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#Medbikini, o médico caça likes e os extremos da vaidade

#Medbikini, o médico caça likes e os extremos da vaidade

Se 2020 já não estivesse atolado em polêmicas, movimentos baseados em observações extremamente rasas e militância barata, mais uma dor de cabeça desnecessária para complementar a crise intelectual e moral que a medicina passa, a polêmica do #medbikini.

A polêmica em resumo se baseia numa publicação científica que associava a médicas que colocavam em redes sociais fotos usando biquíni tinham a credibilidade e a qualidade de serviço diminuídos.

As críticas vieram de todos os lados, primeiramente como um estudo desse tipo foi publicada em uma revista de relativa relevância e como a mesma passou por um corpo editorial, científico e ético para ver a luz do dia.

Depois uma segunda polêmica foi a observação de que todo o corpo que publicou e aprovou o artigo era do sexo masculino.

Isso, logicamente, gerou uma polêmica em vários pontos corretos como que se como um médico em seu tempo livre faz como individuo interferisse em sua qualidade profissional e errados como a promoção de uma misandria velada promovida pela superficialidade intelectual dos críticos da internet e os analistas de redes sociais.

Se observarmos o status quo de antigamente, médicos em seu tempo livre tinham atividades e características repudiáveis, mas trouxeram inovações na ciência médica (em várias interpretações isso é extremamente polêmico e realmente vale um artigo.)

E muitos médicos que tinham a figura de ser "o defensor da moral e dos costumes" não trouxeram progresso e utilizou sua credibilidade de médico para fazer coisas indignas à um ser humano.

A situação real é que o buraco é muito mais embaixo do que se imagina e vai muito além do conceito de sexismo (como a internet em geral anda pregando) e sim do conceito de vaidade.

Para entender a história como um todo, temos que entender a história do biquini, o conceito de puritanismo, o médico digital influencer e o estigma da vaidade.

Uma das maiores polêmicas da moda nos anos 40 era de um traje de praia criado por estilistas franceses que na época colocaram o nome do local onde se realizava os testes atômicos no oceano pacífico, seu nome foi tão chocante e seu design tão inovador que até hoje as mulheres usam: o biquíni.

A peça de banho virou referência cultural no ocidente em vestimenta, música, cinema, em promoção às sex simbol, a cultura pin up e um protesto contra uma sociedade sexista e puritana.

Porém, em uma sociedade conservadora o mesmo causou reações de repudio até mesmo de proibição, em muitos países foi proibido (inclusive na França), muitas mulheres foram mal vistas por usar o adereço ou até mesmo fotos icônicas causaram polêmica e que hoje passaria batido.

Até hoje países que se baseiam em um código moral deturpado como o Irã, Afeganistão, Arabia saudita proíbem o biquíni por lei sendo havendo castigos bárbaros como chibatas e apedrejamentos.

Em conjunto desse repudio e essas reações exacerbadas acende-se o conceito de puritanismo.

O puritanismo não é somente classificar como “feio aos olhos de Deus”, mas classificar, castrar, inibir e repudiar como “impróprio”, “proibido por ser imoral” e “abominável” também podem ser tipificados como puritanismo.

Dois exemplos: Existe uma comunidade no interior dos Estados Unidos chamados Amish que abominam a tecnologia, normas sociais a nível de não utilizarem energia elétrica porque os mesmos consideram as inovações tecnológicas “pragas demoníacas”, na mitologia grega existia uma sociedade que enxergava a existência de um objeto do sexo masculino como abominável, as amazonas.

Logicamente o puritanismo em todo não é o conceito ruim, parte de nossas normas sociais, leis e ética vem de um principio puritano de respeito ao individuo e à civilidade.

Os médicos mais antigos tinham uma natureza extremamente puritana, uma figura criada pela elite da época em sua maioria, que sabia o funcionamento do corpo humano, podia tocar em que é doente saindo ileso, curava, poderia caminhar por todas as camadas sociais sem problemas e ainda se vestia de branco era uma observação praticamente divina pela sociedade e pelo próprio.

Para manter esse status quo mantiveram o conceito de forma coletiva, era um segundo juramento velado que o médico deveria “ter uma postura e normas de conduta”.

Descobrir que um médico era homossexual, não tinha uma opinião parecida com a maioria dos superiores, posição política, religiosa, tinha problemas com drogas ou até mesmo tinha algum problema mental era uma sentença de morte social para ele.

Mulheres médicas eram proibidas de fazer medicina ou eram subjugadas e deixadas em segundo plano sendo até descredibilizadas somente por serem mulheres. Melanie Klein, ex acadêmica de medicina foi ridicularizada pela sociedade de psicanalise de sua época pela ala conservadora de sua sociedade.

Negros então temos o ocultamento de nomes da historia da medicina o caso de Vivien thomas na cirurgia de Bablock(que virou filme em Semi-Deuses), Hamilton naki, membro da equipe do primeiro caso de transplante de cardíaco humano bem sucedido sendo não reconhecido em uma Africa do Sul assombrada pelo apartheid.

Halsted (o mesmo da técnica cirúrgica) caiu em desgraça por causa da cocaína.

Semmelweiss acabou sua vida num manicômio em total descrédito por ter insistido contra a sociedade médica com dados consistentes por dizer que lavar as mãos “poderia” diminuir a febre puerperal.

