Médicos serão substituidos por robôs?
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Médicos serão substituidos por robôs?

Médicos serão substituidos por robôs?

por Doc. Diógenes Silva.

Publicado primeiro no Linkedin do Autor, que autorizou a reprodução.

Em meados da década de 90, na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Santa Maria, eu me via chamado a encarar questionamentos embaraçosos dos meus colegas de curso, como os que perguntavam por quê eu me tornara monitor logo de bioestatística, por quê gostava de tanto de epidemiologia; ou, por quê eu precisava de um endereço de e-mail que me custara a obrigatoriedade de três cartas de indicação e justificativa, de três orientadores de projetos diferentes, para que o Centro de Processamento de Dados da UFSM configurasse no supercomputador – o equivalente a um Pentium 100 MHz refrigerado a água que para a época era um colosso - um endereço eletrônico para mim.

Ninguém entendia por quê um aluno de medicina precisava de um e-mail. Depois de algum tempo e insistência eu fui certamente um dos primeiros acadêmicos de medicina do país com autorização para possuir um endereço eletrônico, que era diogenes@saigon.ufsm.br.

Foi nesse background que de repente surge com força uma outra mais insistente e desconcertante pergunta: Por quê você não abandona o curso de medicina e vai fazer informática? Nesse caso, minha resposta sempre foi a mesma:

Porque um dia não conseguiremos separar uma coisa da outra.

Atualmente gerações de médicos em plena atividade no mercado de trabalho, desconhecem por completo o conceito da lógica Booleana, mesmo que ela esteja na base de toda a tecnologia da informação que os circundam nos incontáveis equipamentos e plataformas que utilizamos para apoio ao diagnóstico, prevenção e tratamento. A presença da tecnologia da informação cresce exponencialmente desde que foi introduzida na medicina; hoje o crescimento de uma confunde-se com o da outra e o mundo todo sabe que a tecnologia da informação é o motor de uma revolução na saúde puxada por inovações de todos os tipos.

George Boole (1815-1864)

Recentemente, Geoffrey Hinton, cientista da tecnologia da informação, e tataraneto de George Boole - o autor da Função Booleana – fala explicitamente que na área de diagnóstico por imagens deveríamos parar imediatamente de treinar médicos para serem radiologistas, sob o risco de formarmos uma legião de especialistas obsoletos, pois o diagnóstico por imagens em breve será totalmente feito por computadores.

A capacidade crescente da máquina de analisar imagens pixel-a-pixel, coletar dados, processá-los em tempo real, aprender com falsos positivos e refinar o próximo resultado formam um substrato para que a esta se mostre mais efetiva; e na dermatologia – citando outro exemplo - diagnósticos de malignidade por imagens foram feitos 6% com mais precisão por computadores do que por especialistas da área.

Nós não estamos mais falando apenas de informatização do setor ou armazenamento de dados em prontuários eletrônicos. Estamos nos embrenhando na era da análise e aprendizado com os dados, e nos deparando com novas exigências como qualidade dos dados, portabilidade e interoperacionalidade. Com as informações dos pacientes melhor armazenadas, em maior volume e detalhes, e com capacidade de serem analisáveis em tempo real, a antiga função Booleana de mais de 150 anos serve de combustível para processadores de alta capacidade rodarem modelos estatísticos complexos e compará-los com inúmeros cenários. O modelo desses inputs e análises é o que apelidamos de ‘algoritmo’.

A capacidade de analisar e aprender na mesma velocidade, e assim continuamente colaborar para a melhoria do próprio algoritmo, é um dos pontos críticos da Inteligência Artificial. Alguns visionários de peso já começam a falar de uma “espécie de intuição das máquinas” que parece tornar forma no horizonte imaginativo deles.

Fiat lux! A ciência acredita que este seja um caminho para a próxima era, a pós-era dos dados e análise, uma era de resultados melhores e mais sustentáveis, a era da abundância. É o começo desse caminho que estamos vivendo nesse momento.

