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Somos médicos ou empresários?

Somos médicos ou empresários?

Há algum tempo atendi um paciente de 14 anos totalmente saudável que iria realizar uma ultrassonografia de abdome total devido a uma dor, em pontadas, no hipocôndrio esquerdo e associada a atividade física intensa, que melhorava imediatamente com o repouso.

Além desse exame, o paciente iria realizar mais de cem tipos (literalmente) de outros exames, entre exames de sangue, urina e Rx de tórax!

Gastei 5 minutos conversando com paciente e o pai que o acompanhava antes do exame para ter certeza de que a dor dele se tratava de uma câimbra de diafragma, comum na idade! Então eu perguntei ao pai:

 

- Mas o médico dele não disse do que se tratava a causa da dor?

- Não doutor – respondeu ele – Ele disse que só ia dizer alguma coisa depois dos exames!

O médico era famoso na cidade pelos títulos que ostentava nos seus pedidos de exames, tantos e tão numerosos que ocupavam pelo menos metade da página!

Fica claro, pelo caso em questão, que esse médico não faz um diagnóstico sequer há muito tempo, apenas se limita a tratar as alterações dos resultados dos exames que ele solicita e, evidentemente, ao solicitar mais de cem tipos de exame a uma pessoa saudável, algum ou alguns deles sempre mostrarão alguma alteração (falsos positivos)!

Esse médico atende em sua própria clínica, que também realiza todos os exames que ele mesmo solicita. Não preciso dizer que ele sempre pede aos seus clientes que façam o exame lá, por uma questão de “confiança”! Esse caso, em particular, escapou da clínica por questões de convênio e acabou vindo realizar comigo!

Para completar, após esclarecer ao pai e ao paciente que o problema dele não era nada demais, tive a curiosidade de perguntar ao pai se ele não tinha estranhado o fato de o médico ter pedido tantos exames assim (mais de cem, como eu já disse antes) para um problema aparentemente simples; a resposta dele foi imediata:

 

- Não doutor, os exames para avaliar a dor eram apenas o abdome total e o Rx de tórax, todos os outros eram exames de rotina.

- Ahhhhh sim, entendi... – Respondi.

 

A minha dúvida é:

Se os médicos estão se tornando homens de negócio e se esquecem de ser médicos, quem vai cuidar de nós na velhice? E dos nossos filhos?

Serão os robôs?

 


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Renato Paula da Silva
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Médico com 20 anos de formado e 14 destes dedicados exclusivamente à área de diagnóstico por imagem, atua atualmente na cidade de Brasília, mas já morou em São Paulo (capital e interior) e em Salvador (cidade natal)!

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