Freud foi expulso da Europa continental no holocausto, alem do caso a parte visto que suas postulações sobre hipnose, o complexo de édipo e seu vício em cocaína eram observadas pela sociedade médicas como o ápice da degeneração por um puritanismo impróprio.

Um dos motivos de existir clubes de campo por associações médicas se observarmos era para manter a discrição e a austeridade enquanto o médico poderia usufruir de prazeres mundanos sem os olhares críticos da sociedade.

Até hoje vemos como o puritanismo médico persiste no nosso meio tanto nos médicos mais velhos como no jovem médico.

Existe ainda a figura do médico velho e não estou falando do médico mais experiente e sábio, estou falando o que na figura de médico se manteve atrasado aos conceitos sociais cientificamente comprovados.

E temos a figura do médico da nova geração que a inexperiência e o conhecimento raso e distorcido sobre a sociedade o transforma em alguém que tem o ponto de vista de que tudo o que é repudiável pela sociedade “moderna” entra na infame “cultura de cancelamento.

O fato é que a questão do #medbikini foi o estopim de mais um monte de questões morais que os médicos varreram para debaixo do tapete.

Uma questão foi do médico digital influencer caça likes, o que usa sua figura divulgando sua vida pessoal , aparência, trabalho de forma frenética e vaidosa assim ganhar likes de redes sociais e “clientes”. Geralmente estes tem a capacidade de influência oposta à competência acadêmica.

Isso provavelmente veio de um analista de redes sociais que ofereceu um marketing médico de gosto duvidoso (cobrando até caro por isso) ou por uma pessoa que tem questões de autoestima\formação inadequadamente resolvidos e resolveu colocar suas fotos de observações rasas e resultados duvidosos (muitas vezes corretamente proibidíssimos pelo código de ética médica) de suas condutas para se satisfazer.

Outra questão foi a reação que isso gerou, já dito acima foi a divulgação científica de conclusões que vão contra a obviedade, a imposição normas e as inúmeras interpretações errôneas que vieram junto.

Como se o médico fosse um “operário da saúde” cuja única função é trabalhar e ironicamente o #medbikini fosse mesmo cientificamente comprovado.

Dois opostos de atos que são um verdadeiro atraso na medicina e revela ou adoece mentalmente o médico inclusive.

A vaidade é uma parte do comportamento humano, sendo um dos fatores da evolução ser humano como indivíduo e sociedade.

A estética auxilia o desenvolvimento humano estimulando a competição e a perpetuação da espécie como um fator da sexualidade e do comportamento social saudável.

Um ser humano que não tem vaidade ou a tem em excesso (conhecida como narcisismo) podem até ser indicativos de doença mental.

Em falta pode indicar sintoma como a depressão ou um sintoma negativo na esquizofrenia ou o narcisismo como no transtorno borderline, histriônico e anti social.

Até mesmo promover o narcisismo ou a falta de estética são sinais; como podemos ver nos pais abusivos que promovem os filhos como estrelas(como o pai do Michael Jackson tratava a ele e seus irmãos do Jackson Five, reality shows como a mãe da Honey Boo Boo etc.) ou até mesmo a falta(visto os inúmeros casos de serial killers que tinham pais puritanos e pessoas que tem problemas de desenvolvimento da personalidade ligados a castração)

Médicos  e suas páginas em redes sociais sempre vão existir e alias vindo de meu senso crítico acho muitas delas narcisistas, excessivamente genéricas e demonstram uma incrível autopromoção (o que é em teoria é proibido pelo CFM).

Porem nem tudo é caça likes e "digital influencer", eu sigo paginas de professores e educativas de medicina, divulgo e tenho o prazer de compartilhar como pessoa e médico.

Bem usada, médicos em redes sociais podem ser uma poderosa ferramenta educacional, divulgação de um bom serviço em uma população que tem uma cultura em saúde muito pobre.

E não devemos ter a severidade de tratar um médico caça likes como um pária por isso. Primeiro por ser um ponto de vista pessoal meu como mencionei no artigo. Segundo que como indicativo de que falta senso crítico ao médico deve se observar a razão disso ocorrer e corrigir adequadamente essa cultura.

É inadequado criar burocracias burláveis com uma educação puramente punitiva, assustadora ou castradora e mais importante porque se realmente for um sinal de doença mental, o mesmo deve ser escutado, tratado e  analisado.

Medidas coletivas são mais baratas, confortáveis e eficazes que medidas individuais.

O #medbikini não é só sexismo( como querem até divulgar a cultura de médico caça likes), é a observação de marketing preguiçoso em rede social, um falso moralismo sobre uma sociedade perdida e doente.

A velha frase da medicina se aplica à rede social mais moderna:

"A fool with a tool is still a fool"

Nota: Essa publicação não tem o objetivo de mencionar nomes, pessoas atualmente ou instituições ( tanto que não menciono propositalmente os mesmos) porque o objetivo é uma análise sobre um problema maior que se imagina .

De referência  deixo a a polemica cartilha e normas do CFM sobre publicidade médica

https://portal.cfm.org.br/publicidademedica/arquivos/cfm1974_11.pdf

E sobre a origem da med bikini

https://www.prevention.com/life/a33470033/medbikini-sexist-study-journal-vascular-surgery/

 


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Henri Hajime Sato
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Médico, formado em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos, curioso local e sempre existe alguma coisa errada no reino da Dinamarca.

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