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Pandemia: como chegamos até aqui?

Pandemia: como chegamos até aqui?

O mundo parou. Isso é um fato consumado. Nada mais será como antes. O lockdown é inevitável na grande maioria da superfície habitada do planeta. A saúde na Terra não é mais definida pela saúde individual, mas pela saúde da raça humana em sua coletividade. Não estamos mais tratando da morte do indivíduo humano, mas sim da sociedade humana tal como conhecemos hoje. Precisamos iniciar um tratamento imediatamente.

James Lovelock, um renomado e centenário cientista inglês, PhD em Medicina e colaborador da NASA, iniciou ainda nos anos 60 um conceito da Terra enquanto organismo vivo, interagindo ativamente com os seres que habitam sua superfície, e descreveu principalmente os impactos negativos sobre a sobrevivência humana do progressivo aquecimento global. A teoria central de Lovelock é resumida, de forma breve, na hipótese de Gaia: a hipótese de que o planeta em si é um organismo e necessita de cuidados salutares para permanecer vivo. E os seres humanos agridem o planeta tal como um vírus agride o organismo humano. O sistema imune de Gaia há de responder à altura. Controversa ou não, esta teoria não pode ser ignorada no presente momento da pandemia de Coronavírus.

Mas o que o aquecimento do planeta tem a ver com uma doença viral? Muito. O aquecimento desenfreado do planeta tem relação direta com a expansão desenfreada da sociedade de consumo iniciada pelos seres humanos na revolução industrial e potencializada com a revolução digital do presente.

Éramos 1,8 bilhão de pessoas sobre a Terra na epidemia de influenza em 1918 (a gripe espanhola). À época, esta epidemia tirou a vida de 50 milhões de seres humanos. 100 anos depois, nossa população quadruplicou, ultrapassamos 8 bilhões de habitantes. E, mais do que aumentar nossa quantidade, aumentamos nossa virulência: a constante produção em massa de materiais não biodegradáveis e a emissão de poluentes na atmosfera gerou não apenas poluição e desequilíbrio ambiental, mas também um desequilíbrio social sem precedentes.

Questões biológicas e econômicas, simultaneamente, vão levando os países à pique. Na política, a onda neoliberal que observamos crescer até o presente momento fomentou o processo, sendo caracterizada pela falta de controle estatal sobre grandes corporações e sobre a produção de bens de consumo, pela concentração de riquezas, pela exploração do ser humano, e pela perda de controle sobre a emissão de poluentes.

Como catalisador, um ambiente fiscal e econômico mantiveram favorável a perpetuação do sistema exploratório do planeta, com um consequente dano exponencial e irreversível à nossa sociedade. Se em 100 anos nossa população quadruplicou em número, e em virulência, o que seríamos nós no próximo século? O que poderia deter o ser humano a não ser o sistema imune de Gaia?

 

 

Vírus são os menores e mais perigosos microorganismos sobre o planeta. Invisíveis a olho nu. Sobre eles, Bill Gates, em 2015, palestrou no aclamado palco do TED Talks, profetizando a próxima pandemia e o quanto não estávamos preparados para ela. Não à toa, Gates dedicou-se em grande parte de seu tempo e investimento nos últimos anos em não apenas desenvolver vacinas, mas a buscar tecnologias sustentáveis, de baixo impacto ambiental e em energia renovável. Por quê? Porque as coisas estão intimamente ligadas. É impossível pensar na persistência humana sem cimentar muito bem esses pilares. Gates estava certo. Não estávamos preparados para este ataque agressivo.  

Crescemos exponencialmente explorando os bens naturais do planeta: água, ar, florestas, solo, e gerando, em contrapartida, poluentes e concentração de riqueza. Uma conta nada vantajosa aos olhos de Gaia. O ser humano, marginalizado, nas periferias de Wuhan, sem condições de higiene e de acesso à alimentação de qualidade, foi a presa perfeita. O ponto mais fraco de toda esta cadeia, em um país conhecido pela exploração do ser humano enquanto mão de obra. A hipótese é a de que, ao se alimentarem de morcegos, os chineses tiveram contato com uma forma de vírus mutante, capaz de infectar seres humanos e de se transmitir rapidamente pelo ar. Uma pessoa infectada transmite, em média, para 2 a 3 outras pessoas. Uma progressão geométrica fatal. Um sistema imune planetário capaz de combater rapidamente a ameaça humana sobre a Terra.

Somos uma espécie desorganizada, que nunca produziu tanto alimento em toda sua história, mas às custas da destruição de ecossistemas, florestas e oceanos, e que produziu de um lado obesos morrendo de câncer e infarto, e do outro lado pessoas famintas que precisam se alimentar de morcegos, não têm sabonete para lavar as mãos e morrem de fome. Se isto não é o retrato perfeito do desequilíbrio para você, nem termine de ler este texto. A epidemia do Coronavírus é uma ameaça que não pode ser compreendida como um assunto biológico, econômico, sanitário, ou político. Esta pandemia é uma quebra de fluxo sem precedentes, que enfraquece o nosso sistema de produção, coloca em xeque nossas certezas, exige da nossa ciência e nos transforma enquanto sociedade.

Se em 100 anos fôssemos quadruplicar a população da Terra, então seríamos 32 bilhões de pessoas. Que cenário veríamos se, apenas metade delas, 16 bilhões de pessoas, vivessem na pobreza, na periferia, sem poder lavar as mãos? Que métodos de produção poderiam sustentar um contingente humano desta proporção: emitindo gás carbônico na atmosfera e lixos nos oceanos? Precisamos responder essa questão com urgência.

Nós estamos sofrendo o ataque de um organismo colossal ao qual nós mesmo estamos duramente infectando. Lutar contra o vírus é lutar contra nosso próprio potencial destrutivo sobre a Terra. O ser humano nunca foi tão tóxico.

 


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Emerson Wolaniuk
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Médico Responsável Técnico do Instituto Qualis - Curitiba, centro de referência no tratamento da obesidade e qualidade de vida, medicina preventiva e no processo de reprogramação de vida. Ganhador do Premio Inova Saúde PR 2017 de gestão em saúde.

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