[ editar artigo]

Sífilis: do símbolo à misoginia

Sífilis: do símbolo à misoginia

Dentre várias doenças, síndromes e transtornos, poucas problemáticas se destacam por impelir ao seu portador as pechas de devassidão, loucura e culpabilização, ao mesmo tempo.

De origem ainda controversa, estabeleceu-se como o “Mal Francês”, “Mal francese”, “Morbus Gallicus”. Devido a algumas semelhanças estéticas com a varíola (Inglês = Smallpox, Francês = Petite Vérole), a sífilis (Inglês = Pox, Francês = Grande Vérole) também aproximou-se na representação linguística da época.

Doenças que envolvam cicatrizes, manchas, ulceras externas e qualquer chaga dermatológica sempre foram associadas a representações luciferianas e pragas, com a sífilis não seria diferente. Em face da sua natureza de contágio sexual e o contexto histórico, obviamente, algum grupo seria culpado pelo castigo divino que houvera chegado sob representação dessa doença.

Dessa forma, as mulheres que já carregavam o histórico da repressão doméstica, individual e sexual, desta vez também apresentava-se como veículo da doença que produzia uma estética peculiar. Em contraposição a beleza da tuberculose, visto que produzia uma visão angelical e imaculada das mulheres devido à palidez, a sífilis representava-se pelas manchas e a promiscuidade feminina.

Nas artes plásticas e na cultura, nasce o arquétipo intitulado de “La Femme Fatale” ou A Mulher Fatal. Representações modeladas por mulheres que eram capazes de seduzir e perverter os homens, na literatura enganar os heróis e distraí-los da sua jornada. Posteriormente, associada com a utilização de drogas, o viés misógino da representação dessa doença é clarividente.

Não foi a primeira, nem sequer a última vez que as mulheres serão responsabilizadas por desastres, epidemias e momentos de crise. Trata-se de mais um capítulo que relata os estereótipos que permeavam e ainda permeiam o imaginário coletivo, principalmente relacionado as infecções sexualmente transmissíveis.

 


Quer escrever?

Publique seu artigo na Academia Médica e faça parte de uma comunidade crescente de mais de 215 mil médicos, acadêmicos, pesquisadores e profissionais da saúde. Clique no botão "NOVO POST" no alto da página!


 

Academia Médica
Medicina em Crônicas - Elomar R. Moura
Medicina em Crônicas - Elomar R. Moura Seguir

Olá! Sou Elomar R. Moura (@medicinaemcronicas), 22 anos, de Aracaju - SE. Estudante de medicina da Universidade Tiradentes (UNIT) - SE. Um apaixonado pela literatura que escreve reflexões sobre a medicina tanto na sua prática, como na sua simbologia.

Ler conteúdo completo
Indicados para você