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Quarentene-se!

Quarentene-se!

A epidemia mundial do COVID-19, não é novidade para mais ninguém atualmente. Desde o seu surgimento, em dezembro de 2019, a mídia, redes sociais, familiares, amigos, enfim, em todos os locais há uma enorme divulgação da situação. Isso é necessário, pois a população mundial precisa entender e se abster de diversas situações sociais para que assim possa evitar contaminação e com isso diminuir o número de casos. Para isso, a quarentena foi e está sendo muito propagada, como medida necessária para o controle dessa expansão.

Há dois termos que estão sendo muito intercambiáveis, principalmente através da comunicação midiática - que são: quarentena e isolamento[1]. A quarentena é um termo designado para situações de restrição de movimentos de pessoas que possivelmente foram expostas ao vírus, mesmo que estejam assintomáticas[2]. Como o vírus SARS-CoV-2, tem como meio de propagação o ar, teoricamente muitos foram contaminados, e é por isso que se torna necessária essa delimitação de atividades, saídas e principalmente aglomerações, pois com isso é possível reduzir o risco de contaminação de mais pessoas.

Em relação ao isolamento, ele se faz necessário quando as pessoas que foram diagnosticadas com doenças infectocontagiosas, precisam se distanciar daquelas que não estão doentes[1].

 

Um pouco do passado

Essas medidas não são novidade na história da humanidade. O termo quarentena, derivado de “quarantenaria” fora citado pela primeira vez na cidade de Veneza, por volta de 1127, em resposta a um surto de Peste Negra. A história sempre vem como aliada para que possamos tentar aprender com as mais diversas situações que a humanidade vivenciou. Comparando o surto de peste Bubônica ocorrido em 1636, em Londres, em que fora aplicada a quarentena, a dizimação populacional foi de cerca de 10400 indivíduos, porém foi muito menor do que os surtos de 1603 e 1625, quando não foram tomadas as medidas preventivas. Além disso, criou um sofrimento psicológico, físico e econômico para muitas pessoas³.

Ainda que a quarentena seja uma estratégia realizada há séculos, há uma dificuldade da população em aceitar tais medidas, principalmente aqui no Brasil, onde o medo oscila entre prejuízos na economia e a saúde das pessoas. Os questionamentos ficam nesse “cabo de guerra” entre duas questões: saúde em detrimento da economia? Ou economia em detrimento da saúde?

Em um contexto mais atual, em 2003 a Síndrome Respiratória aguda grave (SARS) a população também teve que passar por medidas de quarentena generalizada. E com isso houve sucesso na contenção da doença. Porém, outras variáveis surgiram, citando, por exemplo, o estudo feito com pessoas em quarentena no Canadá, mostrou que houve uma alta prevalência de sofrimento psicológico, sintomas de estresse pós traumático e depressão. A causa desse sofrimento, de fato, é multifatorial: medo de ficar sozinho, de se contaminar, da própria família ser contaminada, quebra da rotina, levando muitas vezes à procrastinação, ou a um desespero em se organizar.

Portanto, apesar da quarentena ser usada há séculos para controlar a propagação de doenças, não podemos deixar de citar que, ela também é manchada por ameaças, medo generalizado, falta de entendimento, discriminação e dificuldades econômicas[4].

 

Como fica a saúde mental?

Além dessas questões, há algo que precisa de notória atenção, que é a saúde psicológica, pois a experiência vivenciada durante esse período pelas nações, permanece pouco pesquisada. A Organização Mundial da Saúde define a saúde como “um estado de completo bem estar físico, mental e social, e não somente ausência de afecções e enfermidades".

Embora todas as notícias e objetivos sobre a quarentena sejam de tentar diminuir a propagação de infecções para promover a saúde da população, é preciso explorar e avaliar as esferas “mental e social”, inerentes ao conceito de saúde. Como as pessoas tem conseguido se manter dentro de suas próprias residências? O que elas estão fazendo para diminuir a carga de estresse? Quais os medos, preocupações e angústias? Todas essas questões fazem parte do que é saúde!

A população tem sido bombardeada de informações, dados sobre o número de mortos e de contaminados, sem contar as “fake news” disseminadas em redes sociais, que saturam o emocional de qualquer pessoa.

De certo modo, a quarentena é uma experiência mal-encarada por todos, devido a ansiedade, estresse e medo que ela gera, porém também é preciso ressaltar, que o contato familiar fica mais intenso, possibilitando passar mais tempo com a família. É uma faca de dois gumes, não tem como negar. A rotina fica muito delimitada e há a impossibilidade de visitar os familiares, perda da liberdade, e a incerteza da doença e de como ela irá evoluir, frente a tantas notícias.

