Um estudo de coorte com quase 3 milhões de participantes do programa nacional de rastreamento do câncer colorretal de Taiwan revelou dados sobre a incidência e mortalidade de cânceres colorretais de intervalo. Conduzido no contexto de um programa baseado em teste imunoquímico fecal, o estudo comparou dois tipos de câncer de intervalo: o pós teste imunoquímico fecal, que ocorre após um resultado negativo no teste, e o pós-colonoscopia, que surge após uma colonoscopia subsequente a um teste imunoquímico fecal positivo.
🟦 A tabela a seguir, ilustra os dados referentes à incidência, taxa de mortalidade e perfil demográfico dos indivíduos diagnosticados com câncer colorretal de intervalo no Programa de Rastreamento de Câncer Colorretal:
Fonte: Hsu W, Ladabaum U, Su C, et al., 2025
*Post-FIT Interval CRC: Câncer colorretal de intervalo após teste imunoquímico fecal.
* Postcolonoscopy interval CRC: Câncer colorretal de intervalo após colonoscopia.
*ADR: Taxa de Detecção de Adenomas.
Apesar do menor risco individual, o câncer colorretal pós-teste imunoquímico fecal foi responsável por 69,2% de todos os casos de câncer de intervalo devido ao grande número de pessoas submetidas ao teste inicial, evidenciando a limitação da sensibilidade deste teste. Já o câncer pós-colonoscopia apresentou maior risco individual e foi fortemente associado à qualidade do exame colonoscópico.
Principais Descobertas:
📍 Mesmo sendo menos frequentes em termos de taxa por pessoa, os casos de câncer após um teste imunoquímico fecal negativo foram numericamente superiores. Isso ocorreu porque a população exposta a este exame é muito maior do que a submetida à colonoscopia.
📍A maior surpresa do estudo foi a pior taxa de sobrevivência entre pacientes com câncer pós-colonoscopia em hospitais com alta taxa de detecção de adenomas. Este dado contradiz a expectativa de que maior qualidade da colonoscopia leve sempre a melhores desfechos. A semelhança na sobrevida entre esses casos e os de pós-teste imunoquímico fecal levanta a hipótese de que esses tumores têm biologia mais agressiva, sendo menos influenciáveis por fatores técnicos.
📍O estudo confirma que quanto maior a detecção de adenomas , menor a incidência de câncer pós-colonoscopia. Entretanto, existe um platô de desempenho, já que mesmo hospitais com detecção de adenomas elevado (acima de 50%) ainda registraram cânceres de intervalo. Nos hospitais com níveis baixo e intermediário, foram observadas 88,2% dos casos e 85,3% das mortes.
📍A maioria dos cânceres detectados após colonoscopias de alta qualidade localizava-se no cólon proximal. Nesses casos, lesões como tumores planos, lesões sésseis serrilhadas e tumores com mutações BRAF foram mais frequentes, tipos que são mais difíceis de detectar e têm progressão mais agressiva.
Recomendações Futuras:
Entre as propostas discutidas para reduzir a taxa de câncer de intervalo estão:
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Uso de teste imunoquímico fecal com duas amostras,
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Redução do valor de corte do teste,
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Intervalo de rastreamento menor (anual em vez de bienal).
Além disso, o estudo sugere que a detecção e ressecção perfeitas ainda não são suficientes: há uma necessidade de inovações tecnológicas, como inteligência artificial, endoscopia com imagem aprimorada e dispositivos de fixação distal para colonoscópios, embora ainda faltem evidências robustas de que essas estratégias reduzam a mortalidade de forma significativa.
Forças e Limitações do Estudo
Forças
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Amostra gigantesca (quase 3 milhões de pessoas).
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Base populacional com risco médio, tornando os dados aplicáveis a programas globais.
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Alto rigor metodológico com uso de registros nacionais de câncer e óbito.
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Longo período de acompanhamento.
Limitações
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Detecção de adenomas avaliado por hospital, não por endoscopista individual.
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Diferença na data de início do seguimento entre grupos (teste imunoquímico fecal vs. colonoscopia).
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Potenciais diferenças de case-mix entre hospitais.
A análise detalhada do programa de rastreamento mostra que, embora a colonoscopia e o teste imunoquímico fecal reduzam a mortalidade por câncer colorretal, ainda existem limitações importantes na detecção de lesões pré-malignas e tumores agressivos. A sobrevivência inferior em cânceres de intervalo, mesmo em cenários de colonoscopia de alta qualidade, evidencia a necessidade de novas abordagens diagnósticas, terapêuticas e políticas públicas de rastreamento mais eficazes.
Referência:
Hsu W, Ladabaum U, Su C, et al. Interval Colorectal Cancers in a Fecal Immunochemical Test–Based Screening Program. JAMA Netw Open. 2025;8(7):e2523441. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.23441

