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Saúde Menstrual e Bebês Dinossauros

Saúde Menstrual e Bebês Dinossauros

No meio médico, cada vez mais temos visto profissionais explorando também outras profissões: vemos médicos que também são empresários, médicos que também são professores, pesquisadores, trabalham em áreas administrativas ou ligadas à inovação e tecnologia e, porque não, comediantes?

É isso que aconteceu com Ana Panigassi, médica ginecologista e obstetra, especialista em Medicina materno-fetal e Ultrassonografia, que, ao se mudar do Brasil para a Irlanda em 2015, sofreu profundas mudanças profissionais. Atualmente, ela trabalha com bioinovação e cuidados digitais em saúde, além de se dedicar à comunicação em saúde por meio de apresentações de Scicomm. Em sua apresentação “Menstrual Health and Baby Dinosaurs” no clube de standup comedy BrightClub Ireland, Ana traz uma reflexão sobre suposições na ciência.

Com seus cabelos cor-de-rosa, ela começa contando um pouco sobre sua trajetória profissional antes de entrar no tema principal: orgasmos. Sim, isso mesmo que você leu (eu, você e a plateia inteira rimos). Segundo ela, há muitos anos um pesquisador imaginou que devesse haver algum motivo médico pelo qual mulheres teriam orgasmos. Este homem supôs que as contrações da musculatura uterina e tubária que acontecem durante o orgasmo feminino seriam responsáveis por facilitar a fecundação. Ele simplesmente propôs isso e sua teoria foi tomada como certa.

Neste ponto, Ana faz um paralelo com outra suposição que ronda as nossas vidas cotidianas: a meta de 10 mil passos diários que consta nos smartwatches e aplicativos de fitness. Este número (de 10 mil passos) foi arbitrariamente proposto por um pesquisador japonês em um artigo publicado na década de 60, e, desde então, foi assumido como regra. Ela sugere uma suposição ainda melhor: bebês dinossauros. Geralmente, quando um paleontólogo encontra fósseis de um dinossauro de tamanho menor, ele é levado a pensar que acabou de descobrir uma nova espécie quando, muitas vezes, na verdade era somente o fóssil de um filhote de uma espécie que já havia sido descrita.

Continuando no tema sobre suposições, Ana retorna ao tema da saúde feminina. Ela conta que, durante os testes clínicos na época do lançamento das pílulas anticoncepcionais na década de 60, os pesquisadores adicionaram as pausas nas cartelas para que as mulheres pudessem menstruar. Somente em meados dos anos 1990 foram feitas pesquisas com uso contínuo dos anticoncepcionais orais. Ana ainda relata que, embora mulher e ginecologista, foi preciso que um professor explicasse, durante sua residência, que não há problemas em uma mulher não menstruar caso ela não queira.

De volta aos orgasmos (mais risos), Ana traz informações de uma pesquisa na área da neurociência na qual foram feitas ressonâncias magnéticas funcionais em homens e mulheres durante orgasmos. Para os homens, somente as áreas cerebrais relacionadas ao prazer foram ativadas, ao passo que, para as mulheres, além destas áreas, também foram ativadas as áreas relacionadas ao sistema límbico (ligado às emoções) bem como o hipocampo (relacionado à memória). Deste modo, em termos de biologia evolutiva, uma mulher seria condicionada a sempre buscar o mesmo homem para relações sexuais.

Ana conclui sua apresentação dissertando que, na grande maioria das vezes, as suposições na ciência e na vida são feitas ou quando a pessoa que as profere não entende muito bem do tema em questão ou elas têm algo a ganhar de tais proposições. Com muito humor e embasamento científico, ela sugere que sempre questionemos as ditas verdades, pois esta é a base da inovação.

Este standup de Ana Panigassi, bem como outras de suas apresentações, estão disponíveis no YouTube. Ana nos convida a sairmos de nossa zona de conforto e, claro, dar boas risadas. Confira o vídeo na íntegra abaixo e aproveite!

 


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Caroline Ahrens Ortolan
Caroline Ahrens Ortolan Seguir

Bióloga, especialista em Gestão Ambiental e acadêmica de Medicina na Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Adoro cozinhar, correr, praticar yoga e ler! Acredito numa Medicina cujo foco não seja na doença, mas sim no paciente.

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