A neuropatia periférica, uma das condições neurológicas mais comuns na prática clínica, foi tema de uma recente entrevista da JAMA Clinical Reviews com a neurologista Michelle Mauermann, professora e chefe da Divisão Neuromuscular da Mayo Clinic. A discussão integra o conteúdo de sua revisão publicada na JAMA sobre o estado atual do conhecimento em diagnóstico, etiologia e manejo dessa condição.
Segundo Mauermann, neuropatia periférica é definida como qualquer dano aos nervos periféricos, geralmente manifestando-se por perda sensorial, fraqueza motora ou sintomas autonômicos. O comprometimento estrutural pode ocorrer por degeneração axonal, morte neuronal, hiperexcitabilidade ou disfunção das células de Schwann, responsáveis pela mielinização e suporte dos axônios.
Por que é tão relevante?
A condição afeta até 1% dos adultos e figura entre os principais motivos de consulta neurológica. Seu impacto clínico é amplo: desequilíbrio, quedas, úlceras nos pés e limitação funcional são consequências frequentes, sobretudo em casos crônicos.
Principais causas e fatores de risco
O diabetes é a causa mais comum de neuropatia periférica em todo o mundo. Outros fatores relevantes incluem:
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deficiência de vitamina B12,
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uso de medicamentos neurotóxicos,
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consumo excessivo de álcool,
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neuropatias hereditárias,
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presença de gamopatia monoclonal.
O padrão mais comum: neuropatia periférica dependente do comprimento
O subtipo mais prevalente é a neuropatia length-dependent, na qual os sintomas surgem inicialmente nos pés, devido ao maior comprimento dos axônios envolvidos. Formigamentos, queimação, hipersensibilidade e perda de sensibilidade são manifestações iniciais típicas. À medida que progride, pode atingir as mãos após alcançar o nível dos joelhos.
Sintomas e exame físico
Os sintomas sensoriais predominam, especialmente o formigamento, sensação de frio, dor ou perda de percepção dos pés, muitas vezes acompanhados de instabilidade ao andar — pior em ambientes escuros.
O exame físico, quando bem conduzido, é altamente sensível. Deve incluir:
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avaliação de força distal (mãos e tornozelos),
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pesquisa de reflexos, especialmente aquileu,
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teste de vibração e propriocepção com diapasão,
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avaliação de dor e temperatura.
A combinação de sintomas e sinais aumenta a acurácia diagnóstica.
Quando pedir eletroneuromiografia?
Os estudos eletrodiagnósticos ajudam a confirmar neuropatia e a diferenciar outras condições que simulam o quadro, como radiculopatia lombar ou mielopatia cervical. Além disso, fornecem dados sobre o tipo de lesão — axonal ou desmielinizante — informação crucial para guiar o diagnóstico etiológico.
Exames laboratoriais recomendados
De acordo com a Academia Americana de Neurologia, devem ser solicitados:
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glicemia (jejum, HbA1c ou TOTG),
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vitamina B12 com ácido metilmalônico (e possivelmente homocisteína),
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eletroforese de proteínas séricas com imunofixação.
Neuropatia em pré-diabetes
Embora controverso, o pré-diabetes pode associar-se especialmente à neuropatia de fibras pequenas, caracterizada por dor e alteração térmica. Contudo, a gravidade e duração da hiperglicemia seguem sendo determinantes na progressão da neuropatia diabética.
A neuropatia é reversível?
Depende da causa. Mauermann explica que, uma vez removido o fator desencadeante, os nervos podem regenerar-se a uma velocidade de 1 a 3 mm por dia. No entanto, em muitos casos permanece dano residual de longo prazo.
Tratamento: abordagem escalonada
O manejo depende da intensidade dos sintomas. Para quadros leves e restritos aos pés, Mauermann recomenda iniciar com medidas conservadoras:
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imersão dos pés em água fria,
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uso de cremes ou géis tópicos (lidocaína, capsaicina),
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formulações tópicas manipuladas com fármacos como gabapentina ou amitriptilina.
Caso não haja melhora suficiente, definida como redução de aproximadamente 50% da dor, iniciam-se os tratamentos orais de primeira linha:
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gabapentina ou pregabalina,
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antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina),
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inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (duloxetina, venlafaxina).
A escolha depende do perfil de efeitos colaterais, comorbidades e momento do dia em que os sintomas são mais intensos. Mauermann enfatiza que muitos pacientes abandonam o tratamento antes de atingir doses terapêuticas adequadas, o que compromete a eficácia.
Para sintomas refratários, a estimulação da medula espinhal pode ser considerada.
Cuidado além dos medicamentos
A neurologista destaca que a prevenção de complicações é essencial: treinamento de equilíbrio e marcha para evitar quedas, uso de órteses quando indicado, e inspeção diária dos pés para prevenir úlceras são medidas indispensáveis.
Referência:
Mauermann, M. (2025, May ??). Diagnosis and treatment of peripheral neuropathy [Audio podcast episode]. In M. McDermott (Host), JAMA Clinical Reviews. JAMA Network. https://edhub.ama-assn.org/jn-learning/audio-player/19018458

