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O ataque ao feminino à luz da Psicanálise

O ataque ao feminino à luz da Psicanálise

Não sou um especialista em Psicanálise, entretanto, apesar de algumas críticas que tenho ao que conheço da área, não ouso negar as contribuições que o modelo mental proposto por Freud e seus colaboradores trouxeram ao estudo da mente. Estamos falando de mais de 100 anos atrás, quando nem sonhávamos em ter as tecnologias de imagem e de acesso ao cérebro que temos atualmente. Sabendo das dificuldades que existem em se desenvolver um modelo sem muitas informações disponíveis, o mínimo esperado por mim é tirar o chapéu a Freud e dizer "bravo!"

Postas as minhas limitações de aprofundamento na teoria psicanalítica, recentemente participei de uma discussão sobre feminicídio que fez muito sentido para mim, de modo que achei pertinente compartilhar essa reflexão no considerado Mês da Mulher. Embora em um primeiro momento pareça que estamos falando apenas sobre a violência contra a mulher, contra o gênero, na verdade a análise feita aqui diz respeito ao ataque contra o feminino. Acredito que isso ficará claro ao longo do texto.

Cerca de treze mulheres são assassinadas no Brasil diariamente, além de sofrerem outras formas de violência [1]. Além disso, entre 2008 e 2018, houve um aumento de aproximadamente 4,2% nos casos de homicídios contra a mulher, colocando o Brasil no 5º lugar entre os países em que mais se matam mulheres [23]. Isso sem contar outros casos de violência e suas consequências...

De acordo com avaliação de pesquisadores do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina, das mulheres vítimas de violência doméstica que foram encaminhadas pela 1ª Delegacia de Defesa da Mulher, 76% foram diagnosticadas com transtorno de estresse pós-traumático, 89% com depressão e 94% com transtorno de ansiedade [3].

A questão da violência contra a mulher ultrapassa o tempo e as culturas, o que torna interessante delinear os fundamentos e os impactos sociais por trás desse comportamento. Tal análise pode ser feita a partir do referencial simbólico e teórico trazido por Freud, por meio da Psicanálise.

Primeiramente, é importante entender o quanto a sexualidade é fundamental para a Psicanálise, não sendo restrita à questão genital, mas a tudo aquilo que é relativo à pulsão. Freud caracteriza como pulsão a canalização da energia sexual humana, sendo essa diferente da dos animais, que é instintiva. Como a sexualidade humana é uma força constante (Konstant Kraft), não ocorrendo em ciclos ou em épocas de acasalamento, pode-se dizer que a pulsão (Trieb) também está incessantemente buscando satisfação, de forma imperiosa.

Freud foi além e desvinculou a anatomia dessa sexualidade, associando-a à posição ocupada pelo sujeito na busca de sua satisfação, na sua forma de gozo. Esse gozo não se restringe a uma genitália, está também no imaginário, no simbólico, e pode ser um gozo fálico, ou seja, masculino, ou gozo do Outro, feminino, segundo Lacan [4]. Entende-se por feminino aquilo que está fora do universo das representações psíquicas, fora do simbólico, e que por isso se caracterizaria como uma diferença radical em relação ao gozo fálico.

Para a Psicanálise, embora o masculino não seja algo "do homem" e o feminino não seja algo "da mulher", o corpo do homem e o da mulher expressam referências anatômicas para essa diferença. Ou seja, no menino há um "a mais", um órgão que, imaginariamente, refere ao homem essa potência fálica, enquanto na mulher há uma ausência dessa referência. As mulheres, por não possuírem anatomicamente um órgão sexual que lhe garanta a referência fálica, ficam mais associadas ao feminino.

A presença do pênis dá ao homem a sensação de que ele possui a potência, possui as garantias (imaginárias) de poder, de modo que essa construção é que pode levar ao comportamento machista. Já o gozo do Outro pode ser entendido como a vivência do feminino, sem o consentimento do sujeito, do masculino, sem necessidade de vínculo com o simbólico, relacionando-se à vivência de uma satisfação que prescinde da referência fálica.

Parece complicado, né? Concordo! Não é algo que se absorve de primeira (talvez nem de segunda), mas eu precisava trazer esses conceitos para que agora, contextualizados na prática, possamos entender como eles podem se relacionar com a violência ao feminino.

Cada vez mais, as mulheres vêm conquistando seu espaço de direito e tendo mais voz no ambiente corporativo, midiático, político, dentre outros. Acredita-se que à medida que esse feminino comparece de modo "intrusivo", ganha visibilidade na sociedade, apresenta um empoderamento em um ambiente em que não há acolhimento, onde causa estranheza e não pode ser contido, há o que se chama de angústia do aniquilamento. Trata-se do medo que o sujeito (masculino) tem de se ver totalmente desprovido daquilo que lhe garante a referência fálica.

Isso também se dá quando a mulher, por exemplo, decide romper uma relação, mudar o rumo da sua vida sem o parceiro. Diante de tais cenários, o sujeito se sente tão devastado por essa perda imaginária de referência que, muitas vezes, a única saída é a aniquilação do outro e, em alguns casos, até mesmo o suicídio (referências são infinitas, basta ligar a TV em programas especializados nesse tipo de notícia).

Como mencionei anteriormente, o aniquilamento desse feminino psicanalítico também pode explicar a violência contra a população LGBTQIA+ (homofobia, transfobia, etc.), pois também se trata da vivência de um gozo, de uma satisfação, que está fora do que o masculino consegue representar simbolicamente.

Não pretendo fechar as motivações em torno do feminicídio a partir de uma explicação científica. Contudo, lançar mão do olhar psicanalítico nos permite explorar uma série de fatores inconscientes que norteiam comportamentos que estão social e culturalmente instalados, principalmente no Brasil. 

Volto ao início do texto para reforçar que este é um modelo que pretende explicar um fenômeno. Fato é que estamos lidando com uma questão de cunho social, cultural e, claro, de saúde pública, pois desvaloriza a vida humana e traz prejuízos físicos e psíquicos às vítimas. O acolhimento, a aceitação do diferente, a não perpetuação de preconceitos são os primeiros passos para, como indivíduos e sociedade, abolirmos esse e outros tipos de violência.

O que achou dessa análise? Fez sentido pra você?

 


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Referências

  1. G1. Estudo diz que Brasil tem, em média, 13 mulheres assassinadas por dia (2015). Disponível em: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2015/11/estudo-diz-que-brasil-tem-em-media-13-mulheres-assassinadas-por-dia.html. Acessado em: 06 de março de 2021.
  2. IPEA. Atlas de Violência (2020). Disponível em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/download/27/atlas-da-violencia-2020-principais-resultados. Acessado em: 06 de março de 2021.
  3. SUDRÉ, L; COCOLO, AC. Brasil é o 5º País que Mais mata Mulheres (2016). Disponível em: https://www.unifesp.br/reitoria/dci/publicacoes/entreteses/item/2589-brasil-e-o-5-pais-que-mais-mata-mulheres. Acessado em: 07 de março de 2021.
  4. DIAS, Maria das Graças Leite Villela. Do gozo fálico ao gozo do Outro. Ágora: Estudos em teoria psicanalítica, v. 11, n. 2, p. 253-266, 2008.

 

Academia Médica
Felipe Dalvi
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Doutor em Modelagem Computacional e atual acadêmico de Medicina na Unirio. Entusiasta da visão integrada entre mente e corpo, entre leituras e corridas pra ver o por do sol, cultivo minha paixão por cinema, ciência e saúde mental

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