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Um erro médico clandestino: quando a palavra é iatrogênica

Um erro médico clandestino: quando a palavra é iatrogênica

O termo iatrogenia vem do grego iatros (médico) e genesis (produzir, gerar), ou seja, é qualquer alteração patológica provocada no paciente pela má prática médica [1]. A rigor, associamos atitudes iatrogênicas ao erro médico, no âmbito legal do termo.

O chamado "erro médico" consiste em uma conduta inadequada na prestação de um serviço de saúde que traz dano ao paciente, seja por um falha diagnóstica, terapêutica ou até mesmo administrativa em um ambiente hospitalar. Tais falhas são passíveis de penalidades jurídicas, algumas delas bastante severas, incluindo a perda do registro profissional e a impossibilidade de exercer a profissão. Embora nesse artigo iremos focar na atuação do médico, erros dessa natureza também podem vir de outros profissionais de saúde, como enfermeiros, dentistas, nutricionistas, dentre outros [2].

Há, entretanto, um outro tipo de erro que não figura nos prontuários ou registros institucionais e muito menos em lesões pós-cirúrgicas, e que, por isso, talvez seja negligenciado pela maior parte dos profissionais. Contudo, de igual modo, esse erro velado pode trazer danos severos à saúde do paciente. O que os relatos abaixo, todos verídicos (apenas simplificados e com identidades omitidas), têm em comum? 

Relato 1. Paciente idosa, casada, aposentada e evangélica apresenta como queixa principal: "Não sei mais dormir, só consigo com remédios". A paciente comentou especificamente que a insônia começou há 3 anos, depois que soube que precisaria colocar um marcapasso. Segundo ela, o médico disse que ela teve "sorte de ter procurado ajuda a tempo, pois poderia morrer dormindo se a intervenção não fosse feita a tempo".

Relato 2. Paciente idoso, divorciado, aposentado e católico relata: "Não consigo dormir sem medicação e não me adapto a outro remédio". O paciente relatou, por acaso, que o problema começou há mais de 30 anos, quando estava passando por um momento de muita ansiedade, sem conseguir dormir, e um amigo muito próximo, médico recém-formado, prescreveu a tal medicação, com o seguinte adendo "se não conseguir dormir com esse você não dorme com mais nada".

Se você respondeu "o efeito da palavra do médico", acertou!

Não raro ouço relatos dos mais variados semelhantes aos anteriores. Em um primeiro momento, a queixa parece totalmente desconectada com o estado geral do paciente, com a sua "fisiologia", histórico familiar, etc. Entretanto, em uma investigação mais atenta da história da pessoa (e não apenas da queixa do paciente), identificamos que algumas condições apresentadas podem ter causas iatrogênicas. É claro que não existe uma forma objetiva disso ser comprovado, mas estudiosos da área de psicossomática observam que esse fenômeno deriva de uma relação médico-paciente inadequada. Segundo o Dr. Abram Eksterman [3]:

"Toda relação humana é uma relação de influência, e toda influência médica é psicoterápica."

E Eksterman vai além:

"A relação médico-paciente com características iatrogênicas é ansiogênica, ou pela insegurança do médico, ou por sua dificuldade em ouvir e aceitar as queixas globais do doente, ou pelas atitudes manifestamente hostis do médico desencadeadas pelo estado e emoções do doente."

Para o psiquiatra Dr. Danilo Perestrello, o médico em si é um medicamento cuja principal propriedade farmacológica é ser ansiolítico. A iatrogenia ocorre exatamente quando o medicamento chamado médico não cumpre esse papel e, ao contrário, provoca ansiedades adicionais na relação clínica (vide a clássica síndrome do jaleco branco [4]), que podem ser decorrentes da ansiedade e do despreparo do próprio médico.

Passamos anos dissecando as partes anatômicas que compõem nosso corpo a fim de fazermos as incisões e suturas corretas; estudamos incessantemente a farmacologia de uma infinidade de drogas e as consequências de seus efeitos colaterais de modo que saibamos a melhor maneira de prescrevê-las; recebemos treinamentos incessantes para lidar com situações de emergência. Entretanto, a postura do médico na relação médico-paciente pode, muitas vezes sem a intenção, ferir o primum non nocere

O poder da palavra é discutido em diversas culturas ao longo da história, muito antes do que se entende por ciência moderna. Desde o budismo, os mantras encontrados no Vedas são palavras compostas por sons e formas que, acredita-se, têm o poder de alterar nossa forma mental. Já na tradição cristã, o apóstolo Tiago já alertava que:

"A língua também é um fogo, [...] está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza."

O próprio Freud, que, embora judeu, era ateu convicto, propôs a Psicanálise como uma forma de tratamento por meio da palavra, da fala.

É fato que a técnica médica tem avançado para além de limites antes nunca sonhados. Paradoxalmente, o aspecto existencial e humano do doente não têm tido a mesma atenção. Segundo o médico futurista Dr. Bertalan Meskó, com o rápido desenvolvimento da inteligência artificial (IA), uma das razões pelas quais a IA não seria capaz de substituir os médicos é a capacidade que os humanos têm de demonstrar empatia - se ver no lugar do paciente [5].

Assim, é premente que a formação médica se preocupe com o aspecto psicossomático do papel do médico na relação médico-paciente. Algo muito além do modelo puramente biomédico prevalente (que é necessário, óbvio).

Ser humano será cada vez mais um diferencial. Quem diria...

 


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Referências

  1. PEREIRA, Afonso Celso et al. Iatrogenia em cardiologia. Arquivos brasileiros de cardiologia, v. 75, n. 1, p. 75-78, 2000.

  2. MARELLO, Murilo. Responsabilidade do erro médico: indenização, prescrição e jurisprudência. Disponível em: https://marello.legal/novidades/indenizacao-responsabilidade-erro-medico-rio-de-janeiro-brasilia. Acessado em 13 de março de 2021.

  3. EKSTERMAN, Abram. Fatores iatrogênicos na relação médico-paciente. Jornal Brasileiro de Medicina, v. 15, n. 6, 1968.

  4. PRODOCTOR. Síndrome do jaleco branco (2016). Disponível em: https://prodoctor.net/blog/iatrofobia-sindrome-do-jaleco-branco/#:~:text=Na%20Hipertens%C3%A3o%20do%20Jaleco%20Branco,em%20uma%20cl%C3%ADnica%20ou%20hospital. Acessado em 14 de março de 2021.
  5. MESKÓ, Bertalan. 5 reasons artificial intelligence won't replace physicians (2021). Disponível em: https://medicalfuturist.com/5-reasons-artificial-intelligence-wont-replace-physicians/#. Acessado em 14 de março de 2021.

 

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Felipe Dalvi
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Doutor em Modelagem Computacional e atual acadêmico de Medicina na Unirio. Entusiasta da visão integrada entre mente e corpo, entre leituras e corridas pra ver o por do sol, cultivo minha paixão por cinema, ciência e saúde mental

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