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O uso de entorpecentes no meio militar
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O uso de entorpecentes no meio militar

O uso de entorpecentes no meio militar

A utilização de entorpecentes no mundo remete a povos que habitavam o interior do continente africano, há aproximadamente 5000 anos, ou seja, bem antes da civilização moderna a qual vivemos atualmente. De forma curiosa, os integrantes dessas tribos africanas observavam que quando javalis ingeriam folhas ou frutos de uma planta denominada iboga, havia alteração de seu comportamento ou mesmo até ficavam mais mansos, sendo desta forma uma presa fácil. Nos dias de hoje os remanescentes destas tribos utilizam esta substância para realizar rituais alucinógenos. Há relatos também que na China antiga a papoula, uma planta cujo extrato tem efeito opióide no organismo, era utilizado inclusive como anestésico para diversos procedimentos médicos da época. As transformações globais em níveis industrial e cultural induziram o homem moderno ao uso dessas substâncias para fins de prazer , até com o intuito de amenizar as dores e “demônios” internos. No entanto, através de técnicas mais apuradas o homem conseguiu produzir drogas mais potentes, as quais apresentavam sintomas mais intensos. Podemos designá-las como as drogas sintéticas ou, na minha opinião, o”mal do século”. Algumas pode ser citadas: ácido lisérgico (LSD), ecstasy, haxixe, heroína, cocaína e o crack. Isso sem citar os medicamentos psicotrópicos, outra principal causa de intoxicação exógena.

Nos últimos 14 anos os dados acerca de óbitos relacionados aos entorpecentes são alarmantes: houve crescimento de 58 % de mortes no período considerado. Bem mais que os óbitos provocados por acidentes automobilísticos, por exemplo (17%) . Podemos justificar essas perdas pela alta concentração sérica da substância entorpecente no organismo, podendo levar à parada cardio-respiratória em diversos casos; ou devido à estreita relação do uso destas drogas com a violência urbana, através do tráfico, onde os usuários que não tem dinheiro para pagar simplesmente são assassinados.

Como citado em meu artigo anterior "Suicídio nas forças armadas", a população militar em nosso país, incluindo ativos , da reserva e seus dependentes , ultrapassa a margem de um milhão de pessoas. É compreensível desta forma que nesse universo há o uso de entorpecentes. A faixa etária preponderante é a jovem, variando da idade de 17 a 20 anos. O agravante neste caso é que estes militares manejam armamentos quase que diariamente.

Nós como profissionais de saúde sabemos que boa parte dessas substâncias causam alterações orgânicas visíveis, principalmente nos âmbitos neurológico e psicológico, resultando em alteração do raciocínio lógico, da atenção e do reflexo. Simplesmente são estes atributos que um soldado, em sua ronda ou quarto de hora como sentinela (portando um FAL 7,62 mm), necessitam possuir caso o aquartelamento seja alvo de atividades hostis externas. E outra: pessoas portadoras de doenças mentais, como depressão e transtornos ansiosos, podem ter seus quadros agravados pela utilização de drogas, levando a atos extremos como suicídio ou homicídio de desafetos.

Na minha rotina como médico militar, praticamente todos os anos tenho que lidar com situações por vezes drásticas. No começo deste mês um caso me marcou: atendi na Seção de Saúde um soldado usuário de crack que tinha parado de usar , pois não tinha mais dinheiro para comprar. O quadro clínico era de agitação, confusão mental, alucinações auditivas e visuais, além de tremores de extremidades. Como fator de complicação ele devia dinheiro para um traficante, que infelizmente é soldado no mesmo batalhão.

Devemos tratar a drogadição atualmente como caso de Saúde Pública. Houve um aumento substancial do uso de drogas nos quartéis nos últimos anos. Segundo dados do Supremo Tribunal Militar, o uso, tráfico e porte de drogas nas Forças Armadas elevou-se em 334% nos últimos 12 anos. Essa estatística levou o Exército Brasileiro, através do SAREx (Serviço de Assistência Religiosa do Exército), a lançar uma campanha de prevenção às drogas , no intuito de conscientizar o público militar, não somente os jovens, mais todos que têm contato com eles e principalmente seus superiores, quem devem ficar atentos aos principais sintomas de drogadição. Vale lembrar que o alcoolismo se insere em toda esta discussão, levando também à destruição de famílias inteiras.

CAMPANHA CONTRA AS DROGAS NO EXÉRCITO BRASILEIRO

Ressalvo que, tanto nós médicos (ou estudantes de medicina e relacionados à área de saúde), como Oficiais médicos ou combatentes, necessitam interagir e conhecer muito bem seus subordinados, haja vista o impacto que os entorpecentes podem causar, tanto em nível orgânico como no social.

Sun-Tzu, em seu livro “A Arte da Guerra”, dizia que devemos conhecer bem nossos inimigos antes de montarmos uma estratégia de ataque. Digo que devemos ainda mais conhecer as pessoas com as quais nos relacionamos diariamente.

Rodrigo Rocha Correa

Rodrigo Rocha Correa

1 Tenente Médico do Exército Brasileiro.

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