Uma pesquisa publicada na revista Nature Cardiovascular Research trouxe descobertas significativas sobre as diferenças biológicas entre homens e mulheres em relação às placas ateroscleróticas nas artérias carótidas e os sintomas de acidente vascular cerebral (AVC). A pesquisa, liderada por Katyayani Sukhavasi, doutoranda em Medicina pela Universidade de Tartu, reforça a importância de considerar o sexo biológico como uma variável essencial para o entendimento mais preciso da aterosclerose e seus desdobramentos clínicos.
Por que esse estudo é importante?
As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo, responsáveis por cerca de 17,9 milhões de óbitos por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). AVCs e infartos representam aproximadamente 85% dessas mortes. A estenose carotídea — ou seja, o estreitamento das artérias carótidas — é uma das causas mais relevantes de AVC isquêmico, e compreender suas particularidades é vital para o diagnóstico e o tratamento adequados.
Até então, grande parte das pesquisas clínicas e moleculares sobre aterosclerose considerava os dados agregados sem distinção entre sexos. No entanto, o estudo liderado por Sukhavasi e equipe rompe com essa abordagem ao explorar, de forma inédita, as diferenças subcelulares e moleculares entre homens e mulheres nas placas carotídeas.
A pesquisa utilizou sequenciamento de RNA de célula única (single-cell RNA sequencing) em células extraídas de placas carotídeas de pacientes submetidos à endarterectomia — procedimento cirúrgico para remoção de placas de gordura das artérias do pescoço. A técnica permitiu uma análise altamente detalhada da composição celular dessas placas, indo além das classificações celulares tradicionais.
O que muda entre homens e mulheres
Apesar de os tipos celulares predominantes — como células musculares lisas, macrófagos e células endoteliais — serem similares entre os sexos, a pesquisa encontrou diferenças marcantes nas subpopulações celulares e nas redes regulatórias gênicas.
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Nas mulheres, as placas apresentavam:
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Maior quantidade de células musculares lisas com características osteogênicas, o que pode indicar uma tendência à calcificação.
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Macrófagos reguladores da resposta imune, que podem estar ligados a um perfil menos inflamatório.
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Células endoteliais em transição para fenótipo mesenquimal, processo conhecido como EndoMT (Endothelial-to-Mesenchymal Transition), associado à remodelação vascular.
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Nos homens, as placas mostravam:
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Células musculares lisas com perfil condrogênico, potencialmente mais propensas a desenvolver rigidez e instabilidade.
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Macrófagos voltados à remodelação tecidual, frequentemente ligados a processos inflamatórios e instabilidade da placa.
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Células endoteliais angiogênicas, que favorecem a formação de novos vasos sanguíneos, processo que pode estar associado à fragilidade da placa e risco de ruptura.
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Além disso, homens tendem a desenvolver estenose carotídea em idade mais precoce, com placas ricas em lipídios e mais propensas a hemorragias, enquanto mulheres, possivelmente protegidas por hormônios até a menopausa, desenvolvem estenose mais tardiamente, com maior incidência de erosão da placa em vez de ruptura.
Essas descobertas têm implicações diretas para a prática médica e o desenvolvimento de terapias personalizadas. Segundo Sukhavasi, entender as diferenças moleculares e celulares específicas entre os sexos pode:
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Melhorar a previsão de risco individualizado de eventos cardiovasculares;
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Permitir diagnósticos mais precisos e precoces;
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Favorecer o desenvolvimento de terapias direcionadas de acordo com o sexo;
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Reduzir os vieses clínicos que impactam negativamente a saúde cardiovascular feminina.
O estudo "Single cell RNA sequencing reveals sex differences in the subcellular composition and associated gene-regulatory network activity of human carotid plaques" destaca a importância de incorporar o sexo biológico como variável fundamental nas pesquisas cardiovasculares. Ao revelar que homens e mulheres apresentam mecanismos celulares distintos na formação e progressão das placas ateroscleróticas, a pesquisa abre caminho para uma medicina mais personalizada, equitativa e eficaz no enfrentamento da principal causa de morte global: as doenças cardiovasculares.
Referência:
Estonian Research Council. (2025, April 11). Sex differences in carotid artery plaques and stroke symptoms revealed in new study. Medical Xpress. https://medicalxpress.com/news/2025-04-sex-differences-carotid-artery-plaques.html