Alguns estudos evidenciaram que as pessoas em quarentena é fator preditivo para desenvolver sintomas de transtorno de estresse agudo, e por isso, ressalta-se mais um vez, de como é importante a necessidade de avaliar como essas pessoas estão.

Estudos quantitativos evidenciaram sintomas como: distúrbios emocionais, sintomas de estresse pós traumático, raiva, exaustão emocional, humor baixo e irritabilidade, sendo esses dois últimos como alta prevalência. Os principais estressores durante a quarentena são: medos de infecção, frustração e tédio, suprimentos inadequados e informações inadequadas[5].

Acadêmicos na quarentena

A partir de pesquisas feitas em base de dados como o Lancet, Scielo, PubMed e Jama Network, surgiu a curiosidade de entrevistar alguns alunos do curso de Medicina, futuros profissionais que, caso necessário (esperamos que não seja), estarão na linha de frente em situações como estas que estamos vivenciando.

A maioria dos artigos e publicações sobre o comportamento na quarentena retrata a vivência de pessoas que foram contaminadas. Isso também foi um despertar para sabermos como estão nossos futuros médicos, e o que eles estão fazendo para tentar diminuir o estresse e ansiedade durante a quarentena. Dessa forma, outros acadêmicos poderão se inspirar, para que esse momento tão difícil, mas de extrema necessidade, passe de forma mais tranquila.

A entrevista contemplou a participação de 8 acadêmicos, dos mais variados períodos, e das mais distintas cidades e instituições de ensino, como: Universidade Federal do Paraná, em Curitiba- PR, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, em Ribeirão Preto- SP, Centro Universitário Ingá, em Maringá-PR, Centro Universitário de Pato de Minas, em Pato de Minas- MG, Universidade Salvador, em Salvador- BA e Centro Universitário de Pato Branco, em Pato Branco-PR.

Diante da situação que estamos vivenciando, o sentimento dos acadêmicos foram ao mais diversos, mas de uma forma geral, se resume ao medo e preocupação. Eles têm medo pela vida das pessoas que contraíram a doença, medo pelos familiares que, em alguns casos são grupo de risco, e em outros, são profissionais da saúde e estão na linha de frente do atendimento. Há medo e preocupação em relação às atividades das instituições que serão online, se irão funcionar realmente. E há também quem já está mais tranquilo e seguindo as recomendações da OMS e do Ministério da Saúde.

Vale ressaltar que, alguns acadêmicos relataram repúdio sobre as “fake News”, pois como a acadêmica, L.T.S citou “todo mundo se acha médico, infectologista, profissional da saúde e acham que sabem tudo por notícia fake de grupo de         Whatsapp”. Em relação a isso, a acadêmica L.C.R, concluiu que acaba sentindo uma pressão que ela mesmo se impôs, pelo fato de fazer medicina e sentir a responsabilidade de passar informações verídicas para seus familiares. De frente a tantos sentimentos, a acadêmica P.C.P, também está “com esperança de que as coisas vão se ajeitar e terão inúmeros aprendizados desse período”.

 

Como manter a rotina?

Quando foram questionados sobre como estão organizando suas rotinas, as respostas foram as mais diversas, mas em todas, foi possível evidenciar que estão estudando, e tentando colocar a matéria da faculdade em dia. Além de outras atividades, como por exemplo, fazer o TCC, ver séries e filmes, ouvir música, cozinhar, conversar com os amigos e familiares. Porém, alguns estão achando difícil em organizar uma rotina fixa, pois não têm um horário fixo, e em algumas vezes acabam sentindo que “tenho procrastinado bastante”, como citou C.D.

Além disso, a grande maioria relatou estar fazendo exercícios e atividades de Yoga e meditação. A acadêmica A.C.S.V. relatou que no começo da quarentena estava muito ansiosa, comia e dormia bastante. Para conseguir se reorganizar e se acalmar ela resolveu “começar uma rotina de exercícios físicos e comecei a cuidar minha alimentação isso foi me ajudando. Listei todo o conteúdo que tinha sido dado nesse semestre e dividi por dia, algumas poucas horas de estudo. Segui essa rotina pelos últimos dias”.

Esse comportamento de manter as atividades físicas ou incluí-las nessa quarentena, corrobora com os dados epidemiológicos, que sugerem que as pessoas que realizam exercícios, possuem menor probabilidade de adquirir transtornos de ansiedade6.

