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OMS Publica Diretriz Sobre Uso de Terapias GLP-1 no Tratamento da Obesidade

OMS Publica Diretriz Sobre Uso de Terapias GLP-1 no Tratamento da Obesidade
Comunidade Academia Médica
dez. 8 - 7 min de leitura
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A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou pela primeira vez, uma diretriz sobre o uso de terapias agonistas de GLP-1 (glucagon-like peptide-1) para tratamento de adultos com obesidade. A diretriz consolida uma mudança de paradigma em que a obesidade deixa de ser vista apenas como resultado de “estilo de vida” e passa a ser tratada como uma doença crônica, recidivante, complexa e que exige cuidado ao longo de toda a vida.

A OMS descreve a obesidade como resultado de interações entre genética, neurobiologia e comportamento alimentar, somadas a ambientes obesogênicos marcados por mudanças no padrão alimentar, na atividade física, nos estilos de vida e pela globalização e industrialização da produção e do marketing de alimentos. O impacto já é mensurável em escala planetária: mais de 1 bilhão de pessoas vivem hoje com obesidade, e, em 2024, houve 3,7 milhões de mortes relacionadas à obesidade por doenças crônicas não transmissíveis, correspondendo a 12% de todos os óbitos por doenças crônicas não transmissíveis no mundo. Os custos globais são projetados em 3 trilhões de dólares por ano até 2030. Em países com prevalência de obesidade em torno de 30%, o cuidado com a doença pode consumir até 18% de todo o orçamento nacional de saúde.

Nesse cenário, a OMS afirma que não é mais suficiente insistir apenas em mensagens genéricas de mudança de estilo de vida. A obesidade é assumida como doença crônica que requer diagnóstico precoce, monitorização de complicações e um leque de intervenções que inclui abordagens comportamentais, farmacológicas, cirúrgicas e de organização de sistemas de saúde.

As terapias baseadas em GLP-1 surgiram inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2. Em 2005, a FDA aprovou os primeiros agonistas desse hormônio intestinal pela capacidade de aumentar a secreção de insulina dependente da glicose e reduzir a secreção de glucagon. Com o amadurecimento da pesquisa, ficou claro que esses medicamentos também atuavam no sistema nervoso central, especialmente em vias hipotalâmicas que regulam apetite, promovem saciedade e retardam o esvaziamento gástrico, levando a perda de peso relevante. Em 2015, isso culminou na aprovação da liraglutida 3,0 mg especificamente para manejo crônico do peso.

Desde então, a curva de evidências só se expandiu. Ensaios clínicos, revisões sistemáticas e estudos translacionais mostraram que as terapias GLP-1 e moléculas relacionadas não apenas promovem perda de peso, mas trazem benefícios em múltiplos desfechos: redução de eventos cardiovasculares maiores, melhora em insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, prevenção de diabetes, redução de pressão arterial sistólica e de colesterol LDL, impacto na apneia obstrutiva do sono, doença arterial periférica, doenças renais, esteato-hepatite associada à disfunção metabólica e até em doenças neurodegenerativas. Em outubro de 2025, já havia 12 terapias de GLP-1 aprovadas para indicações em diabetes tipo 2 e/ou obesidade, e mais de 40 agentes em desenvolvimento, incluindo agonistas multirreceptor, com diferentes formulações e indicações.

É nesse contexto que a OMS formula sua diretriz. O processo seguiu o padrão adotado pela organização desde 2009, usando a metodologia GRADE para avaliar não apenas a qualidade da evidência, mas também valores e preferências das pessoas envolvidas, factibilidade, impacto em equidade, aceitabilidade e custo-efetividade. Um grupo de desenvolvimento de diretriz (GDG) multidisciplinar foi constituído com especialistas em obesidade, epidemiologia, manejo clínico, farmacologia, economia da saúde, programas de saúde pública e formulação de políticas, além de pessoas com experiência vivida de obesidade, que trouxeram perspectivas fundamentais sobre estigma, acesso e prioridades reais de cuidado. Procedimentos rigorosos de gestão de conflitos de interesse foram adotados para preservar a independência e a credibilidade das recomendações.

Nesse contexto, a OMS recomenda o uso de terapias GLP-1 como tratamento de longo prazo em adultos vivendo com obesidade. “Longo prazo” é definido, de acordo com a regulação vigente, como uso contínuo por seis meses ou mais. Foram conduzidas três revisões sistemáticas específicas para liraglutida, semaglutida e tirzepatida, mas o grupo optou por tratar as terapias GLP-1 como uma classe, dada a consistência de efeitos nos desfechos avaliados.

A diretriz deixa claro que, embora a eficácia em perda de peso e melhora de desfechos metabólicos seja robusta, ainda há lacunas importantes: dados limitados sobre eficácia e segurança em longo prazo, dúvidas sobre estratégias ótimas de titulação, manutenção e descontinuação, ensaios ainda em andamento que podem alterar o equilíbrio entre benefícios e riscos, além de um contexto de alto custo, sistemas de saúde pouco preparados e riscos de ampliação de desigualdades se o acesso ficar restrito a poucos grupos privilegiados.

A diretriz afirma que pessoas vivendo com obesidade devem receber aconselhamento sobre mudanças de estilo de vida, incluindo atividade física e alimentação saudável como etapa inicial e contínua do cuidado. Para pacientes que utilizam agonistas de GLP-1 ou agonistas duais GLP-1/GIP, esse aconselhamento deve servir como porta de entrada para uma terapia comportamental intensiva, desenhada para potencializar e sustentar os resultados clínicos.

As discussões do grupo também influenciaram diretamente a inclusão das terapias GLP-1 no nível da atenção primária e na Lista Modelo de Medicamentos Essenciais da OMS. A conclusão foi que essas terapias devem ser consideradas essenciais para um subgrupo de alto risco: pessoas vivendo com obesidade, diabetes tipo 2 e doença cardiovascular ou renal estabelecida. Essa priorização reconhece o potencial de benefício absoluto elevado nesses pacientes, ao mesmo tempo em que admite que, em um cenário de recursos limitados e oferta insuficiente, é necessário direcionar o uso às situações de maior impacto clínico.

O documento já antecipa outras frentes de pesquisa consideradas prioritárias: efeitos de longo prazo das terapias GLP-1 em doença renal, cognição, dependência e qualidade de vida; modelos de prestação de cuidado que maximizem impacto com os recursos disponíveis; identificação de preditores de resposta individual; e consequências clínicas e programáticas de diferentes estratégias de início, titulação, manutenção, descontinuação e eventual substituição dessas terapias. A diretriz também planeja incorporar evidências emergentes sobre componentes adicionais do cuidado multimodal, como nutrição terapêutica, abordagens de “comida como medicamento” e cirurgia metabólica e bariátrica, buscando sinergia entre essas intervenções e o uso dos GLP-1.

Ao final, a diretriz é apresentada como um primeiro passo e, ao mesmo tempo, como um chamado global. A disponibilidade das terapias GLP-1 torna realista a perspectiva de manejar e até reverter a obesidade ao longo do curso de vida, com intervenções precoces e sustentadas capazes de reduzir e possivelmente eliminar comorbidades em muitos indivíduos. A questão, segundo o texto, é se a comunidade internacional será capaz de transformar essa promessa em um marco de sucesso em saúde pública ou se permitirá que essa oportunidade histórica se perca em meio a desigualdades de acesso, inércia de sistemas e respostas reativas.

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