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"Novembro Azul, azul novembro"

A campanha do Novembro Azul ou “Movember” como é conhecido fora do país, em referência às palavras em inglês Man (homem), November (novembro) e Mustache (bigode), diz respeito ao movimento iniciado em 2003 na Austrália que visa chamar a atenção da sociedade para a saúde do homem, através da divulgação de informações sobre doenças prevalentes ou exclusivas dos homens, além da organização de eventos visando arrecadar fundos para instituições de tratamento de doenças masculinas, em especial o câncer de próstata, devido ser o tipo mais frequente de câncer nos homens e ainda hoje causar inúmeras mortes (1).

Conforme o movimento se difundiu, entretanto, houve uma divulgação inadequada dos seus objetivos, que vão muito além do câncer de próstata. E justamente por ser um assunto polêmico, o rastreio de pacientes para o diagnóstico precoce do câncer de próstata não é apoiado por várias instituições de grande porte como o Ministério da Saúde, o INCA (Instituto Nacional do Câncer) e outros. 

A lógica de se fazer uma pesquisa por câncer de próstata em homens que não sentem nada, baseia-se na diferença de sobrevida em 5 anos entre pacientes com doença apenas localizada (100% vivos ao término desse período) e doença metastática (apenas 31% vivos). (1-4) 

Porém, na análise de estudos referentes a esse tema os resultados variam. Com o screening, o número de casos de câncer de próstata aumenta, mas muitos desses novos casos tem baixa agressividade, e velocidade de crescimento tão lenta que mesmo após 10 anos do diagnóstico ainda não terão causado nenhum problema para a saúde. A isto chamamos de "overdiagnosis" ou diagnóstico excessivo. O número de casos em estado mais inicial, também aumenta com o screening, levando a uma redução de 30% no risco de doença metastática (6).

O processo de diagnóstico, após uma alteração no screening (como PSA aumentado, ou toque retal alterado) leva à investigação através principalmente da biópsia da próstata, procedimento com 2% de complicações, que vão desde sangramentos a infecções.

Uma vez confirmada a presença do câncer, o próximo passo será decidir se tem indicação de tratamento e qual seria (cirurgia ou radioterapia). Aqui o aumento de complicações se eleva bastante, 1 em cada 5 homens tratados com cirurgia desenvolverão incontinência urinária e 2 em cada 3 desenvolverão disfunção erétil. Ainda há o fator emocional, desde o resultado de exame alterado, até a confirmação ou não de um câncer. 

Em 2018, a US Preventive Service Task Force, que é um painel independente de experts americanos, publicou uma recomendação baseada na análise de riscos e benefícios de grandes estudos relacionados ao tema, demonstrando que os pequenos benefícios seriam encontrados apenas em pacientes entre 55 e 69 anos de idade. Além disso, recomendam também que a decisão de fazer ou não o screening deve ser sempre do paciente, após ser orientado sobre os riscos e benefícios. Sites de revisão sistemática, como o Cochrane (www.cochrane.org), e de conteúdo científico, como o Uptodate (www.uptodate.com), possuem posição semelhante, orientando sempre o diálogo e a decisão baseada na vontade do paciente. 

A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) orienta o acompanhamento com urologista a partir dos 50 anos de idade, para a população em geral, e dos 45 anos para paciente negros, obesos e com histórico familiar de câncer de próstata em parente de 1º grau, sendo contra-indicado o screening em paciente acima dos 75 anos (7). Assim como questiona os resultados apresentados pela US Preventive Service Task Force e sinaliza para o risco de aumento na detecção de casos de doença mais avançada. 

No contexto brasileiro, entretanto, alguns pontos não avaliados nos estudos internacionais devem ser levados em consideração. A dificuldade de acesso ao profissional de saúde capacitado tanto para avaliar o risco de câncer de próstata, quanto orientar adequadamente sobre os riscos e benefícios do exame. Bem como a demora no sistema público de saúde para o acesso ao diagnóstico, que requer a biópsia, bem como acesso ao tratamento adequado. Apesar da lei nº 12.732/12 que determina o início do tratamento de câncer em no máximo 60 dias, sabemos que as filas de espera podem facilmente superar esse prazo. 

Esses são alguns dos aspectos que sinalizam para a necessidade de individualização tanto de cada paciente, como dos protocolos a serem utilizados no Brasil. Como orientação geral, fica a necessidade de acompanhamento constante com um médico seja de família e comunidade, clínico geral ou urologista, de confiança, além da implementação de medidas preventivas como a prática de atividade física regular, não fumar, não beber e fazer uma alimentação equilibrada. E que novembro azul é muito mais do que apenas dosar o PSA, principalmente pois muito mais do que câncer, a população masculina ainda morre muito por problemas cardiovasculares, causas externas (acidentes, violência) e suicídio. Precisamos falar sobre a saúde do homem como um todo. 


Referências

  1. https://us.movember.com/about/history acesso em 08/11/19 às 14:29.

  2. Bell KJ, Del Mar C, Wright G, et al. Prevalence of incidental prostate cancer: A systematic review of autopsy studies. Int J Cancer 2015; 137:1749.

  3. Breslow N, Chan CW, Dhom G, et al. Latent carcinoma of prostate at autopsy in seven areas. The International Agency for Research on Cancer, Lyons, France. Int J Cancer 1977; 20:680.

  4. Sakr WA, Grignon DJ, Haas GP, et al. Age and racial distribution of prostatic intraepithelial neoplasia. Eur Urol 1996; 30:138.

  5. Haas GP, Sakr WA. Epidemiology of prostate cancer. CA Cancer J Clin 1997; 47:273.

  6. Schröder FH, Hugosson J, Carlsson S, et al. Screening for prostate cancer decreases the risk of developing metastatic disease: findings from the European Randomized Study of Screening for Prostate Cancer (ERSPC). Eur Urol 2012; 62:745.

  7. https://portaldaurologia.org.br/medicos/destaque-sbu/nota-oficial-2018-rastreamento-do-cancer-de-prostata/ acesso em 11/11/2019 às 19:34

Academia Médica
Naiara Costa Balderramas
Naiara Costa Balderramas Seguir

Médica formada pela UFPA, com Residência em Clínica Médica no HUJBB/PA e Oncologia Clínica no HUB/DF. Pós-graduação em Cuidados Paliativos na Casa do Cuidar/SP. Interessada em qualidade de vida, qualidade de fim de vida e literatura.

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