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O vôo...

O vôo...

 

Numa tarde perdida, há uns anos ele pensou que deveria mudar. Estava saindo do trabalho. Do mesmo trabalho de sempre. A mesma rotina e a mesma sensação de estagnação.

Então o que era para ser igual, andar até o carro, entrar, ligar o motor e partir para casa não foi mais. Ele percebeu que deveria alterar a rota. 

Ele ainda foi para casa mas já não era mais o mesmo. Estava em seu semblante. A esposa perguntou o que ele tinha: Nada, apenas decidi mudar. 

Ele queria voar. Ele queria chegar mais alto. Queria alcançar o cume. Mas ainda não sabia como.

No trabalho as pessoas também notaram. Ele não andava mais com ombros caídos. Seu olhar opaco tinha sumido. Agora havia um brilho quase imperceptível. Sobretudo, havia coragem também. 

Ele não mencionou o que havia acontecido para seu chefe, mas o chefe percebeu. Isso gerou algum desconforto. Havia uma gota de cor onde tudo antes era cinza.

“Eu preciso mudar. Eu preciso ir embora!”

A vida dele não era ruim para quem olhasse de fora. Contas pagas. Filhos crescendo. Bom casamento. Mas essa insatisfação de tirar o sono. Por que isso agora? Por que não deixar tudo igual? 

No trabalho ele se comprometia com pequenos erros. Erros que poderiam gerar grandes problemas, mas todos faziam isso há tanto tempo. Ninguém nem mais notava. Um dia, pensando com bastante calma, ele notou que era isso que perturbava sua paz. Pequenas trapaças, pequenas. Tão pequeninas.

Ele sempre foi um homem correto. Ele sempre se cobrou retidão. E aquelas pequenas coisas estragavam seus dias. Dia após dia, anos após anos. E tudo isso tomou a forma. A forma de um elefante numa loja de cristais. Não havia mais como “não perceber” aquilo.

Conversou com um amigo que trabalhava junto. O amigo concordava mas “nunca tivemos problemas com isso.” “O que você pode fazer? Sair assim do nada?” “Sua vida está estabilizada, calma…” Aquilo tudo não servia mais. Aquilo era crime. Com todos, mas acima de tudo contra ele mesmo. Sua consciência não estava à venda.

Então ele começou a ler. Começou a estudar. E quanto mais ele lia, mais a sua decisão parecia acertada. Mais suas asas cresciam. A ponto de ele não caber mais no mesmo lugar. Na mesma cadeira. Na mesma sala. Os mesmos olhares. “Só pode ser louco!” “Quem ele pensa que é?” 

Então um dia. Um dia como outro qualquer ele decidiu que era hora de pular. Era hora de chegar na janela e dizer: Aqui vou eu!  
Diante de tantos olhares cínicos e ao mesmo tempo espantados ele pulou. Ele não sabia o que havia no final da queda. Silêncio. 

Mal sabia ele que já estava sendo observado por outros que pensavam como ele. Outros que também voavam para longe da mesma forma. Mal sabia ele que possuía asas tão poderosas. E elas estavam lá. Aquelas asas imensas. Aquela propulsão. Aquilo tudo deixava o chão lá longe.

Naquele mesmo instante ele percebeu aquelas mesmas pessoas lá embaixo. Aquelas mesmas que o acharam louco. Elas estavam lá embaixo, grudadas no chão. Ombros caídos, andando no mesmo ritmo. Sem olhar para o céu.
 

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