Diante da situação de diversos sentimentos, preocupações, angústias e uma rotina bem carregada, são ressaltados em estudos com acadêmicos, cuja temática relacionada à Psicologia Clínica, tem sidos descritos na literatura de forma exponencial, a importância dos exercícios físicos para melhorar o bem estar e reduzir sintomas psicológicos. O que tem sido observado é que o ingresso em Instituições de Ensino Superior é tido como fonte de estresse, afetando diretamente no bem estar desses universitários. Além disso, há a possibilidade de desencadear sintomas e transtornos psicológicos, como depressão e ansiedade, além de alguns comportamentos de risco, como abuso de álcool e drogas. É notório que acadêmicos são uma população mais vulnerável para esses transtornos psicológicos[7].

Controle do estresse

Nesse ínterim, quando foram questionados sobre o nível de estresse que estão sentindo nessa quarentena, eles deveriam avaliar de 0 e 10, na qual 0 seria nada de estresse, e 10, grau elevado de estresse. A média da resposta foi de 5,5. Porém, em alguns momentos isso se agravava devido às aulas online, pois intercorrências como queda do sinal da internet, preocupação com a qualidade do ensino, acaba tornando estressante. A acadêmica L.C.R citou que durante a rotina normal da faculdade ela possui uma carga de estresse de nível 8, que se eleva para 10 em provas e quando não há tempo suficiente para almoçar, por exemplo.

Para aliviar o estresse em um momento tão tenso e difícil, os acadêmicos enfatizaram que estão realizando exercícios físicos em seus lares, e explicaram que algumas professoras de suas academias disponibilizaram vídeos ensinando como realizá-los em casa.

Além dos exercícios, começaram a fazer yoga através de aplicativos, estão cozinhando receitas novas e aquelas que são típicas de suas famílias, e também estão realizando meditação, iniciaram curso de Libras, e estão tentando distrair seus cachorros. A proximidade com a família também é algo que tem sido feito para manter a calma, momentos de jogar baralho e tomar o bom e velho chimarrão, como a L.T.S, tem feito em Rondinha, no Rio Grande do Sul.

Vale ressaltar que, algumas medidas das instituições que esses acadêmicos estudam também contribuíram para amenizar o estresse. De acordo com a acadêmica, L.T.S., a faculdade está proporcionando meios para o pagamento de mensalidade e negociação, e isto está “sendo muito bom”, como ela citou. Além disso, o coordenador está se disponibilizando para ouvir desabafos e tirando dúvidas e medos dos alunos.

Essa não é a realidade da aluna C.D., de outra instituição, pois como ela afirmou: “senti como se a faculdade tivesse "de olhos tapados" com a situação, enquanto que as outras faculdades estavam suspensas ela continuou funcionando até o dia que não podia mais”. Porém, a maioria das instituições está bem disposta em promover aulas online, promover cursos online, campanhas para a população, doações para entidades e capacitação de professores.

Portanto, diante de todos esses depoimentos, ressalta-se a importância da população ficar em quarentena e buscar estratégias para que esse momento tão difícil para todos nós, possa passar de forma mais tranquila, tendo uma rotina mais organizada, e principalmente, realizando exercícios em casa, e mantendo os estudos em dia.

Sobretudo, é preciso manter a calma, buscar informações verídicas sobre a doença e a situação atual, com a finalidade de acalmar os familiares e ajudar os amigos a se prevenirem, e com isso aguardar a diminuição dos casos, e o fim dessa pandemia tão cruel e tão devastadora. Que ela fique na história, pelo menos como aprendizado para que no futuro sejam tomadas medidas mais rápidas de contenção, e que sejam levadas a sério as medidas de quarentena e isolamento. Pois infelizmente, ela já está marcada na história de muitas famílias, como a doença que tirou a vida muitos e muitos familiares.

A acadêmica A.C.S.V. acredita que “os governos deveriam aprender com essa situação o quão é importante investir na saúde para que os profissionais tenham uma infraestrutura e um equipamento adequado e investir na educação (para que a população esteja apta a fazer a sua parte). Acredito que a sociedade poderia aprender (já que não é a primeira pandemia que passamos) que ela precisa exigir do governo o direito aos serviços básicos que é dever do Estado prover e que também deve ir atrás de fazer a sua parte. Acredito que todos devemos ter mais empatia com o próximo e enxergar mais "além do próprio umbigo". E além disso, investir em ciência e estudos sobre as doenças infectocontagiosas, além de elaborar um plano de controle e contingência de epidemias, como afirma L.T.S.

