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Sífilis: do sexo à punição

Sífilis: do sexo à punição

Uma noite com Vênus, uma vida com mercúrio. Esse foi um dos lemas reconhecidos acerca da sífilis.

A sua origem como doença é desconhecida, entretanto, as marcas culturais ecoam desde a relação íntima, até a hipótese do seu protagonismo na morte de populações indígenas. Por vezes uma herança colonial: todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro), disse Francisco Buarque de Hollanda em Fado Tropical.

Um treponema que não é pálido, nem viscoso. Real, vivo. Uma identidade cultural e estética. Identificada por pequenas ulcerações ao longo do corpo e posteriores ínguas genitais que denunciavam concretamente o castigo que estava por vir. Por fim, as gomas nas principais mucosas, dores de cabeça, delírios, alucinações, e até mesmo a morte. Bastou-se uma noite, para toda uma vida de sofrimentos.

Um fenômeno cultural que a sabedoria popular incorporou. De forma que, o pai de qualquer noiva deveria cumprimentar o noivo tocando na região superior próxima do cotovelo, a procura de alguma protuberância, que se revelaria a busca da evidência dos linfonodos epitrocleares, os quais a sabedoria popular relacionava a sífilis.

Uma moda, uma estética. As pequenas manchas enegrecidas ao longo do corpo, podem ter dividido junto com a tuberculose, a criação de um padrão estilístico. Enquanto a tuberculose influenciou através da palidez facial excessiva, as vestimentas brancas e bochechas avermelhadas, um padrão que remete as acometidas pelo bacilo de Koch, a sífilis traz as manchas enegrecidas, possivelmente, transformado em um artefato estético. De forma que, ter uma manchinha, uma pintinha, um sinal no rosto tornou-se um charme, quando outrora, era a marca da avariose, outro nome dado a sífilis.

A punição divina paga pela vida guiada por Vênus. Formatou-se como uma denúncia de um retrato moral e comportamental. Em face de uma sociedade marcada pela religiosidade que instrumentalizava o sexo e reprimia o feminino. Nasce o arquétipo da Femme Fatale (A mulher fatal), uma espécie de ninfa que tinha como único propósito atentar contra a vida dos homens. Geralmente retratadas com vestimentas pretas, associadas a comportamentos de perversões sexuais, más intenções e doenças, a mais famosa, novamente a sífilis.

Como bactéria, a Treponema pallidum é ordinária. Como fenômeno cultural é onde a doença mostra que não se evidenciou apenas pelas gomas, ulcerações e danos a órgãos internos.

A sífilis, foi antes de tudo, um retrato das repressões e preconceitos de uma época.

Um agradecimento especial ao Professor Áureo Lustosa Guérios pelo curso,  Humanidades Médicas: saúde e doença na história das artes, que como fruto provocou-me diversas reflexões, dentre elas, a apresentada nesse texto.

 


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Medicina em Crônicas - Elomar R. Moura
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Olá! Sou Elomar R. Moura (@medicinaemcronicas), 22 anos, de Aracaju - SE. Estudante de medicina da Universidade Tiradentes (UNIT) - SE. Um apaixonado pela literatura que escreve reflexões sobre a medicina tanto na sua prática, como na sua simbologia.

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