O médico como cuidador
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O médico como cuidador

O médico como cuidador, e por isto um Escutador

Marcus Renato de Carvalho, Pediatra.*

“Escutar já é falar” Mia Couto

             Atualmente, os médicos são treinados a prescrever, informar, responder corretamente questões de vida ou morte. Sob tais exigências, frequentemente o médico recebe pouca instrução sobre uma atividade totalmente diversa, mas igualmente fundamental: a de ouvir seus pacientes.

Rubem Alvesnos fala: “O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: Se eu fosse você...”

Saber ouvir é uma habilidade rara, e há cursos para se aprender a fazê-lo: a técnica é chamada "Aconselhamento" (“counseling” ou “consejería”).

Aconselhamento não é dar conselhos: é compreender, assessorar, fortalecer a autoconfiança e autoestima de quem nos procura. Aconselhamento é uma postura – escuta-se com as mãos, com um toque, um gesto, com a respiração, com um olhar... inclusive com os ouvidos! J

Aprender a ouvir sem julgar, sem levar sustos e sem ditar regras é um desafio.

Há várias barreiras que dificultam essa ponte comunicativa: o jaleco branco; o “mediques”; o computador (que às vezes está interposto); a mesa que separa; a diversidade cultural humana...

Devemos continuar sendo experts em nossas especialidades, dominar os procedimentos diagnósticos e as modalidades terapêuticas - devemos, sim, saber o que estamos falando. Contudo, os pacientes precisam de alguém que realmente os escute. Trata-se, afinal, de suas vidas - e o paciente acredita, com razão, que não há ninguém mais autorizado que ele mesmo a falar da própria vida.

Há uma comunicação não verbal que pode ser útil. Exemplos:Mantenha sua cabeça no mesmo nível de quem você está atendendo; preste atenção; remova barreiras; não interrompa; dedique tempo; toque de forma apropriada (se for o caso); não atenda o telefone; não fique escondido atrás do monitor do seu computador, não preencha os formulários enquanto escuta...

Devolver para o paciente o que ele disse demonstra que compreendemos o que ele falou. Uma simples assentida de cabeça, um sorriso ou um “Ahã”, “Mm”, “Sei”.

Aconselhamento é uma postura, uma atitude de empatia, é diálogo. E diálogo é ouvir a despeito do que se quer falar.

Outra dica: evite palavras que soam como julgamento ou desdém. Exemplos: você agiu mal; você fez errado; foi inadequado; houve uma falha; parece infeliz; isto não é nada; é realmente um problema. Oriente ao invés de corrigir.

Aceite o que o paciente pensa e sente: primeiro reconheça e elogie o que ele estiver fazendo melhor; ofereça ajuda prática; dê pouca e relevante informação; use linguagem simples e comente uma ou duas sugestões.

E veja como é interessante: você pode aplicar esta “técnica” em outras situações, com seu companheiro, com seus filhos, com seus sócios... você verá que dar ouvidos vale a pena!

Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.

Carl Jung

 

*Marcus Renato é docente da Faculdade de Medicina - UFRJ. Especialista pelo International Board Certified Lactation Consultant. Mestre em Saúde Pública pela FioCruz, editor do site www.aleitamento.com

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