Nos últimos anos, o cenário do câncer de orofaringe mudou significativamente. Casos de carcinoma espinocelular de orofaringe (OPSCC) associados ao papilomavírus humano (HPV) têm aumentado, enquanto os casos não relacionados ao HPV estão em queda. Em 2018, o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) anunciou que o carcinoma espinocelular de orofaringe havia ultrapassado o câncer de colo do útero como o câncer mais comum associado ao HPV nos Estados Unidos.
O estudo publicado no JAMA Network Open analisou dados de 2013 a 2021 e é a primeira investigação a avaliar as taxas de testagem para HPV em pacientes com este tipo de câncer após a implementação da 8ª edição do manual de estadiamento da AJCC (American Joint Committee on Cancer), que tornou o status de HPV um critério fundamental para estadiamento da doença.
Principais Achados do Estudo
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Melhora nas taxas de testagem, mas longe do ideal: Apesar de um aumento progressivo ao longo do período, nenhuma população alcançou taxas próximas de 100%, o que é preocupante, dado que o estadiamento atual depende do status de HPV e que essa informação é essencial para seleção de tratamento e inclusão em ensaios clínicos.
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Desigualdades socioeconômicas e raciais persistem: Pacientes negros, hispânicos e de outras etnias não brancas apresentaram menor probabilidade de serem testados para HPV em comparação aos pacientes brancos. Essa disparidade não diminuiu ao longo do tempo e, em alguns casos, até se agravou.
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Impacto do nível socioeconômico: Morar em áreas com menor renda e menor escolaridade correlacionou-se a menores taxas de testagem. Essa associação pode refletir baixa literacia em saúde e menor acesso a informação sobre a importância da testagem.
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Diferença entre tipos de serviço de saúde: Pacientes tratados em centros comunitários de câncer tiveram menores taxas de testagem do que aqueles tratados em centros acadêmicos ou designados pelo NCI (National Cancer Institute). Como cerca de 80% dos pacientes oncológicos são tratados em centros comunitários, isso representa uma lacuna importante de cuidado.
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Subsites e viés clínico: Pacientes com câncer de amígdala, o subsite mais frequentemente associado ao HPV, foram mais testados do que aqueles com câncer de base de língua ou outros locais, sugerindo que o reconhecimento clínico da associação com HPV influencia a decisão de testar.
Os autores destacam que a falta de testagem adequada pode excluir pacientes de ensaios clínicos, perpetuar disparidades raciais e comprometer a qualidade do tratamento. Intervenções sugeridas incluem:
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Treinamento de profissionais de saúde para reduzir vieses implícitos e garantir que a testagem seja solicitada de forma uniforme.
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Campanhas de educação em saúde para pacientes, com foco na conscientização sobre a importância do status de HPV no câncer de orofaringe.
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Melhoria da infraestrutura dos centros comunitários, com protocolos padronizados e incentivo ao cumprimento das diretrizes da NCCN (National Comprehensive Cancer Network).
Mais de uma década após a recomendação da NCCN para testagem universal de HPV em casos de carcinoma espinocelular de orofaringe, os índices de testagem permanecem aquém do ideal e refletem desigualdades raciais, socioeconômicas e estruturais. O estudo chama atenção para a necessidade de estratégias de equidade em saúde para que todos os pacientes tenham acesso ao diagnóstico correto e às melhores opções terapêuticas.
Referência:
Carlson KM, Abdul-Rahman N, Deek RA, et al. Trends in Human Papillomavirus Testing Among Patients With Oropharyngeal Cancer. JAMA Netw Open. 2025;8(7):e2523917. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.23917

