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Sintoma, doença, síndrome e transtorno: você sabe a diferença?

Sintoma, doença, síndrome e transtorno: você sabe a diferença?

Frequentemente nos deparamos com esses termos e simplesmente aceitamos a nomenclatura sem entender bem a diferença e as informações clínicas contidas nas expressões. Mesmo os profissionais de saúde às vezes confundem um pouco as coisas com o passar do tempo. Então, vamos dar uma breve olhada nas definições e em alguns exemplos.

Sintoma

Sintoma se origina do grego sympitien, que significa "acontecer" [1]. Trata-se da percepção que o paciente tem de alterações no funcionamento normal de seu corpo e/ou mente. Como exemplos, podemos citar dor, cansaço, angústia, desânimo, entre outros.

Como os sintomas são relatados pela própria pessoa e não podem ser medidos, eles têm um caráter mais subjetivo e jamais devem ser ignorados ou minimizados pelo profissional de saúde. É fundamental que essas queixas sejam valorizadas, já que vão auxiliar na composição do quadro clínico.

Sintomas são diferentes dos sinais, já que estes são observáveis e/ou mensuráveis, tais como febre, hashes cutâneos, edemas, arritmias, dentre outros.

O conjunto de sinais e sintomas, aliado a exames complementares quando cabíveis, vão orientar os profissionais para as hipóteses diagnósticas de doenças, síndromes ou transtornos [2].

Doença

Por incrível que pareça, as definições de doença (ou do que é considerado doença) podem se alterar em função da época, do contexto social e do conhecimento científico naquele momento. A epilepsia, por exemplo, é considerada um dom espiritual entre tribos do sudeste asiático.

De acordo com o Dorland's Medical Dictionary e com o Merriam-Webster Dictionary, para que uma condição seja considerada doença é necessário atender aos seguintes critérios [2, 3]:

  1. causar um desvio ou interrupção da estrutura ou funcionamento normais de uma parte ou todo de um organismo;

  2. manifestar-se por meio de um conjunto de sinais e sintomas específicos; e

  3. a etiologia, patologia e o prognóstico não necessariamente precisam ser conhecidos.

Até pouco tempo atrás, saber a causa era necessário para que uma condição fosse considerada doença, mas as definições mais recentes parecem não incluir mais esse critério.

E por falar em causas, doenças podem ser provocadas por agentes externos ou por fatores internos. No primeiro grupo, temos como exemplos a COVID-19, a hanseníase e as micoses, causadas por coronavírus, bactéria e fungos, respectivamente. Já os fatores internos estão relacionadas a malformações (anatômicas) ou disfunções, tais como diabetes e lúpus.

Síndrome

A palavra síndrome tem origem do grego syndromé e significa "confluência, junção". Como o próprio nome sugere, refere-se a um conjunto de sinais e sintomas que caracterizam uma condição, mas que não necessariamente são exclusivos de uma única doença, ou seja, a sintomatologia não tem uma origem específica [2, 3]. Uma condição também pode ser chamada de síndrome quando o quadro clínico das doenças associadas não está bem definido.

Quando falamos de hipertireoidismo, por exemplo, estamos nos referindo a uma síndrome, pois o conjunto de sinais e sintomas podem ser causados tanto por doença de Basedow-Graves quanto por doença de Plummer, por exemplo [4].

Outro caso bastante atual é o da síndrome respiratória aguda grave (ou SARS, na sigla em inglês), que pode ser causada por SARS-CoV-2, mas apresentar a sintomatologia de SARS não quer dizer, obrigatoriamente, uma infecção por coronavírus [5].

Transtorno

Por fim, tem-se o transtorno, que é definido como um desarranjo ou anormalidade funcional, geralmente de ordem mental, que causa sofrimento ao indivíduo. Os quadros clínicos de transtornos geralmente não apresentam toda a sintomatologia ou causas bem definidas, de modo que não podem ser classificados como doenças ou síndromes (embora possam estar associados a elas) [3, 6].

Os transtornos, às vezes chamados de distúrbios, apresentam uma etiologia complexa que decorre da interação entre aspectos biológicos (as idiossincrasias do indivíduo), psicológicos e sociais (relação desse indivíduo com a sua história e com o meio em que vive).

Além disso, profissionais da área de saúde mental argumentam que o termo transtorno contribui para minimizar os estigmas e preconceitos históricos relacionados ao sofrimento mental.

Dentre os exemplos mais comuns, podemos citar os transtornos de ansiedade, o transtorno depressivo maior, transtorno do espectro autista, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, dentre outros.

Comentários Finais

Como vimos ao longo do texto, existem critérios para designar uma determinada condição de saúde e os termos utilizados para tal contêm por si só informações implícitas sobre a disfunção associada. Isso é relevante tanto sob o aspecto didático quanto clínico.

Nem sempre a nomenclatura de uma determinada condição segue os critérios aqui descritos. A síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS, na sigla em inglês), por exemplo, embora já tenha sintomatologia e etiologia bem definidas, permaneceu com esse nome por razões históricas.

Por outro lado, algumas condições podem ter suas designações revisadas, como a síndrome de Asperger, que recebeu esse nome em homenagem ao pediatra e psiquiatra austríaco que a identificou, mas que também contribuiu para o regime nazista, condenando diversas crianças à morte [7].

Por último, mas não menos importante, é sempre válido ressaltar que diagnósticos não devem ser encarados como rótulos atribuídos a pessoas, mas como uma diretriz que norteia sobre as melhores práticas para cuidar daquele paciente.

Por trás de qualquer condição médica existe um ser humano que se apresenta em uma situação de vulnerabilidade e, antes de mais nada, necessita de acolhimento.

Referências

  1. UNICAMP. Exame Clínico. Disponível em: https://w2.fop.unicamp.br/ddo/patologia/downloads/db301_un1_ExameClinico.pdf. Acessado em 30 de maio de 2020.
  2. WEBSTER. Dicionário Marriam-Webster. Disponível em: https://www.merriam-webster.com/dictionary/. Acessado em 01 de junho de 2020.
  3. ALBERT, Daniel et al. Dorland’s Illustrated Medical Dictionary. 2012.
  4. PORTO, C. C. Porto e Porto Semiologia Médica. 2015.
  5. JIH, Thomas Kuen-Shan. Acute respiratory distress syndrome (ARDS) and severe acute respiratory syndrome (SARS): are we speaking different languages?. Journal of the Chinese Medical Association, v. 68, n. 1, p. 1-3, 2005.
  6. TOLEDO, Edson. Entenda a diferença entre doença, transtorno, síndrome, sintoma e sinal. Disponível em: http://www.vyaestelar.com.br/post/2982/entenda-a-diferenca-entre-doenca. Acessado em 03 de junho de 2020.
  7. NATURE. The truth about Hans Asperger’s Nazi collusion. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-018-05112-1. Acessado em 04 de junho de 2020.

 

Academia Médica
Felipe Dalvi
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Engenheiro biomédico, doutor em Modelagem Computacional e atual acadêmico de Medicina na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Sou colunista do Alpha Squad e entusiasta da visão integrada entre mente e corpo.

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