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Médicos startupeiros e a sereia do empreendedorismo

Médicos startupeiros e a sereia do empreendedorismo

Em março desse ano, uma notícia me assustou.

Nessa notícia, o professor Giovanni Cerri do Instituto de Radiologia (InRad) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) é entrevistado e, em uma de suas falas, diz que 30% dos seus estudantes não querem ser médicos, mas sim empreendedores e fundadores de startups.

Mais do que discutirmos sobre a veracidade do valor informado, é válido entendermos o que está por trás desses 30% e como essa geração de "médicos startupeiros" (médicos com perfil empreendedor diferente dos médicos empreendedores do passado) é atraída pela sereia do empreendedorismo fácil.

 

A mudança de mentalidade

Com a evolução das tecnologias e o aumento da disponibilidade de informação, todos podemos estudar qualquer tópico que desejarmos, e com qualidade. Basta criar uma conta em uma rede social, começar a seguir os perfis dos melhores profissionais de diferentes segmentos de mercado e você terá, nas suas mãos, as melhores indicações de livros, vídeos e cursos a serem devorados.

Somando-se a isso a abertura desenfreada de faculdades privadas de medicina por todo o país, o aumento da competitividade do mercado de trabalho e a mudança de postura dos pacientes (reflexo da evolução dos padrões de consumo e comportamento da sociedade), os médicos recém-formados sentem a necessidade de se diferenciar.

Dependendo da especialidade ou área de atuação desejadas, cursar uma boa graduação e uma boa residência já não bastam mais. Afinal, a publicidade (seja na sua forma digital - propagandas em redes sociais, ou na sua forma analógica - o "boca-a-boca") pode impactar mais na lotação de um consultório do que certificados pendurados na parede. E ninguém quer ficar de fora.

Assim, estudantes de medicina que almejam o sucesso (independentemente do que "sucesso" signifique para cada um) já buscam, antecipadamente, durante a própria graduação, entender as ferramentas disponíveis para, no futuro, desenvolverem soluções próprias que garantam essa diferenciação no mercado.

Pronto. Nasce aí um entendimento básico de como se colocar no mercado, algo fundamental para quem empreende.

O canto da sereia começa a ser ouvido, como um cochicho.

Em seguida, com a vivência prática da medicina na graduação, muitos desses alunos começam a enxergar múltiplas falhas em serviços e processos.

Alguns começam, então, a imaginar como solucionar problemas (e se tem algo que médico ou estudante de medicina gosta é problema a ser resolvido). Depois de formularem hipóteses para solucionar os problemas identificados, esses estudantes não conseguem testar suas ideias na prática e, com isso, sentem-se frustrados.

O canto da sereia fica mais intenso.

Por fim, uma parcela ainda menor desses "projetos de empreendedores" não consegue se enxergar atuando no modelo assistencialista vigente rodeado de falhas, alegando um dos motivos: falta de reconhecimento, carga horária de trabalho excessiva, baixa qualidade de vida, impacto na sua saúde mental, entre muitos outros.

O canto da sereia finalmente é ouvido com clareza. Os que o escutam são atraídos para o fundo do mar do empreendedorismo fácil.

Seduzidos, abrem mão de tudo que conquistaram até o momento e se lançam a navegar num novo cenário, um mar totalmente desconhecido.

 

O médico startupeiro

Antes de continuarmos, preciso abrir um parêntesis e definir a quem me refiro quando utilizo o termo "médico startupeiro".

O "médico startupeiro", personagem central desse texto, não é simplesmente qualquer médico que está a frente de uma startup, mas sim aqueles médicos recém-formados e aventureiros do mundo dos negócios sem nenhuma capacitação ou experiência prévia. Aquele profissional recém-formado que acha que a rotina da medicina é inviável e que, por isso, quer construir um negócio valioso do dia para a noite que gere receita suficiente para que ele não precise mais atender seus pacientes ou se submeter à "tirania" de preceptores de residências médicas ou clínicas e hospitais.

É o tipo de pessoa que segue perfis de empreendedorismo no Instagram e, por "curtir" tudo o que é postado por esses perfis, se sente apto a se aventurar no universo dos negócios.

Entendeu a ideia? Sigamos, então.

 

A sereia do empreendedorismo fácil

A sereia obtém êxito. Alguns alunos ou médicos recém-formados se põem a nadar em direção ao seu canto, mesmo que seja dentro de um mar desconhecido.


Na última quinzena, em uma reunião de uma rede de formação de líderes de medicina, a Kanun, um dos membros, o dr. Paulo Miranda Filho, médico com perfil empreendedor de fato, nos contou sobre sua trajetória profissional, desde seus primeiros trabalhos à frente da atlética de sua faculdade até o MBA que fez  em gestão de negócios e o desenvolvimento de sua empresa, a Asklépio.

A fala de Paulo foi fantástica e nos alertou para o poder do canto da sereia do empreendedorismo fácil, a mesma que conquista, cada dia mais, alunos de medicina.

Em resumo, ele nos mostrou, com relatos pessoais, que: "empreendedorismo é 99% transpiração e 1% inspiração". Disse, ainda, que antes de empreendermos precisamos gostar de verdade disso, porque não é uma jornada fácil e não é pra qualquer aventureiro, pois requere trabalho duro e dedicação intensa.

Aqui já vemos um dos conflitos dos "médicos startupeiros". Eles acham, ao contrário de Paulo, que empreender é fácil e que, por isso, desenvolver um negócio constitui uma alternativa muito cômoda ao exercício da medicina.

Pobres coitados.

Alguns dias mais tarde, em reunião semanal para definição de pautas da AlphaSquad, contamos com a presença ilustre da dra. Ana Panigassi que hoje mora em Dublin, na Irlanda, e que busca experiências profissionais novas.

Dra. Ana nos mostrou situações que comprovam que empreender não é fácil, mesmo em um cenário diferente do encontrado no Brasil e mais apto ao desenvolvimento de novos negócios.

Ela ainda reforçou a importância do trabalho duro, da mesma forma que Paulo havia me dito anteriormente.

 

"Aqui é trabalho, meu filho!"

Como qualquer outra área de atuação, empreender requere domínio de muitas técnicas e que, por serem tantas, não ouso tentar citá-las neste breve artigo.

Por que para operar um paciente os cirurgiões passam anos e anos estudando, se testando, se aprimorando e se submetendo a horas e horas de plantões, mas para empreender (e colocar investimentos em risco) os médicos startupeiros acreditam que a mera vontade basta para ter sucesso?

Não faz sentido algum!

Para chegar ao topo, é preciso vivenciar a base e ultrapassar pouco a pouco as barreiras que se colocam no trajeto.

Se quiser empreender, vá em frente. Minha intenção não é desencorajar ninguém a empreender, afinal eu mesmo também estou a frente de uma startup com outros sócios.

Mas antes de empreender, coloque a cabeça no lugar e não seja um aventureiro, alguém que não busca qualificação antes de dar o primeiro passo. Se possível, cerque-se de pessoas melhores que você para que você aprenda e se desenvolva cada vez mais.

Não se torne mais um médico ou médica que surfa na onda das notícias e de posts de blogueiros.

Trabalhe duro para atingir o sucesso. Não se deixe seduzir pelo canto da sereia.

Academia Médica
Eduardo Pavarino
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Eduardo Pavarino é bacharel em Ciência da Computação pela UNESP e graduando em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). Além disso, é Co-fundador da Hackmed Conference & Health Hackathon e escritor do Alpha Squad da Academia.

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