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O despreparo da Presidente Dilma e o problema da saúde do Brasil
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O despreparo da Presidente Dilma e o problema da saúde do Brasil

O despreparo da Presidente Dilma e o problema da saúde do Brasil (primeiramente publicado na Revista do Médico Residente)

Solon Casaletti*

*Médico Urologista, com atuação em Santa Catarina.

Já ficou muito claro nas declarações da excelentíssima presidente Dilma Rousseff  que ela e seus correligionários não entenderam nada sobre o real motivo das manifestações pelo Brasil. E vamos combinar, passou da época de colocar a culpa nos outros, afinal o PT está há mais de 10 anos no poder e isso é mais tempo que qualquer outro partido já esteve lá desde o fim da ditadura.

Mas o que eu realmente quero falar é sobre a saúde, realidade da qual faço parte. Sou médico urologista e trabalho no interior de Santa Catarina, cidade de porte médio, 50 mil habitantes. Como recém-formado cheguei a trabalhar numa cidade do interior do Paraná, paupérrima, e depois de dois anos saí com uma certeza: os dirigentes dessas cidades não estão preocupados em melhorar a saúde da população, mas sim de que forma eles vão explorar o nosso trabalho para ganhar mais votos na próxima eleição. Percorria, nos dias que ia mais longe, até 80 km de estrada de chão ao dia, rodando por oito postos de atendimento, todos precários. Cheguei a atender em uma sala improvisada em uma igreja. Sem condições, não há médico que aguente.

Voltei para o interior depois da especialização, numa cidade um pouco melhor, porque realmente gosto da tranquilidade da vida no interior, mas a maioria dos colegas que passaram pelas mesmas situações não quer voltar; e outros que só de escutar as histórias nem pensam em vir. Sem mudar esse panorama, jamais a qualidade da saúde do país mudará e qualquer outra medida será meramente paliativa. Sem um bom lugar para o médico atender, com conforto (e lógico, inclui-se o paciente nesse contexto), um laboratório para exames, serviço de radiologia, especialistas e hospitais de referência, equipados com suporte para internação, sem que o paciente seja obrigado a ficar no chão, dividir macas, esperar dias para uma cirurgia de urgência, e sem que o médico tenha remuneração digna e com plano de carreira, continuaremos defasados no interior. E não vamos esquecer: médico também tem família, quer saúde e educação de qualidade para seus filhos, além de oportunidades de emprego para os que não forem médicos.

A verdade é que o problema da saúde passa também por uma real infraestrutura nas cidades. Considero uma desfaçatez a líder do país que deveria zelar pelo bem das pessoas querer transferir a responsabilidade de sua incompetência para uma entidade que por inúmeras vezes mostrou e indicou o caminho correto a seguir, o que sempre foi ignorado em prol de medidas paliativas, ou pior, populistas.

Porque a presidente não vem a público falar que 45% dos brasileiros não têm esgoto tratado? Isso é responsabilidade dos médicos? Saneamento básico é saúde! Porque a presidente também não vem justificar os motivos dela vetar a Emenda 29 que poderia e muito melhorar o financiamento para o SUS?

Além disso, não custa lembrar que a saúde é multidisciplinar, necessita de enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e dentistas. Estas profissões também seguirão os moldes impostos aos médicos? Não posso aceitar que o médico seja o bode expiatório do problema, como se nós não quiséssemos ir para o interior ou como se faltassem médicos. A excelentíssima presidente Dilma Rousseff sabe muito bem que não é isso e não quer enxergar ou se faz de desentendida como, aliás, era costumeiro em seu antecessor.

Vamos deixar claro um ponto: ninguém é contra a vinda de médicos estrangeiros. Muito ao contrário, como somos bem recebidos fora do país também receberemos bem os colegas de fora que por aqui vierem. Entretanto, para exercemos a nossa profissão em qualquer país fora daqui, temos que passar por uma avaliação dos nossos conhecimentos para termos a revalidação do diploma, mesmo nos lugares onde a presidente insiste em comparar a saúde, como na Inglaterra. Sendo assim, é absurdo querer trazer médicos desqualificados, seja a nacionalidade que for, para atender nossa população, sem uma avaliação adequada de conhecimentos.

Outra questão que já ouvi falar é que se nossos médicos fizessem a mesma prova teriam o mesmo índice de reprovação. Com certeza teríamos um índice alto, mas não seria comparável aos apresentados atualmente. Porém nós somos brasileiros, e como tal temos de nos preocupar com a formação dentro do nosso país, e não nos outros. Os que virem de fora, prestam a prova; os que aqui se formarem, podem ser avaliados de maneiras diferentes, para que os erros sejam corrigidos desde o início da formação para que cada vez mais tenhamos um médico de qualidade ao fim de sua formação.

O problema é que tudo no Brasil é resolvido de forma superficial e ineficaz, ou seja, ao invés de resolver o problema de formação do profissional, deixam tudo como está e falam em aplicar uma prova ao final do curso para que o profissional seja liberado a exercer a profissão.

Outro exemplo é a atual imposição do trabalho de dois anos no SUS ao fim do curso de Medicina; nem vou dizer que sou contra isso, mas impor sem uma discussão ampla com a sociedade e com as entidades para chegar a um denominador comum é típico de regimes totalitários. E o que fazer com aqueles que estudaram em escolas particulares, passarão pelo mesmo crivo? É justo?

O ministro da educação Aloizio Mercadante apareceu falando que é necessário o estudante de Medicina sair do curso mais humanizado e “conhecer a verdadeira situação da saúde do povo”. Sim ministro, a situação da saúde do povo é calamitosa como o senhor mesmo admite, e a culpa é sua e de seu governo. Sou formado numa excelente faculdade, pública, e todos meus professores me ensinaram a ser humanizado, a examinar e pedir exames com critérios científicos. Aprendi a mais escutar do que falar; estender minha mão e amenizar o sofrimento de quem precisa.

Quem está realmente me “desumanizando” são meus governantes, que hoje não permitem que eu atenda pelo SUS, porque além de não me dar as condições necessárias para atuar dentro da minha especialidade, pagam valores aviltantes que se eu aceitar, literalmente, estarei pagando para trabalhar.

Garanto a nossa digníssima presidente Dilma Rousseff se ela tivesse me convidado para tal reunião, pelo menos na área da saúde, eu diria onde ela e seu partido erraram nos últimos 11 anos. Mas sejamos francos, se tiveram todo esse tempo e a coisa só piorou, porque acreditarmos que agora seria diferente?

Por fim, é muito difícil levar a sério uma presidente que num momento conturbado da nossa história onde o clamor social é imenso, convide para uma reunião a portas fechadas o seu marqueteiro de campanha. Isso demonstra seu real despreparo e a vontade de tomar atitudes meramente populistas e midiáticas, que em nada melhorarão o problema da saúde no Brasil.

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Fernando Carbonieri

Fernando Carbonieri

Fundador da comunidade Academia Médica, que desde 2012 tem o intuito de expandir os horizontes falando o que a faculdade esqueceu de nos contar.

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