Nos últimos anos, a imunoterapia tem transformado a forma como lidamos com alguns tipos de câncer hematológico. Uma das estratégias mais revolucionárias é o uso das células T com receptor de antígeno quimérico, conhecidas como CAR-T cells. Agora, resultados de longo prazo divulgados na Journal of Clinical Oncology mostram que essa terapia pode estar abrindo caminho para falar em cura no mieloma múltiplo, uma das neoplasias hematológicas mais desafiadoras.
O estudo
O ensaio clínico acompanhou 97 pacientes com mieloma múltiplo recidivado ou refratário, tratados com ciltacabtagene autoleucel (cilta-cel) — uma CAR-T direcionada contra o antígeno BCMA, expresso na superfície das células do mieloma. Os participantes já tinham recebido uma mediana de 6 linhas anteriores de tratamento (entre 3 e 18), o que caracteriza um grupo altamente tratado e com prognóstico reservado.
Após um seguimento mediano de 61 meses (pouco mais de 5 anos), os resultados surpreenderam:
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33% dos pacientes permaneciam vivos e sem progressão da doença, sem necessidade de novas terapias.
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Desses, 12 pacientes avaliados com PET-CT e testes de doença residual mínima (MRD) foram categorizados como MRD-negativos, ou seja, não havia detecção de células malignas em alta sensibilidade (1 célula tumoral em 100.000 analisadas).
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46% dos pacientes tiveram progressão da doença dentro dos 5 anos.
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18% morreram sem sinais de progressão.
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A sobrevida global mediana foi de 60,7 meses, um marco expressivo para pacientes refratários.
Vale ressaltar que alguns pacientes que permaneceram em remissão prolongada tinham fatores de mau prognóstico, como alterações genéticas de alto risco (23%) e doença extramedular (13%), indicando que mesmo formas agressivas podem responder de forma duradoura.
Antes da infusão de CAR-T, a mediana de resposta aos últimos tratamentos recebidos por esses pacientes era de apenas 4 meses. Comparado a isso, alcançar 5 anos de remissão livre de progressão em um terço dos pacientes representa uma mudança sem precedentes na história do tratamento do mieloma.
CAR-T versus outras imunoterapias
O arsenal contra o mieloma não para de crescer. Além das CAR-T cells, já fazem parte da prática clínica os anticorpos biespecíficos, que conectam T-células ao mieloma, induzindo a morte tumoral. Os anticorpos triespecíficos, ainda em fase inicial, adicionam uma camada extra de direcionamento.
Entretanto, há diferenças importantes:
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O CAR-T é administrado em dose única (infusão), enquanto os anticorpos biespecíficos e triespecíficos exigem tratamento contínuo.
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Os dados de seguimento dos anticorpos biespecíficos chegam a no máximo 2,5 anos até agora, o que dificulta a comparação direta.
Desafios e riscos
Apesar do potencial transformador, o tratamento com CAR-T ainda apresenta limitações:
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Logística complexa e custo elevado na fabricação, com risco de falha no processo.
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Tempo de espera para a produção, que pode levar à progressão da doença em pacientes graves.
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Efeitos colaterais importantes, como a síndrome de liberação de citocinas (CRS), neurotoxicidade e, em alguns casos, eventos adversos tardios como surgimento de novos cânceres ou distúrbios cognitivos.
O futuro da CAR-T no mieloma
Estudos estão avaliando o uso do cilta-cel em linhas mais precoces de tratamento (após 1 a 3 linhas), com resultados animadores. Pesquisas em andamento também investigam sua aplicação já no diagnóstico inicial, o que pode aumentar ainda mais a taxa de respostas duradouras.
Além disso, novas estratégias estão em desenvolvimento para reduzir custos, acelerar a produção e diminuir efeitos adversos, tornando a terapia mais acessível e segura.
O trabalho representa um marco: pela primeira vez, pacientes com mieloma refratário atingem remissões de 5 anos livres de doença com apenas uma infusão de CAR-T. Embora ainda não haja consenso sobre o uso da palavra “cura”, os dados apontam que estamos diante de uma virada histórica no tratamento do mieloma múltiplo.
Referência:
Bird, S. (2025, August 19). Immunotherapy using CAR T cells shows promising long-term outcomes for people with the blood cancer myeloma. Nature. https://www.nature.com/articles/d41586-025-02592-w