Essa imagem de futuro ilustra um processo evolutivo de toda a nossa cultura, não só com nossas ideias e startups mirabolantes, mas como resultado de nossos desejos, nosso consumo, nossas necessidades do dia-a-dia e prioridades.

Partimos então nova pergunta que desperta diferentes sentimentos entre as pessoas: algumas ficam curiosas, outras são fatalistas e desanimadas e há algumas que demonstram uma sincera esperança. Todas elas estão perguntando-se:

Robôs substituirão médicos no futuro?

A resposta atual é sim e não. O que me arrisco a prever é que seremos médicos diferentes, com habilidades diferentes e de posse de novas ferramentas que nos expandam a capacidade cognitiva, e isso é bom. É bom porque impacta em grande escala na saúde de nossos pacientes e esse movimento inovador tem nas suas raízes o paciente como centro do processo em uma experiência cuidadosamente trabalhada para ser a melhor e mais eficaz possível.

Livro do Médico Futurista Bertalan Mesko, de 2016, que busca mostrar os caminhos para o futuro da medicina. Outro must read para quem quer embarcar na revolução da informação

E é nesse ponto específico que assistiremos nossa maior evolução profissional. Todo esse apoio para registro, análise e aprendizado desafiará o novo médico a prestar mais atenção ao paciente, escutá-lo mais, tocá-lo mais, enxergá-lo mais. Valoriza-se ainda mais a máxima que diz que ‘o verbo é o comprimido da alma’; e em parte pela necessidade da inteligência artificial de captar cada vez mais dados, em parte pelo maior tempo disponível e busca de melhor performance, vamos acabar nos conectando mais intensamente com nossos pacientes.

Dra. Michelle Barros Anestesiologista Aracajú - SE

Estudos recentes mostram que médicos perdem duas horas por dia preenchendo prontuários eletrônicos e em uma consulta clínica, utilizam apenas 27% do tempo para ficar face-a-face com seu paciente. Na minha especialidade, anestesiologistas gastam 40% do tempo transoperatório preenchendo o registro de anestesia competindo com a atenção ao paciente. A melhoria do fluxo de trabalho, o empoderamento cognitivo do profissional e a tecnologia disponível permitirão que nós exercitemos características nativas do ser um humano que a máquina terá mais dificuldade em aprender, como o poder da conexão no relacionamento médico-paciente.

Qualquer um que tenha prestado cuidados olhando nos olhos de seu paciente sabe do que estou falando. O surpreendente é que nós falamos em preconizar a humanização do atendimento há décadas, e isso só se tornará realidade plena porque será a única área onde ainda seremos especialistas imbatíveis. Como humanos que somos, acabaremos fazendo a coisa certa, mas porque seremos 'empurrados' a fazê-la por uma nova realidade.

Uma melhor experiência do usuário, apoio técnico de inteligência artificial e maior proximidade com seus pacientes. Esse é um empolgante quadro da medicina do futuro nem tão distante assim. Teremos que estar prontos para nos acostumar com um novo colega de trabalho, talvez não na forma humanóide como na imagem que abre esse artigo, mas sempre presente.

Hoje em dia colegas perguntam quando vou parar de ser médico ou fazer anestesias para dedicar-me à inovação. Eu continuo respondendo: Um dia não vai dar para separar uma coisa da outra. Lá se vão vinte anos falando a mesma coisa.

Por fim, sejam bem-vindos, colegas, a um admirável mundo novo.

Nota do Autor: O artigo foi escrito inicialmente direcionado a mostrar um panorama da questão para colegas médicos, mas qualquer profissional de saúde pode se reconhecer no texto. O formato foi mantido para preservar o impacto original.

Doc. Diógenes Silva é Anestesiologista em Florianópolis. Ao criar sua empresa Anestech Innovation Rising, ele propõe uma análise de dadoss no perioperatório em tempo real, coorelacionando as ações do anestesista com a literatura e atividade de outros anestésios linkados à plataforma. A medicina baseada em real life data, feita por um brasileiro inovador em uma empresa de futuro brilhante!

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