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Síndrome da Hiperêmese por Canabinoides

Síndrome da Hiperêmese por Canabinoides
Comunidade Academia Médica
nov. 26 - 4 min de leitura
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A síndrome da hiperêmese por canabinoides está se consolidando como um dos principais efeitos adversos do uso crônico de cannabis nos Estados Unidos. O estudo, publicado em Jama Network Open, realizado com dados nacionais de atendimentos em serviços de emergência, entre 2016 e 2022, mostrou um aumento de visitas compatíveis com com a síndrome, especialmente entre adultos jovens, com um pico durante a pandemia de COVID-19 e estabilização em patamar acima do período pré-pandêmico.

A síndrome da hiperêmese por canabinoides é caracterizada por episódios recorrentes de náusea intensa e vômitos, muitas vezes acompanhados de dor abdominal e de um comportamento típico: banhos quentes compulsivos para aliviar os sintomas. O risco é maior entre usuários de longa data (mais de seis meses), consumidores diários ou quase diários e usuários de produtos de alta potência, como vapes. Apesar desse perfil relativamente específico, muitos pacientes seguem sendo classificados como portadores de síndrome do vômito cíclico ou de quadros gastrointestinais inespecíficos, o que leva a múltiplas idas ao pronto-socorro, exames desnecessários e tratamentos pouco efetivos.

O estudo destaca um paradoxo: até 2019, mesmo com a expansão da legalização e o aumento da disponibilidade de produtos potentes de cannabis, não se observava um crescimento tão evidente de casos compatíveis com a síndrome. A virada ocorre em 2020 e 2021, quando as visitas médicas sobem de forma abrupta, acompanhando o aumento de diagnósticos relacionados à cannabis, enquanto o número total de diagnósticos de síndrome do vômito cíclico permanece relativamente estável. Isso sugere uma mudança na proporção de casos de êmese atribuíveis à cannabis, e não apenas um aumento geral de quadros de vômitos. A pandemia, com estresse, isolamento e provável aumento do consumo, é apontada como um catalisador desse movimento.

Os autores também levantam a hipótese de que, antes de 2020, a síndrome da hiperêmese por canabinoides estivesse subdiagnosticada ou mal classificada, em parte pela ausência de um código específico na CID-10. Até 2025, a identificação se baseava em combinações indiretas de códigos de êmese com diagnósticos relacionados à cannabis (abuso ou intoxicação). Um código dedicado para síndrome da hiperêmese por canabinoides só foi introduzido na atualização de 2025, o que deve facilitar a vigilância epidemiológica, desde que os profissionais reconheçam o quadro e o registrem de forma adequada.

O trabalho reconhece limitações importantes, como o uso de definições indiretas para síndrome, a subnotificação do uso de cannabis em contexto clínico, a possibilidade de confusão com outras causas de vômitos e o fato de o banco de dados contabilizar visitas, e não pacientes individuais. Ainda assim, a mensagem central é clara: a síndrome da hiperêmese por canabinoides  responde, hoje, por uma parcela crescente das apresentações por êmese nos serviços de emergência norte-americanos, em um contexto de legalização e maior acesso a produtos de alta potência.

Para médicos e serviços de saúde, a implicação prática é direta. Em pacientes, sobretudo jovens, com náusea e vômitos recorrentes, padrão de uso crônico de cannabis e relato de alívio com banhos quentes, é fundamental considerar síndrome da hiperêmese por canabinoides  no diagnóstico diferencial. Maior conscientização, triagem ativa para uso de cannabis e familiaridade com esse padrão clínico podem reduzir exames desnecessários, encurtar o percurso até o diagnóstico correto e abrir espaço para intervenções mais efetivas, centradas na redução ou suspensão do uso da droga.


Referência:

Swartz JA, Franceschini D. Cannabinoid Hyperemesis Syndrome, 2016 to 2022. JAMA Netw Open. 2025;8(11):e2545310. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.45310


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