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Iatrogenia do silêncio

Iatrogenia do silêncio

Iatrogenia é todo resultado desfavorável em consequência de um ato médico. Exercer a nossa profissão é correr um risco permanente de ser um instrumento de iatrogenia. Todo médico está sujeito a causar algum dano ao seu paciente, seja por falha na sua formação, seja por uma relação ineficiente entre ambos.

Em seu artigo sobre síndromes geriátricas, o dr. Edgar Nunes de Moraes, professor de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, menciona a iatrogenia do silêncio, aquela que decorre do fato de um médico não ouvir adequadamente um paciente, como uma das situações passíveis de iatrogenia. Uma comunicação eficaz entre ambos é determinante para a construção de uma relação terapêutica bem sucedida em todos os seus aspectos.

Nos EUA, há evidências sugerindo que, conforme os estudantes progridem na sua formação acadêmica, tendem a exercer menos suas habilidades de comunicação com os pacientes, perdendo o interesse por um atendimento mais interativo. Acredita-se que os rígidos e cansativos treinamentos durante os períodos de internato e residência vão substituindo a empatia dos primeiros anos de estudo por sentimentos que desprezam tanto a fala quanto a escuta.  

É na bem conduzida entrevista clínica, ou anamnese, que reside  o sucesso da atenção médica. E uma boa anamnese só é conseguida se o médico emprega a sua habilidade de comunicação, que precisa ser exercitada continuamente ao longo de toda a sua formação e mesmo ao concluí-la.

Em 1999, o American Board of Medical Specialties considerou a habilidade de comunicação como uma das principais competências de um médico, reconhecendo a necessidade que as escolas médicas devem ter no treinamento de seus alunos para desenvolvê-la ou aperfeiçoá-la.

Passadas mais de duas décadas desse levantamento, eu me pergunto: como estamos nos comunicando com nossos pacientes? As consultas tornaram-se cada vez mais rápidas, não deixando nenhuma oportunidade para que o paciente conte a sua história. Frequentemente, o médico está cansado demais ou pressionado pelo excesso de exigências, que nega-se a dar-lhe atenção, esquecendo-se do profundo impacto que a sua conduta terá sobre o tratamento.

A organização norte-americana Joint Comission, responsável pela acreditação de empresas de saúde naquele país, descobriu que a falta de comunicação entre médicos e pacientes, muito mais do que a falta de competência técnica desses profissionais, foi responsável por mais de 70 por cento dos eventos adversos graves decorrentes dos tratamentos médicos realizados. Aqui está a iatrogenia do silêncio a que se referiu o dr. Edgar:

"Se  o médico não ouve, se não se comunica adequadamente, ele erra e causa dano ao seu paciente. E em Medicina, errar significa correr o risco de causar incapacidade e morte."

A boa comunicação é o primeiro elo da relação entre nós e nossos pacientes. Sem isso, não há boa prática médica, já que a nossa profissão, é, de fato, uma arte de ouvir histórias.

Conversar com os nossos pacientes é um bom remédio! E se não temos tempo ou disposição para ouvi-los, não somos dignos das histórias que eles têm para nos contar.

Referências 

1-Principais síndromes geriátricas. Moraes, EN et al. Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66.

2-The role of the physician in the emerging health care environment. MR Di Matteo. West J Med. 1998 May; 168(5): 328–333.

3-Joshi, Nirmal (2015). “Doctor, Shut Up and Listen” TheNYTimes.com.

 


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Renata Rodrigues
Renata Rodrigues Seguir

Médica (Clínica Médica e Endocrinologia). Capacitação em Geriatria pelo Hospital Sírio-Libanês de SP. Graduada em Filosofia pela USP. Interesse por Bioética, literatura e artes.

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