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O Início Precoce de Fármacos no TDAH Infantil

O Início Precoce de Fármacos no TDAH Infantil
Comunidade Academia Médica
out. 21 - 5 min de leitura
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Um levantamento multicêntrico norte-americano publicado em 29 de agosto de 2025 em JAMA Network Open analisou prontuários eletrônicos de 712.478 crianças de 3 a 5 anos atendidas em atenção primária em 8 grandes sistemas pediátricos entre 2016 e 2023. Destas, 9.708 (prevalência 1,4%, variando de 0,5% a 3,1% conforme o centro) receberam diagnóstico de TDAH aos 4–5 anos. Entre as crianças com TDAH, 68,2% foram medicadas antes dos 7 anos e 42,2% receberam prescrição até 30 dias após a primeira documentação do diagnóstico, um padrão em desacordo com as diretrizes que recomendam começar com treinamento parental em manejo comportamental por cerca de seis meses antes de considerar fármacos nessa faixa etária.

Principais resultados

  • Prescrição “rápida”: 42,2% dos diagnosticados receberam remédio em até 30 dias; a variação entre instituições foi grande (26% a 49%). Apenas 14,1% começaram medicamento após 6 meses do diagnóstico.

  • Tipo de primeira prescrição: entre os que receberam fármacos, a primeira droga foi estimulante em 77,5%, não-estimulante em 16,7%, e ambas em 5,8%. Idade mediana na primeira prescrição: 5,55 anos (IIQ 5,15–5,85).

  • Quando se mede “desde o primeiro sinal” (código sintomático ou “primeira preocupação”) e não apenas desde o diagnóstico formal, 27,8% foram medicadas em até 30 dias e 25,9% só após >6 meses — mostrando que parte dos casos tem janela maior antes do início farmacológico quando o acompanhamento começa pelos sintomas.

  • Diagnóstico formal vs. sintomas: quando o primeiro registro foi “TDAH (transtorno)”, a incidência de prescrição em 30 dias foi 47,7%; quando começou como “sintomas relacionados”, 22,9%. Após 1 ano, as curvas convergiram.

Por que isso preocupa?

As diretrizes da American Academy of Pediatrics (AAP) recomendam que, em crianças de 4–5 anos, o tratamento comece com seis meses de terapia comportamental (com foco em treinamento de pais) antes de iniciar qualquer medicação.

A equipe de Stanford, que liderou o trabalho, destaca que muitos pediatras relatam barreiras de acesso a estas linhas de tratamento (escassez de serviços, cobertura limitada de planos), o que contribui para recorrer ao medicamento como a única oferta viável no curto prazo.

Além disso, crianças <6 anos metabolizam os estimulantes de forma diferente e apresentam maior taxa de efeitos adversos (irritabilidade, labilidade emocional, agressividade), o que pode levar à falha do tratamento porque famílias abandonam a medicação. Embora não haja sinal de “toxicidade” aguda, iniciar pela via comportamental tende a gerar ganhos amplos e duradouros para a criança e para a família.

O estudo foi desenhado para mapear diagnóstico e tempo até a prescrição, não a oferta/uso efetivo de terapia comportamental. Isso significa que não dá para afirmar, a partir dele, quantas famílias receberam terapias antes do remédio. Ainda assim, estudos anteriores sugerem subutilização: num trabalho de 2021 (JAMA Pediatrics), apenas 11% das famílias receberam encaminhamento para terapias em visitas relacionadas ao TDAH (mais 29% receberam conselho/folheto sobre sem encaminhar).

O que muda na prática clínica?

  • O dado de 42,2% medicados em até 30 dias indica que muitos não têm tempo hábil para uma tentativa robusta de terapias antes do fármaco. Rever fluxos para garantir 6 meses de intervenção comportamental como primeira linha é aderente à American Academy of Pediatrics.

  • Quando o cuidado inicia como “preocupação/ sintomas”, a prescrição é menos imediata (22,9% em 30 dias), possivelmente favorecendo a implementação de programas terapêuticos.

  • Diferenças por raça/etnia e tipo de seguro sugerem que equidade e acesso moldam o timing terapêutico, um alvo para melhoria de qualidade.

  • Quando a rede local é limitada, pode se propor materiais online e trilhas terapêuticas de baixo custo que podem ser recomendadas às famílias, sem abandonar o seguimento clínico. 

Por se tratar de uma coorte grande e multicêntrica, este estudo oferece evidências robustas com base em dados reais da atenção primária, examinando o tempo até a prescrição e as variações entre instituições. Os achados reforçam a necessidade de ampliar o acesso e a orientação sobre intervenções comportamentais baseadas em evidências, qualificar a educação de equipes e famílias e monitorar indicadores de qualidade que assegurem a sequência preconizada: manejo comportamental primeiro; medicação depois, quando clinicamente indicada.


Referência:

Stanford Medicine. "Why so many young kids with ADHD are getting the wrong treatment." ScienceDaily. ScienceDaily, 16 September 2025. <www.sciencedaily.com/releases/2025/09/250915202839.htm>.



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