O acadêmico Y.J.M acredita que “Aprender com as antigas já é um bom começo”, e que dessa forma seria possível evitar futuras pandemias.

Confira abaixo mais um pouquinho do depoimento de alguns dos acadêmicos entrevistados, sobre a seguinte pergunta: Como futuro profissional da saúde, qual o seu sentimento diante dessa situação?

Y.J.M: “Gostaria de já poder estar atuando, sinto-me melhor fazendo algo a respeito”.

 

C.D: “Levando em consideração os discursos do atual presidente, que minimiza a situação sem enxergar a real gravidade do problema, fico bem preocupada e triste pela população, porque se as medidas não forem tomadas da forma correta, as consequências podem ser drásticas. Acho que primeiro temos garantir o direito à vida e à saúde de todos, e, depois pensar em salvar a economia”.

 

L.B: “Achei que não iria viver isso, mas sou a favor do isolamento social. Acredito que será necessário medidas de governo em prol a economia, entretanto, em todos protocolos e estudos, o isolamento social ainda é a melhor solução, tanto pela diminuição da taxa de transmissão quanto para não tornar tão caótico nosso sistema de saúde!”.

 

P.C.Q: “Incerteza”.

 

L.C.R: “Além dessa pressão, eu sinto um pouco de receio no impacto que isso vai causar no nosso sistema de saúde, na cabeça dos profissionais que estão fazendo de tudo pra amenizar as coisas, seja o pessoal da limpeza, enfermeiro, recepcionista, médico, etc... tenho receio do depois do Corona, como que o SUS vai ficar, se isso vai mudar a cabeça das pessoas com relação a necessidade do sistema ou se elas vão condená-lo mais ainda por causa das perdas humanas que vamos ter”.

 

A.C.S.V: “Um pouco de frustração com a maneira que as pessoas lidaram com as notícias, da forma como priorizam fake news ao invés de informações de organizações/profissionais da saúde que se basearam em artigos e pesquisas. Também me entristece a falta de empatia de muitos. Porém para todas essas coisas ruins, vi jovens fazendo máscaras e EPIs para doarem para hospitais e pessoas que precisavam e vi muitos profissionais se dedicando e perdendo noites de sono para se empenharem contra a doença e para manterem as pessoas em casa e achatarem a curva de contágio. Acho que o sentimento que prevalece é que no momento da crise acima de tudo a gente tem que priorizar as pessoas e o que é melhor para elas”.

 

L.T.S: “Sentimento de insegurança, medo, incerteza. Como é um momento atípico em um cenário internacional, ninguém possui toda experiência pra lidar com essa situação. A gente vê agora como o sistema de saúde pública do Brasil não possui estruturas pra cuidar de toda a população que vai precisar de leitos de UTI, respiradores, até mesmo testes pra detectar a doença. Temos que agradecer muito os profissionais da saúde que estão na linha de frente dessa batalha, muitas vezes colocando suas vidas em risco pra salvar a população”.

 

 

Referências

1- BROOKS, Samantha K. et al. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. The Lancet, 2020.

2-BARBISCH, Donna; KOENIG, Kristi L.; SHIH, Fuh-Yuan. Is there a case for quarantine? Perspectives from SARS to Ebola. Disaster medicine and public health preparedness, v. 9, n. 5, p. 547-553, 2015.

3- NEWMAN, Kira LS. Shutt up: bubonic plague and quarantine in early modern England. Journal of social history, v. 45, n. 3, p. 809-834, 2012.

4-HAWRYLUCK, Laura et al. SARS control and psychological effects of quarantine, Toronto, Canada. Emerging Infectious Diseases, v. 10, n. 7, p. 1206, 2004.

5-BROOKS, Samantha K. et al. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. The Lancet, 2020.

6- KANDOLA, Aaron et al. Moving to beat anxiety: epidemiology and therapeutic issues with physical activity for anxiety. Current psychiatry reports, v. 20, n. 8, p. 63, 2018.

7- CARVALHO, Anelisa Vaz de; NEUFELD, Carmem Beatriz; KEEGAN, Eduardo Gustavo. Perfeccionismo, ansiedade e depressão relacionados à saúde e ao bem-estar de universitários brasileiros. 2018.


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Lara Gandolfo
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Acadêmica de Medicina em Pato Branco-PR, no Centro Universitário de Pato Branco-UNIDEP medicina por amor...pela cura...pela vida!❤

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