cérebro para fora do crânio.”

Apesar da considerável rápida recuperação física, com alguns episódios de febre, anemia, estado semicomatoso e uma infecção cerebral por fungo, tudo parecia muito bem e miraculoso, exceto por um importante detalhe: uma mudança drástica no seu comportamento que só foi estudada de maneira pormenorizada mais de vinte anos depois por Harlow, o segundo médico que atendeu Gage naquele mesmo dia. 

Segundo os relatos posteriores do médico, Gage passou a mostrar um comportamento mais agressivo e seu linguajar passou a incluir uma série de palavrões e obscenidades, dificultando a sua relação com outras pessoas. O vergalhão que ele usava como um pé de cabra perfurou o lobo frontal, comprometendo partes do cérebro que são responsáveis pelo planejamento e também pelo raciocínio social. Ou seja, partes do cérebro que são usadas para inibir impulsos.

“Parecia que essa espécie de desinibição ocorrera com a lesão do lobo frontal, liberando algo animal ou infantil, de maneira que Gage tinha se tornado um escravo de seus caprichos e impulsos imediatos, do que estivesse imediatamente a sua volta, sem a deliberação e a consideração sobre o passado e o futuro que o caracterizaram anteriormente, ou suas prévias preocupações para com os outros e com as consequências de suas ações”, explica Oliver Sacks no livro Um Antropólogo em Marte, onde discute as diferentes teorias sobre e doutrinas da neurociência sobre as funções das diferentes partes do cérebro daquele período até os dias atuais.

O resultado dessa repentina mudança de comportamento se mostrou catastrófica para Gage, que acabou sendo demitido pouco tempo depois e precisou procurar outras maneiras de ganhar a vida, incluindo a nada desejada posição de atração de circos de aberrações, bastante populares no período.

O real motivo da mudança de personalidade de Gage ainda hoje permanece em debate. Mas uma coisa fica clara: a única desculpa aceitável para você se comportar feito um babaca é se seu cérebro tiver sido atravessado por um pedaço de ferro. Caso contrário, não. Combinado?

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Academia Médica
Jocê Rodrigues
Jocê Rodrigues Seguir

Escritor, jornalista e editor. Sou um dos coordenadores do "Encontros de Leitura", do ITS, em parceria com a EMERJ. Pesquiso principalmente sobre as inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

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