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Os desafios para a Divulgação Científica no mundo conectado

Os desafios para a Divulgação Científica no mundo conectado

A pandemia da Covid-19 ajudou a expor um fenômeno existente há bastante tempo em fóruns e grupos de internet, mas que começou agora a alcançar o grande público: os movimentos negacionistas da ciência.

Grupos negando o aquecimento global, anti-vacinas e terraplanistas são alguns exemplos que utilizam diversas táticas para o convencer seus adeptos, em especial falácias lógicas, apelo à emoção, opinião de especialistas “outsiders” e estudos científicos de metodologia questionável. Em comum, possuem a narrativa de que grandes organizações utilizam mentiras disfarçadas de ciência para controlar a população e manter o status quo. Alguns poucos indivíduos fora desse círculo estariam supostamente lutando para revelar a verdade, e por isso são perseguidos.

Sem dúvidas existe toda uma esfera psicológica por trás disso, como o sentimento de pertencimento de grupo (conhecer uma verdade que poucos sabem), de protagonismo (o bem contra o mal) e a ilusão de conseguir explicar fenômenos complexos a partir de uma lógica intuitiva. Contudo, minha intenção nesse momento não é falar sobre o perfil dos partidários desses grupos.

Ao invés disso, pretendo argumentar que um dos motivos pelos quais atribuo o crescimento dessas correntes é o vácuo de poder deixado entre a Academia e a Sociedade, ou seja, nossa carência de bons divulgadores científicos.

Enquanto a Comunicação Científica é o intercâmbio de informações entre especialistas de determinada área, a Divulgação Científica é a tradução do conhecimento para setores das sociedades que não tem familiaridade com o tema [1]. Essa difusão do saber envolve a capacidade de conversar com um público leigo sobre assuntos complexos de forma que a mensagem seja compreendida desde o fenômeno descrito até o processo metodológico que levou a tal. Em outras palavras, envolve capacidade de argumentar, exercer influência e convencer, uma forma de poder fundamental nos dias atuais [2].

Talvez esse seja o grande obstáculo na formação de divulgadores científicos. Posso falar com a experiência de ser um estudante de graduação sobre as dificuldades de se elaborar uma mensagem para o público partindo de um tema complexo. Há uma clara falta de treinamento sobre métodos de discurso para eficiente comunicação durante a faculdade.

Richard Feynman, um dos principais físicos do século XX, ao fim de suas experiências lecionando física no Brasil, criticou a formalidade do discurso envolvendo o ensino de ciências naturais nas universidades daqui. Uma das suas falas mais categóricas foi sobre o fato de que a ciência ensinada aqui se afasta da descrição dos fenômenos naturais. Nas palavras dele:

“Apenas diziam o que uma palavra significa em termos de outras palavras. Não foi dito nada sobre a natureza” [3].

Como nossos acadêmicos podem explicar ciência para outrem se nosso ensino, 70 anos depois das observações de Feynman, continua viciado em usar palavras para descrever palavras?

Para dar um exemplo simples: se explicarmos que objetos caem dizendo apenas: “É a gravidade!", estamos usando uma elaboração simplista que deixa margem para outras interpretações com base na falta de uma descrição detalhada. É necessário descrever todo o fenômeno e suas implicações de forma inteligível.

Dentre todas as áreas, talvez as que mais tenham que dominar esse tipo de habilidade seja os profissionais da saúde, docentes e jornalistas por conta de seu contato com o público. Para os médicos, isso fica ainda mais claro no momento em que temos que estabelecer vínculo com o paciente para que ele confie nas hipóteses, condutas e siga o tratamento. Nesse contexto, o poder disciplinar exercido pelo médico durante uma relação social microfísica com o paciente é fundamental para o sucesso terapêutico e, portanto objeto de estudo da bioética e do biodireito [4].

Se por um lado essa microforma de poder costuma ser incentivada durante os anos de treinamento médico (chamada de relação médico-paciente), por outro estamos deixando de exercê-la devidamente fora do consultório.

Como solução, precisamos empregar as ferramentas de Inteligência Artificial da forma já usada por empresas para entregar propagadas direcionadas de acordo com o perfil de consumo dos usuários. Já é hora de aplicar os potenciais do Machine Learning para identificar as tendências de divulgação, propagação e natureza de notícias falsas com intuito de lutar uma guerra mais inteligente contra a desinformação [5, 6]. Nos dias de hoje, simplesmente divulgar a notícia verdadeira não é suficiente: é preciso refutar as informações distorcidas; e essa é uma tarefa inumana diante da quantidade massiva de disparos automáticos de notícias falsas.

Na outra ponta, profissionais da saúde e pesquisadores precisam assumir um papel ativo na divulgação científica e na formação de pessoas capacitadas para tal, sob pena de permitir o contínuo avanço de discursos e ideologias que têm capacidade de provocar resultados culturais e políticos desastrosos para sociedade.

 


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Referências Bibliográficas:

[1] Bueno WC. Comunicação cientifica e divulgação científica: aproximações e rupturas conceituais. Informação & Informação. 2010;15(1):1-12. DOI: 10.5433/1981-8920.2010v15n1espp1

[2] Machado FS. A divulgação científica e o enunciado digital. Barkhitiana: Revista de Estudos do Discurso. 2016;11(2):93-110. DOI: 10.1590/2176-457323524.

[3] Leighton R. Classic Feynman: all the adventures of a curious character. New York: W. W. Norton & Company; 2006.

[4] Foucault M. Microfísica do Poder. 20ª ed. Rio de Janeiro: Graal; 1979.

[5] Gershgorn D. In the fight against fake news, artificial intelligence is waging a battle it cannot win [Internet]. Quartz. 2020 [acesso em 11 set 2020]. Disponível em: https://qz.com/843110/can-artificial-intelligence-solve-facebooks-fake-news-problem/

[6] Sachdev G. Artificial Intelligence: A shield against ‘fake news’? [Internet]. Indiaai.in. 2020 [acesso em 11 set 2020]. Disponível em: https://indiaai.in/article/artificial-intelligence-a-shield-against-fake-news

Academia Médica
Matheus Henrique de Sousa Moura
Matheus Henrique de Sousa Moura Seguir

Acadêmico de Medicina da Universidade Federal do Piauí. Pesquisador-discente nas áreas de neuro-oncologia e química medicinal, com interesse em neurociências educação médica e divulgação científica. Nas horas vagas gosto de física e literatura sci-fi

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