A diverticulite é uma causa frequente de dor abdominal em adultos, e representa uma carga importante para o sistema de saúde. Com base no conteúdo publicado em JAMA Network, faremos uma atualização sobre a definição, epidemiologia, fatores de risco, quadro clínico, diagnóstico, tratamento, prognóstico e medidas de prevenção associadas a menor risco.
Diverticulose é a presença de pequenas bolsas (divertículos) que se formam na parede do intestino, principalmente no cólon. Essas bolsas são outpouchings da mucosa por pontos de fragilidade da camada muscular intestinal. Quando um ou mais desses divertículos inflamam, ocorre a diverticulite. É essa inflamação que leva ao quadro clínico de dor, febre e, em casos mais graves, complicações como perfuração e abscessos. Extremamente comum com o avançar da idade, atingindo cerça de 60% das pessoas até os 60 anos, na sua maioria das vezes no cólon esquerdo. No entanto, apesar apesar de frequente, apenas 1% a 4% dos indivíduos com diverticulose desenvolveraão diverticulite ao longo da vida.
Entre os fatores associados a maior probabilidade de desenvolver diverticulose estão:
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Idade avançada: ser maior de 65 anos.
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Obesidade: índice de massa corporal (IMC) ≥ 30.
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Hipertensão arterial.
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Diabetes mellitus tipo 2.
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Uso de determinados medicamentos, como:
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Opioides
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Corticoides sistêmicos
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Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)
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Doenças do tecido conjuntivo, por exemplo:
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Doença renal policística
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Síndrome de Marfan
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Síndrome de Ehlers-Danlos
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Determinados variantes genéticos também são citados como fatores de risco.
Esses elementos sugerem que tanto componentes mecânicos (pressão intraluminal, constipação associada à obesidade) quanto estruturais (fragilidade do tecido conjuntivo) e inflamatórios (uso de AINEs, doenças crônicas) contribuem para o desenvolvimento de divertículos.
A forma típica de apresentação da diverticulite aguda é por presença de dor abdominal em quadrante inferior esquerdo, que costuma iniciar-se de maneira insidiosa e aumentar progressivamente de intensidade ao longo do tempo. Cerca de 30% dos pacientes também apresentam sintomas sistêmicos como: náuseas, vômitos, febre, calafrios e em casos mais graves, taquicardia, queda de pressão arterial, extremidades frias, úmidas ou pegajosas. Essas manifestações indicando potencial complicação, como perfuração ou sepse abdominal, e exigindo avaliação imediata e manejo intensivo.
Diverticulite não complicada e complicada
A diverticulite não complicada corresponde a cerca de 85% dos casos e caracteriza-se por um processo inflamatório limitado a um segmento do cólon, sem evidências de perfuração, formação de abscesso ou presença de fístulas. Em geral, esses quadros podem ser manejados de forma conservadora, muitas vezes em regime ambulatorial, com controle da dor, ajustes dietéticos e, em alguns casos selecionados, uso de antibióticos.
Por outro lado, aproximadamente 15% dos pacientes com diverticulite aguda apresentam a forma complicada da doença. Nesses casos, o quadro clínico pode incluir perfuração do cólon, formação de abscesso intra-abdominal (coleção de pus), estenose colônica com risco de obstrução e desenvolvimento de fístulas entre o cólon e órgãos adjacentes. As fístulas descritas podem estabelecer comunicação com a bexiga, vagina, útero, parede abdominal ou ainda com outros segmentos do intestino delgado ou grosso. Esses cenários configuram uma doença mais grave, frequentemente associada a maior tempo de internação, necessidade de procedimentos invasivos e aumento do risco de recorrência ao longo do tempo.
No diagnóstico da diverticulite aguda, o exame de escolha é a tomografia computadorizada (TC) de abdome e pelve com contraste intravenoso. A TC permite confirmar a presença de divertículos inflamados, delimitar a extensão do processo inflamatório, identificar sinais de perfuração, abscessos ou obstrução e, além disso, auxiliar no planejamento terapêutico, como na decisão sobre drenagem de um abscesso guiada por imagem.
O ultrassom de abdome também pode ser utilizado como ferramenta diagnóstica, seja por radiologistas em ambiente de imagem convencional, seja como ultrassom à beira-leito em serviços de emergência. Essa modalidade pode ser especialmente útil em contextos em que se deseja evitar exposição à radiação ou em pacientes selecionados. No entanto, o material reforça que a tomografia computadorizada permanece como o exame recomendado de primeira linha.
Nos casos leves, de diverticulite não complicada, o manejo costuma ser conservador. O controle da dor é feito com analgésicos, sendo citado especificamente o uso de acetaminofeno (paracetamol) para alívio da dor abdominal. Além disso, recomenda-se uma dieta líquida clara nos primeiros 1 a 2 dias após o diagnóstico, até que haja melhora dos sintomas.
O uso de antibióticos orais não é necessário para todos os pacientes com quadro leve, sendo reservado para grupos de maior risco. Entre esses grupos estão pacientes com febre, idosos com mais de 80 anos, gestantes, indivíduos imunossuprimidos e pessoas com doenças crônicas relevantes, como cirrose, insuficiência cardíaca, doença renal crônica ou diabetes mellitus com controle glicêmico inadequado. Nesses perfis, a terapia antibiótica visa reduzir o risco de progressão do quadro para formas complicadas.
Já os pacientes com diverticulite complicada geralmente requerem internação hospitalar. O tratamento inclui administração de antibióticos intravenosos, drenagem de abscessos quando presentes, frequentemente guiada por métodos de imagem e, em situações selecionadas, cirurgia para ressecção de parte do cólon. A indicação cirúrgica costuma ocorrer em casos de perfuração, abscesso que não responde à drenagem percutânea, obstrução significativa ou fístulas com repercussão clínica importante. Dessa forma, o manejo da diverticulite aguda é apresentado como uma abordagem escalonada, que vai desde o cuidado ambulatorial com suporte clínico simples até intervenções invasivas em contextos de maior gravidade.
O prognóstico da diverticulite não complicada é, em geral, favorável. A maior parte dos pacientes apresenta melhora em poucos dias, com resolução completa dos sintomas dentro de 1 a 2 semanas. Ainda assim, a possibilidade de recorrência precisa ser considerada. Entre os pacientes que tiveram um episódio de diverticulite não complicada, novos episódios são observados em cerca de 13% a 23% dos casos. Já naqueles que apresentaram diverticulite complicada, a taxa de recorrência pode chegar a até 40%. Esses dados reforçam a importância do acompanhamento clínico, da estratificação de risco e da intervenção sobre fatores modificáveis sempre que possível.
Algumas medidas de estilo de vida podem estar associadas a menor risco de desenvolvimento de diverticulose. A prática regular de atividade física, especialmente exercícios como corrida, e a perda de peso com objetivo de alcançar um índice de massa corporal (IMC) em torno de 25 são apontadas como estratégias potencialmente protetoras. A maior parte dos casos de diverticulite é não complicada e apresenta bom prognóstico com manejo conservador. Entretanto, uma proporção relevante dos pacientes desenvolve formas complicadas, com perfuração, abscesso, obstrução ou fístulas, que exigem hospitalização, antibióticos intravenosos, drenagem por imagem e, em alguns casos, intervenção cirúrgica. A recorrência é relativamente frequente, sobretudo entre aqueles que já tiveram doença complicada, o que reforça a necessidade de seguimento e de abordagem dos fatores de risco modificáveis.
Referência:
Narayanan S, Jackson CD. What Is Diverticulitis? JAMA. Published online November 13, 2025. doi:10.1001/jama.2025.17403






